A escolha de uma mulher para o Ministério da Defesa representaria um marco na história institucional do país. A decisão, no entanto, envolve mais do que a quebra de uma barreira de gênero. Lula precisa considerar a relação com os comandos militares, a condução dos projetos estratégicos das Forças Armadas e o papel da pasta na consolidação da autoridade civil sobre a área militar.
A indicação deve ser precedida de consultas ao Alto Comando das Forças Armadas e a integrantes do governo. Nesse cenário, três nomes aparecem nas articulações: Cinara Wagner Fredo, atual secretária-geral do Ministério da Defesa; Maria Elizabeth Rocha, presidente do Superior Tribunal Militar (STM); e Simone Tebet, ex-ministra do Planejamento e Orçamento.
Embora tenham trajetórias bastante distintas, as três reúnem experiências que podem pesar na escolha de Lula.
Cinara Wagner Fredo: experiência na estrutura da Defesa
Atual secretária-geral do Ministério da Defesa, Cinara Wagner Fredo é apontada como uma possibilidade de continuidade administrativa. Seu nome foi indicado pelo próprio ministro José Múcio Monteiro, que sinalizou a intenção de deixar o cargo ainda este ano.
Jurista, mestre em Administração Pública pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e diplomada pela Escola Superior de Guerra (ESG), no curso de Política, Estratégia e Altos Estudos em Defesa, Cinara conhece a estrutura e o funcionamento da pasta.
Sua trajetória na administração pública inclui passagens pela Secretaria de Governo Digital, pelo Ministério da Cidadania e pelo Ministério da Previdência Social.
A experiência na gestão da Defesa é um dos principais pontos de sua possível indicação. À frente da secretaria-geral, acompanha questões orçamentárias e projetos estratégicos de reaparelhamento das Forças Armadas, além de manter interlocução com os comandos militares.
Sua eventual nomeação representaria a opção por uma transição com continuidade administrativa, sem a necessidade de uma mudança profunda na condução interna do ministério.
Maria Elizabeth Rocha: experiência jurídica e atuação no STM
Outra cotada é a ministra Maria Elizabeth Guimarães Teixeira Rocha, primeira mulher a presidir o Superior Tribunal Militar (STM) em mais de dois séculos de história da Corte. No final de 2024, ela concedeu uma entrevista ao jornalista Luis Nassif. Assista abaixo.
Doutora em Direito Constitucional pela Universidade de Lisboa, Maria Elizabeth integra a Justiça Militar da União desde 2007, quando foi indicada por Lula.
À frente do STM, ganhou projeção pela defesa do respeito à Constituição e pela atuação em julgamentos relacionados à responsabilização de integrantes das Forças Armadas por desvios institucionais e envolvimento em atos golpistas, como os ataques de 8 de janeiro de 2023, promovidos por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Sua trajetória reúne experiência jurídica e conhecimento do funcionamento da Justiça Militar, características que poderiam contribuir para uma gestão voltada à observância dos limites constitucionais da atuação das Forças Armadas.
O nome da ministra já foi cogitado, em outras ocasiões, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Sua eventual chegada à Defesa levaria para o ministério uma liderança com experiência no Judiciário e conhecimento das relações entre a estrutura militar e as instituições da República.
Simone Tebet: articulação política e diálogo com o Congresso
A terceira possibilidade é a ex-ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet. Seu nome também é citado nas articulações para uma eventual indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF), o que amplia as possibilidades em torno de seu futuro no governo. Para a Defesa, seu perfil representa uma alternativa com maior peso na articulação política e na interlocução com o Congresso.
Jurista, professora de Direito Constitucional e ex-senadora por Mato Grosso do Sul, Tebet ganhou projeção nacional durante a CPI da Pandemia e na campanha presidencial de 2022, quando passou a integrar o campo de apoio à candidatura de Lula no segundo turno.
À frente do Ministério do Planejamento e Orçamento, acumulou experiência na condução de políticas públicas e na negociação de pautas econômicas do governo.
Uma eventual indicação para a Defesa poderia ampliar o espaço de articulação política da pasta, especialmente nas relações com o Legislativo e com setores empresariais. A modernização das Forças Armadas e a discussão sobre recursos para projetos estratégicos exigem interlocução permanente com o Congresso.
Cada uma das três cotadas reúne experiências distintas. Cinara Wagner Fredo tem trajetória ligada à gestão pública e ao funcionamento do Ministério da Defesa; Maria Elizabeth Rocha acumula experiência no Judiciário e na Justiça Militar; e Simone Tebet traz a vivência política do Executivo e do Legislativo, além da interlocução com diferentes setores da sociedade.
A escolha de Lula deverá considerar essas diferenças de perfil e os desafios que o próximo ministro terá pela frente. Além do caráter histórico de uma eventual nomeação feminina, estará em jogo a condução de uma pasta estratégica para o Estado brasileiro, que precisa conciliar modernização militar, estabilidade institucional e subordinação das Forças Armadas ao poder civil.
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