Menos Haddad & mais Janones, por Paulo Kliass
Os resultados parciais do processo de apuração dos votos na noite de 25 de outubro começaram a surpreender, pouco a pouco, os analistas, ativistas e militantes que ainda se sentiam um tanto intimidados pelo que havia sido divulgado até à véspera do pleito. Afinal, a grande maioria das pesquisas apontavam um quase empate estatístico, mas com uma ligeira vantagem para o filho de Jair Bolsonaro. Os riscos associados ao eventual retorno da extrema direita ao poder federal eram terríveis e operavam como um fator de dúvida e desânimo, mesmo após as gigantescas manifestações de apoio nas ruas e nas redes sociais.
No entanto, à medida que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ia incorporando as informações das urnas e das seções pelo Brasil afora o quadro começou a mudar drasticamente. O comando da campanha de Flávio passou da euforia ao desespero, enquanto o oposto ocorria com os apoiadores de Lula. No cômputo final, a civilização venceu a barbárie. Assim, as explosões de alegria e disposição de luta se espalharam por todo o território nacional madrugada adentro. Pela primeira vez na História, um candidato a Presidente da República que havia perdido no primeiro turno conseguia virar e chegar à frente no segundo turno. Pela primeira vez, um incumbente ao Palácio do Planalto com elevada taxa de desaprovação de seu governo conseguia superar o adversário e se manter por mais um mandato.
Ora, mas a questão mais relevante que se coloca é buscar compreender como o governo Lula chegou a esse ponto de quase perder o pleito e devolver o poder à extrema direita. Mais uma vez, cabe aqui como uma luva máxima, a frase do assessor de Bill Clinton nas eleições para a Casa Branca em 1992 – “É a economia, estúpido!”. No nosso caso, talvez valesse um detalhamento: “É a política econômica, estúpido!”. Afinal, o fato concreto é que a principal causa da quase derrota de Lula foi a orientação oferecida a ele por seu principal assessor para economia e Ministro da Fazenda Fernando Haddad desde antes mesmo da posse em 1 de janeiro de 2023.
“Não temos recursos”: o governo não governou.
O Presidente eleito em outubro de 2022 havia prometido mudanças expressivas durante a campanha, a exemplo da revogação do Teto de Gastos, da reversão das privatizações da BR Distribuidora e da Eletrobrás, da revogação das reformas trabalhistas, entre outras. O mote de suas intervenções havia sido “fazer mais e melhor do que nos 2 mandatos anteriores entre 2003 e 2010” e “fazer 40 anos em 4”. No entanto, Haddad avançou em linha de colisão a tais intenções, convencendo Lula a respeito da importância de levar em frente uma política econômica conservadora e de orientação neoliberal.
Assim, o governo substituiu o Teto de Gastos do Temer por um Teto de Gastos do Haddad. A medida de austeridade fiscal absoluta saiu da Constituição e foi introduzida em uma lei complementar. O governo promoveu uma redução da meta de inflação de forma irresponsável para 3% ao ano, oferecendo de bandeja à autoridade monetária os argumentos para manter a taxa de juros na estratosfera. O governo se comprometeu em atingir metas de resultado primário claramente impossíveis de serem atingidas, caso a intenção fosse mesmo a de cumprir as promessas de Lula e as necessidades da grande maioria da população. Some-se a isso o quadro da elevação sistemática da taxa referencial de juros, movimento que continuou e mesmo se aprofundou após a saída de Roberto Campos Neto da Presidência do Banco Central (BC).
Na prática, o governo deixou de governar a partir de 2024. A grande maioria dos pleitos e das necessidades para levar em frente um verdadeiro programa de desenvolvimento foram sendo negadas pela retórica da área econômica do “não temos recursos”. Para o atendimento das metas obsessivas do austericídio e de resultado fiscal primário, o governo foi deixando de lado a implementação das políticas públicas mais voltadas à chamada “pauta do povo”. Os resultados das eleições municipais daquele ano já foram um indicativo das dificuldades que o governo vinha enfrentando junto à opinião pública.
A economia vai bem e o povo vai mal.
Apesar dos alertas sucessivos e das críticas que os economistas progressistas vínhamos apresentando quanto aos rumos da política econômica, o núcleo duro do governo se recusou sistematicamente a reconhecer as necessidades de mudança de rota e de estratégia. Pelo contrário, o caminho do austericídio foi aprofundado, com aumento da SELIC já sob o comando de Gabriel Galípolo no BC e com um maior garrote nas despesas primárias discricionárias e outras malandragens e ameaças para diminuir o volume de gastos não-financeiros. Mas as despesas com pagamento de juros da dívida pública seguiam sem nenhum limite e atingiram o patamar de R$ 1,2 trilhão em 12 meses.
A área econômica obteve êxito em blindar Lula para a dura realidade da vida da maioria da população, oferecendo as “milagrosas” estatísticas de crescimento do PIB em 2025 e de desemprego em sua taxa mais baixa na série histórica. Ora, sob tais condições e sem acesso aos argumentos de contraponto, o Presidente achou que as eleições eram favas contadas. Afinal, não chegavam a ele as avaliações de que os empregos eram precários e instáveis, com remunerações por vezes até inferiores a um salário-mínimo. Tampouco mereciam destaque nas avaliações internas da equipe os efeitos perversos das elevadas taxas de endividamento das famílias e dos indivíduos, mascarando a situação supostamente positiva da economia como um todo. Isso porque a renda disponível para o consumo após o cumprimento das obrigações financeiras era bastante menor do que os dados oficiais apontavam. O efeito ainda mais deletério das apostas esportivas, as bets, ficavam escondidos sob o argumento da importância das mesmas para a arrecadação tributária.
De nada valiam as inúmeras advertências que os críticos apresentávamos a respeito dos equívocos da política econômica. As pesquisas de avaliação do governo eram a face mais evidente das dificuldades enfrentadas por Lula para conseguir convencer a população dos supostos aspectos positivos de sua gestão à frente do Palácio do Planalto. Alguns assessores e conselheiros chegavam a trilhar o perigoso caminho de culpar o povo por ingratidão ou por ignorância. Afinal, diziam eles, a situação geral da economia e do País está muito boa e só o povo é que não percebe.
A virada foi contra a austeridade fiscal.
O verdadeiro choque de realidade veio com os resultados do primeiro turno. Com o posicionamento de Bolsonaro à frente de Lula, acendeu a luz vermelha no Palácio do Alvorada. Naquele momento, o Presidente deve ter percebido a enrascada em que havia sido metido e sua intuição e capacidade políticas jogaram mais alto. Ele mandou às favas a rigidez do Arcabouço Fiscal e passou a editar medidas e anunciar programas que iam totalmente contra a austeridade que o havia impedido de governar de forma adequada até então. Ele percebeu que essa seria a única forma de superar o adversário no segundo turno.
Um conjunto de ideias que vinham sendo represadas nas gavetas ministeriais em nome da suposta ausência de recursos transformaram-se em políticas públicas. Em algumas semanas Lula fez o que Haddad havia lhe dito durante quase 4 anos que não poderia ser realizado por obediência à austeridade fiscal. O valor do Bolsa Família, que estava congelado em R$ 600 desde o governo do pai de seu adversário, sofreu um reajuste parcial. O Programa Tarifa Zero no transporte urbano, cujo estudo estava escondido em alguma prateleira perdida na Esplanada, tornou-se realidade – ainda que apenas para o final de semana. As demandas dos microempresários foram parcialmente atendidas, depois de negativas sucessivas da equipe econômica ao longo deste terceiro mandato. As canetas emagrecedoras foram incluídas nos protocolos de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS).
Enfim, estas e outras medidas foram a senha para reverter o quadro de desaprovação do governo e permitir a Lula melhorar sua pontuação nas pesquisas de intenção de voto. Todas elas implicaram aumento de despesas governamentais e foram na direção contrária da obsessão com a austeridade fiscal. Assim, a lição que fica para o cenário futuro é que a vitória eleitoral veio apesar das orientações contracionistas de Fernando Haddad. Não fosse a adoção destas medidas de última hora, que a área econômica vinha impedindo o governo de adotar desde o início do terceiro mandato, dificilmente Lula conseguiria superar Bolsonarinho no segundo turno.
Sem Haddad e sem financismo: mudar a economia.
O outro front igualmente fundamental para a virada histórica foi a comunicação. Lula também mandou às favas a lentidão e o arcaísmo da coordenação da campanha antiga e tradicional e incorporou no coração da mesma o deputado federal André Janones (Rede/MG), que havia sido reeleito. Em uma operação de urgência, montada em poucos dias, foi levada a cabo uma verdadeira revolução no domínio digital. A extrema familiaridade do “General do Exército do Lula” com esse tipo de comunicação permitiu também que as mensagens do candidato chegassem à população e ao eleitorado em velocidade inédita observada até então. Além disso, os estudantes, trabalhadores, servidores públicos e outros setores tomaram a iniciativa de sair para as ruas para virar o jogo, muitas vezes atropelando a coordenação de campanha e demais dirigentes mais acomodados aos jogos de gabinete e à mera articulação de bastidores.
O combo que ficou conhecido como “rua + redes” permitiu que a campanha deslanchasse e atingisse um público até então afastado e pouco empolgado com a mobilização pela reeleição de Lula. Janones mudou radicalmente a linguagem e os instrumentos de envolvimento das pessoas com o movimento para virar o quadro eleitoral no segundo turno. Os resultados de tal estratégia inovadora puderam ser sentidos e avaliados por meio das pesquisas oficiais dos institutos e dos levantamentos internos realizados pelas campanhas. A cada novo dia a distância entre os candidatos diminuía. A grande dúvida era saber se haveria tempo suficiente para que no dia da eleição as curvas de intenção de voto se cruzassem e colocassem Lula em primeiro lugar, à frente de Flávio.
Felizmente o abandono da austeridade fiscal e o envolvimento com uma estratégia de comunicação jovem e moderna trouxeram os efeitos esperados a tempo de impedir a vitória da barbárie. Assim, o que se espera de Lula nesses dois meses de final de mandato e na preparação de sua equipe para o próximo quadriênio seja a consequência direta dos discursos por ele proferidos no dia da vitória, depois de conhecidos os resultados. Ele afirmou por diversas vezes que tinha aprendido muito com esse processo eleitoral e que iria governar de maneira diferente, em sintonia com o povo. Esperemos que não seja apenas mais uma promessa para ser esquecida depois da posse, como ocorreu no mandato que se encerra agora em dezembro.
Lula no comando da economia para mudar.
Isso significa que Lula deveria optar por “menos Haddad e mais Janones” para coroar sua última passagem pela Presidência da República. As redes e as ruas deram um recado muito cristalino de desejo de mudança e de expectativa de implementação de políticas públicas voltadas à pauta do povo. Ceder nesse domínio, como já pretende fazer o Ministro da Fazenda interino indicado por Haddad, seria um verdadeiro suicídio político. O ex-funcionário da bigtech Meta, Dario Durigan, já promete responder às chantagens do grande capital com maiores concessões na esfera da austeridade fiscal e do conservadorismo neoliberal.
Em menos de 24 horas depois de anunciado o resultado do pleito, o financismo já iniciou uma operação de terrorismo econômico e financeiro, com o intuito de colocar a faca no pescoço do governo para arrancar maiores benefícios em seu próprio proveito. Apostaram errado na derrota de Lula e agora pretendem socializar as perdas da especulação financeira que promoveram no mercado de títulos. Além disso, buscam consolidar a repetição da estratégia de exigir a rendição e a submissão da atual e da futura equipe econômica.
Para isso, os arautos do financismo já lançam até nomes alternativos para economia, como o governador eleito do Piauí, Rafael Fontelles. Trata-se deum cara nova, mas que já vem com um pensamento e uma prática bem antigas e ultrapassadas. Ele reza pela mesma cartilha de Haddad e do pessoal da Faria Lima. Defende a privatização de empresas estatais, como fez com a empresa de saneamento em seu Estado em 2024 – a Agespisa. Ele é formado na linha mais neoliberal do financismo e tem recebido manifestações de apoio de representantes da ortodoxia monetarista. Esse é o caso de Marcos Lisboa, conhecido articulador do capital financeiro.
Lula sabe muito bem que o povo foi para as ruas e para as redes para evitar o mal maior, a volta do bolsonarismo e recuo civilizatório. Mas a virada no segundo turno não foi um cheque em branco para o próximo mandato. Não se trata, por óbvio, de personalizar apenas em seu ex Ministro da Fazenda toda a responsabilidade pelos equívocos efetuados na seara da economia. Mas a política é também composta de decisões e simbologia. Manter Haddad com poder na próxima equipe seria a sinalização de um desejo de trilhar o mau caminho outra vez.
Lula é o Presidente da República e assim o será por mais quatro anos. Ele precisa dar uma demonstração de força para barrar o oportunismo especulativo das classes dominantes e assumir de fato seu compromisso com o resultado obtido nas urnas. Repetir mais um mandato de submissão aos interesses do financismo, como patrocinou Haddad, soaria como mais um estelionato eleitoral.
Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal.
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