Eleições 2026: A guerra é o destino dos não-preparados
A polarização política brasileira atingiu seu auge agora, nas vésperas do segundo turno das eleições presidenciais. Já havíamos designado, na inversão Clausewitziana, que o resultado político é realização militar de um país cujo principal recurso hegemônico é a máquina de guerra – e, parece agora, que esse resultado político é a polarização realizada em guerra civil
por Aleksandr Dashichev e Isabela Rocha-Dashicheva
Imagine, por um momento, a existência de um país que dispõe de uma capacidade sem precedentes de influenciar a política mundial. Esse país também tem certos interesses em diversas regiões do mundo e, naturalmente, deseja realizá-los com o mínimo de esforço possível. Suponha agora que exista um outro país de relevância global, com um potencial extraordinário, no qual um confronto político tenha cristalizado duas forças, distintas essas pela seguinte característica: uma concebe o poder como um meio; a outra, como um fim. Sendo você essa potência geopolítica que deseja um regime conveniente em uma região de interesse, a quem daria seu apoio?
De fato, aqueles que buscam o poder pelo poder seriam a melhor opção, pois seu horizonte se limita a ocupar o cobiçado trono. Já temos analisado, nos textos que estivemos publicando, a conexão entre o Bolsonarismo e os interesses norte-americanos, em particular agora com Trump.
Em “Para além das tarifas, a disputa está na cognição”, analisamos como Trump articulou a defesa de Jair Bolsonaro e dos interesses das plataformas norte-americanas à ameaça de tarifas contra o Brasil, convertendo pressão comercial em instrumento de intervenção política. Em “O ataque ao PIX, à LGPD e ao Judiciário como estratégia de guerra híbrida”, situamos a contestação de Trump ao processo judicial contra Bolsonaro em uma ofensiva que alcança também os sistemas de pagamento, a proteção de dados e a capacidade brasileira de estabelecer suas próprias regras. Mais recentemente, em “Entre terras raras e dados: a disputa pela soberania tecnológica do Brasil”, examinamos como pressões econômicas e diplomáticas norte-americanas repercutem na disputa eleitoral brasileira, em um contexto de competição pelo controle de minerais críticos, dados e infraestrutura tecnológica.
Não estava claro até agora, no entanto, qual seria o objetivo da estratégia americana com o Brasil. Era evidente que os EUA estariam recorrendo à máquina de guerra para resolver seus tensionamentos nas relações internacionais, como foi com a Venezuela no início do ano, e que a guerra era seu principal instrumento político num arranjo qual seu papel hegemonia econômica, normativa, política ou cultural passa a ser contestado. E, ainda que soubéssemos da centralidade estratégica de assegurar a posição Brasileira como um país subjugado ao ocidente, e alinhado irrestritamente com os EUA, foi só agora, com a campanha de Flávio, que ficou claro que o American Dream para o Brasil é a guerra civil.
A guerra civil no Brasil como objetivo estratégico
Qual tem sido a arma de confiança daqueles que desejam impedir rupturas na ordem vigente? Precisamente a estratégia do divide et impera: dividir para governar.
O elemento cognitivo, novamente, é central. Em artigo publicado na Revista InterAção, retomamos a sistematização de Paul Linebarger, pai das Operações Psicológicas como doutrina militar inerentemente ocidental, para discutir como sua eficácia reside na capacidade de alterar a disposição coletiva do agir: enfraquecer a vontade de resistência do adversário, produzir consentimento e induzir decisões favoráveis aos interesses de quem conduz a operação. A ação sobre a consciência coletiva integra o planejamento estratégico, preparando as condições em que a força poderá ser empregada, aceita ou sequer se tornar necessária.
Nesse processo, conhecer os medos, as aspirações e as divisões internas de uma sociedade permite explorar suas vulnerabilidades. No Brasil, as redes sociais estão repletas de cortes que exaltam o hedonismo e as soluções fáceis. Milhões de pessoas sufocam e sufocaram o debate com condutas violentas e vitimização. Enquanto isso, fora do espelho-negro do smartphone, universidades estão sendo incendiadas. Pessoas recebem ameaças e têm suas informações pessoais divulgadas com intenções maliciosas. Para quem sabe onde olhar, esses fatos compõem uma estratégia destinada a abrir fissuras na bela história de um país que se torna uma força que já não se pode ignorar.
O pai tinha como resultado político a polarização, sem precedentes no Brasil antes de 2018 e 2022. O resultado militar, cujo filho é o principal instrumento, é a guerra civil. E essa é a hipótese estratégica que propomos examinar: a produção de um conflito interno capaz de tornar a intervenção estrangeira aceitável, senão desejável ou apresentada como inevitável.
Algumas propostas que hoje circulam em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro precisam ser examinadas à luz desse risco. Na entrevista ao Jornal Nacional de 16 de outubro, o candidato tratou como “detalhezinho” a discussão sobre a retirada da identificação das munições, prevista no Projeto de Lei 3.723/2019. A marcação permite rastrear sua origem e investigar desvios, inclusive de material adquirido pelas forças de segurança, e enfraquecer esse mecanismo significa reduzir a capacidade de reconstituir os caminhos da violência e identificar responsabilidade. Esse cenário se agrava quando, em um ambiente de hostilidade política, a dificuldade de determinar quem armou, quem forneceu e de onde veio o disparo também alimenta novas retaliações.
A isso se somam as propostas de flexibilização do armamento civil anunciadas por aliados da candidatura, compondo a agenda ampla já defendida pelo pai antes e durante seu governo de 2019-2022. Marcos Pollon, apresentado por Flávio para atuar na área de controle de armas em uma eventual transição, e Paulo Bilynskyj defendem a revogação de restrições e uma autorização para o porte semelhante à obtenção de uma carteira de motorista. E aqui é preciso delimitar: ampliar o acesso às armas, reduzir mecanismos de rastreamento e cultivar a percepção do adversário como ameaça existencial produz as condições para que antagonismos políticos adquirem expressão armada.
Ainda em 2022 e após a vitória eleitoral do Lula, em preparação aos ataques do 8 de janeiro, os resultados dessa combinação já se manifestavam na preparação de violência política: em depoimento à Polícia Civil do Distrito Federal, George Washington de Oliveira Sousa, envolvido na tentativa de atentado a bomba nas proximidades do aeroporto de Brasília, afirmou que pretendia distribuir armas e munições a outros CACs acampados diante do Quartel-General do Exército, visando armar os Bolsonaristas e “dar início ao caos”. Esse relato, novamente, nos evidencia o elemento cognitivo dessa mobilização: convencido de que precisava impedir a instauração do comunismo e frustrado pela ausência da intervenção militar que esperava, George afirmou ter decidido elaborar um plano para provocá-la.
A tentativa de golpe de Bolsonaro falhou, mas a mobilização de sua base segue forte, e, com uma eventual flexibilização do acesso ao armamento, será armada.
Nos EUA, é possível comprar armas de fogo no supermercado. Flávio e seu campo defendem a ampliação do armamento civil sob a promessa de proteção, mas a experiência norte-americana expõe o custo humano de uma sociedade atravessada pelas armas. Os Estados Unidos registraram 39 tiroteios escolares com feridos ou mortos em 2024 e 18 em 2025 que resultaram em feridos ou mortos. Foram 57 episódios em apenas dois anos, considerando somente ocorrências em escolas de educação básica ou ônibus escolares, durante aulas ou atividades promovidas pelas instituições, com vítimas atingidas por disparos.
Essa pode ser a nova realidade do Brasil.
Entre a facilidade de se armar e a mobilização dos afetos retomamos a hipótese da guerra civil. Quando o adversário político passa a ser percebido como uma ameaça à própria existência, a violência adquire, para quem a pratica, o sentido de defesa, dever ou salvação nacional – em ressonância com a Segunda Emenda Americana, que assegura o direito do cidadão americano de carregar armas para defender sua liberdade. Deseja o Brasil ser mais como os Estados Unidos?
Um futuro soberano é possível
Assegurar o alinhamento brasileiro significa influenciar os rumos da América do Sul. É nesse contexto que a promessa de Flávio de integrar o Brasil ao Escudo das Américas merece atenção: ao apresentar a liderança norte-americana como resposta à suposta incapacidade brasileira de enfrentar as facções, o candidato vincula a segurança interna à proteção estrangeira. A perspectiva já desperta apreensão entre militares brasileiros, preocupados com operações estrangeiras em território nacional e com a possibilidade de subordinação aos Estados Unidos.
Uma escalada da violência interna poderia tornar essa dependência aceitável: submetida ao medo e à percepção de colapso causada por uma guerra civil, uma sociedade pode consentir, em nome da pacificação, em concessões que antes rejeitaria. O combate ao “narcoterrorismo” ofereceria a justificativa para apresentar a intervenção como proteção. Preservar a soberania exige enfrentar essa vulnerabilidade, fortalecendo nossa capacidade de resolver conflitos, proteger a população e sustentar decisões próprias. O futuro brasileiro depende também da disposição de reconhecê-lo como uma responsabilidade compartilhada e de definir, a partir dela, o interesse nacional.
Na era contemporânea, a dispersão do poder geopolítico volta a colocar o interesse nacional no centro das atenções. Defini-lo exige uma visão de futuro conscientemente escolhida e uma estratégia capaz de sustentá-la ao longo do tempo, inclusive quando ela entra em conflito com os interesses de outras potências. Um país pode reunir recursos, ampliar sua influência e, ainda assim, perder a oportunidade de decidir o que pretende fazer com suas capacidades. Contudo, os Estados que se mantêm atentos a essa questão e assumem o controle de seus próprios interesses são aqueles que, ao fim, se tornam sujeitos, em vez de objetos dos jogos alheios.
Essa capacidade de decisão também depende dos vínculos que uma sociedade consegue preservar. Um projeto de futuro precisa encontrar sustentação entre cidadãos que, apesar de suas diferenças, reconheçam algo que desejam construir e proteger juntos. Quando o medo transforma o concidadão em inimigo, enfraquecem-se as condições políticas para qualquer compromisso duradouro. Defender a soberania exige, portanto, cuidar da comunidade que lhe dá sentido.
Hoje, um cidadão politicamente ativo enfrenta uma pressão sem precedentes. Muitos são tomados pelo pânico, presos às oscilações de fluxos manipuladores de informação e ao turbilhão emocional que os acompanha. Há, porém, uma boa notícia. Essa pressão e o desconforto existencial que ela provoca são o preço de ter relevância global.
A responsabilidade de poder influenciar a história humana tem um custo elevado. Há sempre uma tensão entre a situação presente de uma pessoa e as possibilidades de realização de sentido que ainda lhe cabem concretizar. Isso também significa que o exercício político do livre-arbítrio pressupõe que os cidadãos sejam capazes de colocar o interesse nacional acima da necessidade de aliviar o estresse e o desconforto. O século XX nos legou muitos ensinamentos a esse respeito. Crescemos pela autotranscendência, para além da satisfação de nossos desejos e necessidades individuais: esse é o legado do grande Viktor Frankl.
Em tempos de adversidade, a união se torna o remédio mais poderoso. Nosso livre-arbítrio não precisa ser desperdiçado na reprodução das experiências tóxicas do passado. Alguns citarão Clausewitz: “a guerra é a mera continuação da política por outros meios”. Outros citarão Foucault: “a política é a continuação da guerra civil”. A lição, na verdade, está em outro lugar. A polarização é incompatível com uma concepção sólida do interesse nacional. Quando grupos políticos de um mesmo Estado deixam de se reconhecer como representantes de uma mesma comunidade, traem seu futuro compartilhado e abrem uma ferida que jamais cicatrizará. As pessoas talvez nunca concordem plenamente entre si, mas, enquanto um país existir, cabe a elas compreender que seus concidadãos são a única rede de proteção de que dispõem.
Um futuro soberano permanece possível enquanto formos capazes de assumir essa responsabilidade comum. Cabe aos brasileiros construir as condições de sua segurança, enfrentar suas injustiças e escolher os rumos de seu desenvolvimento. A guerra civil destruiria justamente os vínculos de que precisamos para fazê-lo. Preservá-los é parte da preparação que o nosso tempo exige: reconhecer, mesmo em meio às divergências, que o destino de nossos concidadãos também é o nosso.
Aleksandr Dashichev é Diretor de Operações Internacionais do Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS+ (BRICS Tech Forum) e coordenador de pesquisa do Índice de Soberania Digital (DSI). É mestre pela Universidade Estatal de Moscou Lomonosov e é Mestre em Filosofia (MPhil) pelo Trinity College Dublin. É pesquisador e doutorando no Instituto da Europa da Academia Russa de Ciências. Suas pesquisas abrangem soberania tecnológica, guerra cognitiva e informacional, uso malicioso de organizações da sociedade civil e outras formas de operações clandestinas.
Isabela Rocha-Dashicheva é presidente do Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS+ (BRICS Tech Forum) e coordenadora de pesquisa do Índice de Soberania Digital (DSI). É mestre e doutoranda em Ciência Política pelo Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (IPOL UnB), foi pesquisadora-convidada no Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO), compôs a primeira turma do Estágio para Capacitação de Civis para Operações de Paz, oferecido pelo Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB) vinculado ao Exército Brasileiro e coordena o Grupo de Trabalho Estratégia, Dados e Soberania do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEPSI IREL UnB).
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