19 de outubro de 2026

Economia, Democracia e Financeirização na Crítica de César Locatelli, por Fernando N. da Costa

A questão central: por quais razões sociedades capazes de produzir riqueza crescente continuam reproduzindo desigualdades profundas?
César Locatelli

Homenagem a César Locatelli na FESPSP incluiu palestra de Luís Nassif e lançamento do livro “Desigualdade S.A.” em 17/10/26.
Locatelli analisa desigualdade política, destacando feedback entre concentração econômica e poder político no Brasil.
Autor critica austeridade e política monetária, relacionando decisões econômicas a interesses distributivos e poder financeiro.

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Economia, Democracia e Financeirização na Crítica de César Locatelli

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por Fernando Nogueira da Costa

Tive a oportunidade de comparecer à homenagem post-mortem ao César Locatelli na FESPSP no dia 17/10/26. Contou com a presença de familiares, amigos e docentes. Assistimos também a uma palestra do Luís Nassif sobre o papel político do jornalismo brasileiro.

Houve o lançamento do seu livro eletrônico, disponível para download gratuito, Desigualdade S.A. e o Poder Político do Capital (São Paulo: Associação Brasileira de Economistas pela Democracia – ABED, 2026). Reúne artigos publicados entre 2015 e 2024, acompanhados de dois ensaios mais extensos. Embora não tenha sido originalmente concebido como uma obra teórica unitária, a coletânea permite reconstruir uma interpretação coerente da Economia Política brasileira contemporânea.

Sua questão central pode ser formulada assim: por quais razões sociedades capazes de produzir riqueza crescente continuam reproduzindo desigualdades profundas, mesmo quando dispõem de instituições democráticas e instrumentos de política econômica para combatê-las?

A resposta defendida por Locatelli desloca a discussão do terreno estritamente econômico para o político-institucional. A desigualdade não seria apenas consequência das diferenças individuais de produtividade, escolaridade, esforço ou capacidade empresarial. Ela resultaria, sobretudo, da distribuição assimétrica do poder econômico e de sua conversão em influência sobre decisões políticas.

O argumento fundamental aponta uma retroalimentação: a concentração da riqueza proporciona poder político; esse poder influencia as instituições e as políticas econômicas; tais políticas favorecem a reprodução e a ampliação da concentração patrimonial. Esse mecanismo de feedback constitui a principal contribuição interpretativa da coletânea.

A trajetória intelectual do autor ajuda a compreendê-lo. Locatelli trabalhou no mercado financeiro, em bancos nacionais e internacionais, antes de aprofundar sua formação em Economia Política na PUC-SP. Posteriormente, participou do jornalismo independente e da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia. Essa combinação de experiência financeira, formação acadêmica e militância democrática explica sua preocupação em revelar os interesses econômicos frequentemente ocultados pela linguagem aparentemente neutra da política econômica. A obra apresenta, portanto, uma característica interessante: é uma crítica do poder financeiro elaborada por alguém familiarizado com seu funcionamento operacional.

A tese principal é a desigualdade ser produzida e reproduzida politicamente. O título do livro provém de um artigo de janeiro de 2024, inspirado no relatório Desigualdade S.A., da Oxfam. Nesse texto, Locatelli destaca a crescente concentração dos lucros empresariais e sua transferência aos acionistas, em vez de sua utilização na ampliação dos investimentos produtivos.

Segundo os dados reproduzidos pelo autor, 96 grandes empresas mundiais acumularam aproximadamente US$ 1,1 trilhão em lucros entre julho de 2022 e junho de 2023. Desse montante, US$ 913 bilhões foram destinados à distribuição de dividendos e à recompra de ações. Isso corresponde a aproximadamente 82,5% dos lucros.

O fenômeno é interpretado como expressão de uma transformação na distribuição dos resultados da atividade econômica: uma parcela extraordinária dos lucros beneficia proprietários de capital, enquanto trabalhadores enfrentam perdas salariais e restrições de emprego.

Mas Locatelli não encerra sua análise na distribuição funcional da renda. Seu argumento avança para o poder político: empresas e grandes proprietários utilizam sua influência para defender regimes tributários favoráveis, privatizações, restrições ao gasto social e políticas monetárias remuneradoras da riqueza financeira.

Forma-se, assim, um mecanismo de retroalimentação: concentração econômica → poder político → decisões institucionais favoráveis ao capital → maior concentração econômica. Esse circuito de feedback é importante porque permite compreender a desigualdade como processo cumulativo, e não apenas como uma distribuição estatística observada em determinado momento.

A originalidade do argumento não está em descobrir a influência política do capital, tema clássico da Economia Política, mas em relacioná-la às decisões concretas de política econômica no Brasil.

Sua estrutura argumentativa vai da análise dos direitos sociais ao poder financeiro. A coletânea não apresenta capítulos organizados segundo uma progressão teórica previamente planejada. Os artigos seguem predominantemente uma sequência cronológica.

Entretanto, é possível identificar cinco movimentos argumentativos capazes de conferirem unidade ao conjunto. O primeiro movimento diz respeito à disputa distributiva e aos direitos sociais. Os artigos publicados durante a crise política de 2015-2016 constituem o primeiro núcleo.

Em O povo não pode pagar pela crise?, Locatelli questiona a ideia de que a austeridade fiscal seria uma resposta tecnicamente inevitável à deterioração das contas públicas. Sua crítica consiste em demonstrar decisões apresentadas como exigências objetivas da economia possuem consequências distributivas distintas.

Reduzir despesas com educação, investimento público ou proteção social significa transferir parte do custo do ajustamento aos trabalhadores e à população de menor renda. Essa preocupação reaparece na série de artigos intitulada Por que eles querem tomar o poder, dedicada ao Minha Casa, Minha Vida, às privatizações, aos direitos trabalhistas, ao Prouni, ao Bolsa Família e ao salário mínimo.

O argumento comum é as políticas públicas redistributivas modificarem a apropriação dos recursos econômicos e, por isso, provocarem resistências dos grupos historicamente beneficiados pela distribuição anterior. Locatelli interpreta a crise política brasileira como conflito envolvendo não apenas o comando do governo, mas também a continuidade de determinadas conquistas sociais. Sua abordagem aproxima-se da tradição da Economia Política do conflito distributivo: as decisões econômicas são inseparáveis das relações de poder entre grupos sociais.

O segundo movimento enxerga o Estado como instrumento de desenvolvimento. O artigo Um banco imaginário exemplifica a habilidade didática do autor.

Locatelli propõe inicialmente a criação hipotética de um banco público capaz de financiar investimentos de longo prazo, oferecer crédito a custos inferiores aos praticados pelo mercado e atuar contra cíclico. Depois revela tratar-se do BNDES.

O procedimento argumentativo é eficiente porque obriga o leitor a avaliar as funções econômicas da instituição antes de confrontá-las com preconceitos favoráveis ou contrários à intervenção estatal.

A análise destaca uma distinção fundamental entre rentabilidade privada e retorno social. Investimentos em infraestrutura, inovação e desenvolvimento produtivo podem produzir benefícios coletivos superiores aos lucros diretamente apropriados pelo financiador.

O autor também discute o papel do Tesouro no financiamento do banco e compara seus custos aos encargos financeiros da dívida pública. A defesa dos bancos públicos reaparece nos artigos sobre privatização, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Petrobras. O Estado é concebido como instituição capaz de coordenar investimentos, financiar projetos de longa maturação e sustentar a atividade econômica durante crises.

Nesse ponto, Locatelli aproxima-se claramente do desenvolvimentismo estruturalista brasileiro, especialmente da tradição associada a Celso Furtado. Seu argumento não pressupõe a inexistência de falhas estatais. Sustenta que a avaliação das instituições públicas deve considerar suas funções econômicas e sociais, e não exclusivamente critérios privados de rentabilidade.

O terceiro movimento – a política monetária como mecanismo de distribuição de renda – é especialmente relevante para a discussão da Teoria do Valor Financeiro, feita por mim recentemente, já não contando com a contribuição de Locatelli em nossos debates.

Diversos artigos questionam a política de juros elevados, a atuação do Banco Central e a influência das expectativas formuladas pelos participantes do mercado financeiro. Em Sobre o veto de Dilma à auditoria da dívida, Locatelli demonstra conhecimento dos instrumentos financeiros envolvidos na administração da dívida pública. Discute títulos públicos, deságios, taxas de juros, operações compromissadas, swaps cambiais e dificuldades de avaliação retrospectiva das operações financeiras.

O aspecto mais significativo é sua percepção de os beneficiários dos juros elevados não se limitarem aos bancos. Empresários, comerciantes, famílias de renda média e investidores institucionais também podem participar da apropriação dos rendimentos proporcionados pelos títulos públicos. O autor identifica, portanto, uma base social relativamente ampla de interesses associados à manutenção de taxas elevadas.

Isso constitui uma observação importante: a renda financeira não é apropriada exclusivamente por uma classe de banqueiros; sua distribuição depende da propriedade dos ativos financeiros. Entretanto, como os patrimônios são muito desigualmente distribuídos, a apropriação dos rendimentos também tende a ser concentrada.

Essa análise antecipa uma questão central da TVF: a importância da composição dos patrimônios e da estrutura institucional de remuneração dos ativos.

O argumento ganha maior densidade no ensaio Fragilidades das previsões do Focus e do Copom. Diferentemente de artigos predominantemente opinativos, esse trabalho desenvolve uma investigação empírica.Locatelli examina 34 atas de reuniões do Copom, entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2023, confrontando previsões utilizadas nas decisões monetárias com resultados posteriormente observados.

Sua conclusão é as previsões apresentarem fragilidades importantes, comprometendo a pretensão de fundamentar decisões monetárias exclusivamente em critérios técnicos.

A questão teórica subjacente é profunda. Se as decisões sobre juros dependem de expectativas relativas a um futuro fundamentalmente incerto, não podem ser consideradas simples aplicações mecânicas de conhecimentos científicos incontroversos. Existem escolhas políticas, hipóteses discutíveis e interesses distributivos.

Locatelli questiona, assim, a separação convencional entre uma política monetária supostamente técnica e uma política fiscal reconhecidamente política. Essa crítica aproxima-o da tradição keynesiana da incerteza e das abordagens institucionalistas da política monetária.

Contudo, o argumento precisa de uma qualificação: a constatação de erros de previsão não demonstra, isoladamente, determinada decisão ter sido motivada por interesses particulares. Ela demonstra os limites informacionais da decisão. A identificação de influência política exige investigação institucional complementar. Essa distinção fortaleceria a crítica.

O quarto movimento argumentativo aparece na crítica sistemática ao neoliberalismo. Locatelli questiona a apresentação da austeridade fiscal como necessidade natural decorrente da escassez de recursos públicos e a reapresenta como projeto político.

Sua interpretação é restrições fiscais e monetárias poderem funcionar como instrumentos de reorganização das relações de poder entre capital e trabalho. Essa perspectiva aparece particularmente na resenha de A ordem do capital, de Clara Mattei.

Ao examinar a experiência histórica posterior à Primeira Guerra Mundial, Locatelli destaca o argumento de a austeridade ter contribuído para enfraquecer organizações trabalhistas e restaurar relações sociais favoráveis aos proprietários de capital.

O ajuste econômico, portanto, não seria apenas uma técnica de estabilização. Funcionaria como mecanismo de disciplinamento social.

Essa interpretação aproxima-se da tradição marxista, mas também dialoga com a Economia Política institucionalista, na medida em que atribui importância às decisões estatais, às regras e às relações de força. A contribuição desse conjunto de textos está em questionar a suposta neutralidade distributiva da política econômica.

Seu limite aparece quando a crítica à austeridade tende a tratar políticas restritivas como expressão quase direta dos interesses do capital. Uma análise institucional mais completa precisaria distinguir situações de restrição financeira efetiva, conflitos entre objetivos macroeconômicos, limitações políticas e escolhas deliberadamente distributivas. Nem toda política restritiva decorre necessariamente de uma estratégia consciente de concentração de riqueza, embora possa produzir esse resultado.

O quinto movimento amplia o horizonte da análise. A desigualdade não é considerada apenas uma questão interna aos países. Ela também decorre das assimetrias internacionais de poder econômico, tecnológico, financeiro e político.

Nos artigos sobre China, BRICS, neoliberalismo e ordem internacional, Locatelli defende uma reorganização multipolar das relações econômicas. A aproximação com a China aparece como oportunidade de diversificação das relações internacionais e ampliação da autonomia dos países periféricos.

A argumentação dialoga com Celso Furtado e com interpretações críticas da dependência. A concentração internacional do poder financeiro e tecnológico condiciona as possibilidades nacionais de desenvolvimento. Essa dimensão amplia a tese central de Locatelli: a concentração do capital produz desigualdades tanto dentro das sociedades quanto entre países.

Há, entretanto, uma tensão pouco explorada.

A ampliação do comércio com a China pode fortalecer a capacidade externa brasileira, mas também consolidar uma especialização exportadora baseada em commodities.

O próprio Locatelli reconhece o problema da desindustrialização e da dependência de produtos primários. Sua análise aponta, portanto, para a necessidade de uma política nacional de desenvolvimento capaz de aproveitar a multipolaridade sem reproduzir uma inserção internacional subordinada.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]. 

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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