23 de outubro de 2026

Mediar o discurso, impedir desinformação: o debate da Band visto do exterior, por Jean D. Soares

Flávio esteve à vontade para mentir e circular sem que os jornalistas agissem ativamente para exigir ordem e respeito ao debate de ideias.
Reprodução Youtube/Band

Debate presidencial na Band foi marcado por discursos monológicos e falta de mediação jornalística, segundo análise externa.
Flávio Bolsonaro usou interrupções e desinformação sem contestação, enquanto Lula respondeu com fatos e abertura democrática.
Autor alerta para o impacto negativo do debate no jornalismo e na democracia brasileira, destacando a importância da mídia.

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Mediar o discurso, impedir a desinformação: o debate da Band visto do exterior

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por Jean D. Soares

Assisti ao debate entre os candidatos presidenciais pela TV portuguesa, o que por si já denota um bom exercício de distanciamento. Seus comentaristas ora destacavam o lado falacioso e marqueteiro de Flávio, por outro a consistência relativa com que Lula aqui e ali punha em questão a biografia e as propostas de seu adversário. Para não falar nas estocadas no modelo de debate, para eles inconcebível em Portugal. 

De minha parte confesso que o debate da band foi um belo exemplo de anulação da função jornalística. Cada um desenvolvia linhas discursivas inteiramente preparadas que, antes do mérito, ressalvam o carácter monológico do jogo – não estão para o debate em si, estão ali para o duelo em que apresentam discursos personalíssimos para vencer.

E aqui entra a tal anulação: a função do jornalista deveria representar a população em suas questões, evitando mergulhar o debate num personalismo necessário, mas não exclusivo. Ao jornalismo é dado a função de trazer relevância à conversa, para que essa esteja ao alcance do interesse de todos. 

Não aconteceu. Não havia um dispositivo para mediar o discurso. Flávio interrompia sucessivas vezes, entrava no plano da câmera, fazia gesto infantis, fazia manobras de diversionismo. E se ninguém medeia o discurso, ninguém impede a desinformação. 

Flávio esteve à vontade para mentir e circular sem que os jornalistas agissem ativamente para exigir ordem e respeito ao debate de ideias. E a conversa arrastou-se num pêndulo triste entre argumentos ad hominem e argumentos ad populum. Ou ele buscava desabilitar Lula, apelava-se ao todo mundo sabe, todo mundo sente. Ou caminhava pelo caminho das promessas rasas e impossíveis, com padrões estapafúrdios privatizantes (na saúde) e cuja ciência já provou não funcionar (encarceiramento em massa). Raros os dados, nenhum diálogo, nenhuma margem de debate.

Lula, escaldado que é, não caiu na mesma tentação. Respondeu às provocações do “todo mundo sabe” com fatos e abertura democrática (investigue-se!). Tem a vida limpa e não foge da justiça, não se esconde, não perde sua dignidade. Tentou mostrar qual o país vem construindo e qual quer construir. E para desgastar o adversário não foi idílico: também deu as suas estocadas, levantando suspeitas, exigindo reiteradamente as respostas que ele não quer dar (os milhões do Master).

Ninguém vence e perde o país, que habilitou como candidato alguém como Flávio, incapaz de discutir profundamente e com conhecimento de causa o país, e que está claramente disposto a vender as conquistas da cidadania cultivada desde 1988. Lula, o maior representante dessas conquistas, está outra vez exposto ao jornalismo medíocre. Ele tem de defender o país sozinho no debate, sem que haja desejo jornalístico para trabalhar com e pela verdade, minimamente. 

Preocupa acima de tudo pelo estado da democracia brasileira que não aprendeu com os erros anteriores que o que há de pior para ela mesma continua a se espalhar desgovernadamente e que os meios de comunicação têm uma função importantíssima na sua defesa, que é também a defesa da sua própria existência.

Jean D. Soares é Doutor em Filosofia e Produtor Cultural 

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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