27 de outubro de 2026

O fujão e as consequências políticas da fuga, por Luís Nassif

Uma oposição organizada em torno da ideia de que toda derrota é ilegítima prepara seus seguidores para rejeitar também as próximas.
Flávio Bolsonaro em foto de Tânia Rêgo - Agência Brasil

Flávio Bolsonaro é investigado por suspeita de fuga para os EUA após derrota eleitoral, gerando tensão na ultradireita bolsonarista.
A pressão para deslegitimar a eleição cria conflito entre partidos, governadores e parlamentares, dificultando a normalização política.
A narrativa de contestação permanente ameaça a renovação da direita e pode enfraquecer a oposição democrática no país.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Há duas maneiras de questionar uma eleição. Uma delas, é por meios legais. Apuram-se as provas, os argumentos verificáveis, o peso das distorções apuradas. E julga-se.

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A segunda maneira é transformar a sobrevivência política de um candidato em pretexto para deslegitimar o regime.

É por aí que a fuga de Flávio Bolsonaro colocou a ultradireita bolsonarista em uma armadilha. O problema deixa de ser o comportamento do candidato, mas a pressão sobre partidos, governadores, parlamentares e formadores de opinião para que adotem uma narrativa de ruptura para salvar a pele.

Não importa os argumentos, que são risíveis. Cerca de 35 mil votos registrados após às 17 horas em uma eleição decidida por diferença de 4,4 milhões de diferença.

Sem fatos novos, a contestação jurídica cumpriria função transitória, de abrigar o esperneio e, depois, se esgotar. A fuga de Flávio Bolsonaro torna mais íngreme a volta à normalidade. A derrota eleitoral seria absorvida por uma narrativa maior, segundo a qual todas as instituições teriam agido para eliminar um adversário.

Um governador precisa administrar, negociar recursos e construir maioria. Um partido precisa organizar candidaturas. Um parlamentar responde a interesses que não se resumem ao destino de uma família.

Todos teriam razões para encerrar o conflito eleitoral. Diante de uma campanha permanente em defesa de Flávio, porém, seriam submetidos a um teste de lealdade. Reconhecer a legitimidade da eleição seria apresentado como concordância com a perseguição. Defender o cumprimento de uma decisão judicial, como abandono. Recusar ataques às instituições, como traição.

O problema dessa irracionalidade é que o silêncio dos cautelosos abriria espaço para o alarido dos radicais.

A direita não é um bloco homogêneo. Nesse cenário, o derrotado continuaria influente, não por oferecer um caminho para a vitória, mas para encarecer qualquer caminho dos aliados. A reorganização da oposição dependeria de sua aprovação, a renovação de lideranças seria tratada como deslealdade e a discussão sobre os erros da campanha ficaria subordinada à defesa de sua imagem.

A oposição deixaria de perguntar por que perdeu e o que precisa mudar. Passaria a discutir como preservar a versão dos fatos mais conveniente ao derrotado.

Isso tem consequências democráticas. Uma oposição que aceita as regras fiscaliza o governo, disputa políticas públicas e constrói alternativas. Uma oposição organizada em torno da ideia de que toda derrota é ilegítima prepara seus seguidores para rejeitar também as próximas.

No fundo, apenas dificultará a renovação da direita, atrelando-a ao baú de ossos do bolsonarismo.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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