O aumento do endividamento público e dos juros dos títulos soberanos preocupa os mercados financeiros e levanta dúvidas sobre a capacidade de governos de sustentar suas contas. Nesse cenário, os chamados bond vigilantes — investidores que pressionam países ao exigir juros maiores para financiar suas dívidas — podem funcionar como um freio aos déficits antes que uma crise se instale.
A avaliação é do economista Nouriel Roubini, em artigo publicado pelo Project Syndicate, onde ressalta que a sustentabilidade da dívida depende de fatores como crescimento econômico, disponibilidade de ativos financeiros e capacidade de cada país de financiar seus compromissos.
Quando os juros médios da dívida ficam abaixo do crescimento nominal do Produto Interno Bruto (PIB), e o déficit primário não é elevado, a relação entre dívida e produto tende a diminuir.
O avanço tecnológico, especialmente da inteligência artificial, pode favorecer economias capazes de ampliar seu potencial de crescimento. Por outro lado, o desemprego estrutural provocado pela automação poderia aumentar a necessidade de gastos sociais, pressionando ainda mais os orçamentos públicos.
A capacidade de emitir dívida na própria moeda também faz diferença. Os Estados Unidos contam com a posição internacional do dólar, que sustenta a demanda global por títulos do Tesouro. Já economias emergentes que tomam empréstimos em moedas estrangeiras enfrentam restrições maiores. Na zona do euro, os países também têm limitações, pois dependem de uma política monetária conduzida pelo Banco Central Europeu (BCE).
Pressão dos mercados sobre os governos
Os bond vigilantes atuam quando investidores consideram arriscado financiar determinado governo e passam a exigir juros mais altos ou reduzem a compra de seus títulos. O aumento dos custos de financiamento pode obrigar autoridades a rever gastos e receitas.
Roubini cita o Reino Unido durante o breve governo de Liz Truss como exemplo. A reação dos mercados aos planos fiscais da primeira-ministra provocou uma disparada dos rendimentos dos títulos públicos e contribuiu para sua saída do cargo. Na Grécia, por outro lado, foi necessária uma crise formal da dívida para impor medidas de austeridade e reestruturação dos compromissos financeiros.
A França é outro país sob observação. Com eleições presidenciais previstas para 2027, a pressão dos mercados poderá influenciar as decisões fiscais do próximo governo. Até mesmo a líder da extrema direita Marine Le Pen apresentou propostas de consolidação fiscal, embora Roubini questione a consistência de algumas medidas.
Os Estados Unidos também enfrentam esse tipo de pressão. O economista menciona a reação dos mercados às tarifas comerciais anunciadas por Donald Trump em 2025 e à guerra com o Irã, em 2026. Nos dois episódios, a alta dos rendimentos dos títulos e a desvalorização de outros ativos pressionaram o governo a recuar.
Inflação e alternativas para reduzir a dívida
Outro fator decisivo é a independência dos bancos centrais. Quando a política monetária mantém compromisso com a estabilidade de preços, pode pressionar os governos a realizar ajustes fiscais. Mas, se a autoridade monetária passa a financiar déficits por meio da compra de títulos públicos, o resultado pode ser inflação elevada.
Roubini também aponta outras formas de reduzir o peso da dívida, como impostos sobre patrimônio, calotes, renegociações de títulos e repressão financeira. Nesse último caso, o governo induz ou obriga instituições financeiras a manter títulos públicos com remuneração inferior à exigida pelo mercado.
O economista critica ainda manobras destinadas a reduzir artificialmente os juros de longo prazo, como operações de recompra de títulos pelo Tesouro americano. Para ele, essas iniciativas não resolvem os desequilíbrios fiscais.
Na avaliação de Roubini, apenas a combinação entre disciplina fiscal e crescimento econômico sustentado poderá evitar crises de endividamento. Sem ajustes nos gastos e na arrecadação, os países ficam mais expostos a interrupções dos fluxos de capital, calotes, inflação e outras formas de transferência de custos aos credores.
A França aparece como um dos primeiros testes da capacidade dos mercados de impor disciplina fiscal antes de uma crise, mas o problema está longe de se restringir à economia europeia.
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