22 de outubro de 2026

O mal-estar na globalização neoliberal, por Rodrigo Medeiros

A desigualdade não é um fenômeno novo. Mas a concentração de riqueza intensificou-se nas últimas décadas e atingiu níveis preocupantes.
Reprodução

Crise global de confiança nas instituições gera ansiedade e desejo por mudanças no sistema econômico, aponta pesquisa.
No Brasil, alta nos preços e endividamento da classe média refletem impacto do neoliberalismo e pandemia.
Stiglitz critica globalização desigual e defende transparência e participação democrática para reduzir desigualdades.

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O mal-estar na globalização neoliberal, por Rodrigo Medeiros

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A crise de confiança nas instituições é global, informou a matéria publicada no Valor Econômico, em 21 de outubro, assinada por Suzi Katzumata. Sobre o mal-estar presente em diversos países, destaco da matéria que “pesquisas realizadas em vários países revelam uma ansiedade das pessoas com a insegurança futura e um desejo por mudanças no sistema econômico”.

Ao mesmo tempo, os avanços têm sido prejudicados pela erosão da confiança da população na capacidade dos governos de conduzir as reformas demandadas pela sociedade. Esse obstáculo se faz presente inclusive em temas amplamente apoiados, como a sustentabilidade da dívida pública e o enfrentamento das mudanças climáticas.

Entre nós, dados públicos brasileiros nos permitem calcular que, entre janeiro de 2019 e agosto de 2022, os preços da alimentação no domicílio subiram 54%. Entre janeiro de 2023 e agosto de 2026, por sua vez, esses preços subiram 13%. O governo Lula 3 herdou um elevado nível de preços e o seu caráter conciliatório não contribuiu para melhorar a percepção da sociedade de que a sua gestão melhorou a vida da população. A classe média de renda brasileira está afundada em dívidas que chegam a seis vezes a sua renda mensal.

Os preços dos serviços essenciais, a moradia cara, a alimentação e a saúde privatizada compõem o cenário em que o salário real se deprecia ao longo do tempo. Herança amarga do neoliberalismo praticado domesticamente desde meados dos anos 1990? Os efeitos da pandemia de Covid-19 se fizeram sentir. Naquele contexto, a Rede de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan) divulgou que o número de brasileiros em insegurança alimentar havia saltado de 19 milhões para mais de 33 milhões de pessoas entre 2020 e 2022. As imagens da “fila do osso” e de famílias recorrendo a restos de alimentos estamparam as matérias na imprensa então. Estamos realmente dispostos a viver situações análogas nos próximos anos?

A desigualdade não é um fenômeno novo. No entanto, a concentração de riqueza intensificou-se nas últimas décadas e atingiu níveis preocupantes. De acordo com o Relatório sobre a Desigualdade Mundial 2026, os 10% mais ricos da população mundial concentram 75% da riqueza global, enquanto os 50% mais pobres detêm apenas 2% desse patrimônio. Está bem claro que o sistema favorece os ricos e poderosos.

Editado pela Futura, ‘A globalização e seus malefícios’ (2002), de Joseph Stiglitz, o livro é uma das obras mais influentes na crítica aos rumos da economia global nas últimas décadas. A tese central de Stiglitz é que a globalização foi conduzida de maneira inadequada. Ele reconheceu que a integração econômica internacional pode promover crescimento, inovação e redução da pobreza. O problema estaria na forma desigual e pouco democrática com que o processo foi implementado. A promessa de prosperidade compartilhada foi, em grande medida, frustrada.

Segundo ele, as instituições financeiras internacionais passaram a defender um conjunto rígido de políticas de liberalização econômica, privatizações e abertura dos mercados, independentemente das condições específicas de cada país. Ao longo da obra, Stiglitz examinou diversos casos, como as crises financeiras da Ásia nos anos 1990, a transição da Rússia para a economia de mercado após o fim da União Soviética e os programas de ajuste estrutural implementados em países da América Latina e da África.

Stiglitz propôs alternativas para uma globalização mais justa e equilibrada. Ele defendeu então uma maior transparência nas instituições internacionais, a participação democrática dos países em desenvolvimento nas decisões globais e políticas econômicas voltadas para o crescimento sustentável e a redução da pobreza. O mérito do livro está em desafiar a ideia de que a globalização é um fenômeno neutro e inevitável. Stiglitz demonstrou que as regras da economia global resultam de escolhas políticas e que, portanto, podem ser modificadas.

O avanço de movimentos populistas e nacionalistas pode ser interpretado justamente como uma reação ao sentimento de exclusão produzido por um modelo de globalização que beneficiou setores financeiros e grandes corporações mais do que trabalhadores comuns. Nesse sentido, Stiglitz antecipou um problema que se tornaria central no debate político contemporâneo.

Tensões geopolíticas entre Estados Unidos e China e impactos econômicos da guerra na Ucrânia demonstraram que a integração econômica não eliminou disputas políticas e estratégicas. Países passaram a adotar políticas industriais e comerciais mais protecionistas para reduzir dependências externas. Esse movimento contradiz a ideia de que a liberalização irrestrita dos mercados seria sempre a melhor solução para o desenvolvimento econômico, reforçando a percepção de que a política de Estado continua desempenhando um papel decisivo na organização da economia.

A atualidade da obra torna-se ainda mais evidente quando observamos a onda de protestos que tem marcado diversos países europeus. Nos últimos anos, agricultores da França, Alemanha, Bélgica, Polônia e outros países realizaram manifestações em larga escala contra o aumento dos custos de produção, a pressão regulatória e a concorrência internacional, chegando a bloquear estradas e centros urbanos.

Protestos relacionados ao custo de vida, à habitação e à deterioração dos serviços públicos têm mobilizado milhares de pessoas em países como França, Espanha, Portugal e Itália. Embora possuam causas específicas, esses movimentos expressam a insatisfação comum com o aumento das desigualdades, a perda de poder aquisitivo e a sensação de que as instituições políticas não conseguem responder adequadamente às demandas sociais.

Os mais recentes protestos europeus funcionam como a confirmação empírica da tese de Stiglitz de que a legitimidade da globalização depende não apenas do crescimento econômico que ela produz, mas da forma como os seus benefícios e custos são distribuídos pela sociedade. Sem mecanismos de compensação social e efetiva participação democrática, a integração dos mercados tende a gerar resistência política e aprofundar o mal-estar coletivo.

Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e editor da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (Rinterpap)

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Rodrigo Medeiros

Professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e editor da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (Rinterpap)

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