A banalidade do mal e as eleições no Brasil, por Ricardo Viveiros
“O problema não é acreditar em uma mentira, é quando a verdade já não importa”, escreveu Hannah Arendt, filósofa alemã de origem judaica, que se tornou uma das mais influentes pensadoras políticas do século 20. As reflexões de Arendt sobre o totalitarismo e o que caracterizou com clareza a banalidade do mal, trazem algo até hoje revelador.
Quando as mentiras de alguns líderes são desmascaradas, poucas pessoas se colocam indignadas, ou entendem que foram enganadas. Ao contrário, ironicamente passam a admirar a inteligência, a esperteza estratégica do mentiroso. Ou seja, naturalizam que não era um golpe, mas uma astúcia para que o suposto “salvador da pátria” conduzisse a todos para um estado de coisas imaginariamente melhor.
Acreditar em tudo ou em nada, parte do princípio de induzir a todos a que tudo é possível, porque nada é verdadeiro. Diante de um fantasioso caos, só atitudes radicais podem ser soluções seguras para o que ameaça o conjunto da sociedade. Pablo Marçal, Mamãe Falei, Renan Santos, Flavio Bolsonaro e outros políticos oportunistas surgem desse princípio.
Você deve estar se perguntando: “Como alguém pode acreditar nisso?”. Pois é… Arendt dá a resposta em uma só palavra, que tem até um viés bonito: ideologia. É pegar a lógica de um determinado tema e ultrapassar todos os limites, a tal ponto que ela resolva tudo.
Algo que acontece assim. Quando confirma, torna-se testemunho válido. Quando contraria, é porque foi manipulado. Então, fica implicitamente “provado” que há uma conspiração. E tudo se inverte, a realidade não mais confronta a crença. É o que você acredita, independentemente de ser verdade, que decide o caminho a ser obedecido.
Tudo isso atrai os menos informados, como também até os mais informados. Porque não se fundamenta na lógica, e sim no efeito de tornar a realidade algo fluido, complexo, intangível. A ideologia pretendida como única saída, mesmo que baseada em mentiras, é tão bem planejada, proposta, que traz uma solução mágica para o ideal, o perfeito e de interesse geral.
Hannah Arendt, em suas reflexões sobre o totalitarismo e a banalidade do mal, mostra uma inquietude ainda mais preocupante. O fanatismo radical é menos perigoso do que a desesperança. Quando fato e versão dele já não importam, é porque a mentira foi naturalizada e perdoada. Nesse contexto, é prática inverter a responsabilidade atribuindo a culpa do ato violento a quem o sofreu, como ocorre em casos de feminicídio e homofobia. O medo, a vergonha e a pressão social ainda fazem com que abusos sejam escondidos, minimizados ou confundidos com cuidado ou “equivocada brincadeira”. Pior, “legítima defesa”.
A história nos mostra que muitos criminosos de guerra, autores de atentados contra a humanidade, acreditavam piamente que estavam fazendo o certo, o melhor, o necessário. E os seus seguidores também. Há quem não admita o erro, mesmo diante da constatação da verdade. Nem sempre é o típico teimoso, mas muitas vezes alguém dominado pela crença inquestionável no que lhe parece melhor para si e para todos os demais.
Estamos observando na campanha política destas eleições, que um candidato, Flavio Bolsonaro, ataca o seu adversário usando os erros que ele, Flavio, e sua família cometeram. E, cinicamente, como se não fossem culpados do que é público e notório. Para alimentar sua estratégia, ao criar factoides contra Lula, faz com que os menos atentos entendam que o adversário é que se tornou o criminoso.
Hannah Arendt escreveu e publicou seus livros entre os anos 1950 e 1970. Observem que suas reflexões seguem atuais, merecendo nossa atenção no que ela pensou sobre o jogo político. Arendt morreu em Nova York (EUA) em 4 de dezembro de 1975. Enfrentou o nazismo, foi presa e escapou da morte. Lutou pela liberdade por toda a vida. Sua mensagem permanece eterna: “Todos são chamados a examinar as leis e a defender a dignidade humana e a democracia”.
Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM), membro da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e dos Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de “A vila que descobriu o Brasil”, “Memórias de um tempo obscuro” e “Um inferno em Mianmar – Os perigos da escravidão moderna”.
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