5 de junho de 2026

Pedro e a onça, por Rogério Furtado

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Pedro e a onça

por Rogério Furtado

Luminárias, em Minas Gerais, já foi um território de onças. Como muitos outros do Brasil. Ali, Mané Terra, casado em 1844, segundo registros da igreja de Lavras do Funil, iniciou uma dinastia de grandes caçadores, que terminou no dia em que o último canguçu foi abatido, provavelmente logo depois da Segunda Guerra Mundial. A data certa ninguém sabe. Para comprovar que o evento de fato aconteceu restam cópias de uma foto, amarelecida e pouco nítida, é certo, mas capaz de despertar saudade e reflexões sobre uma época tão recente e, ao mesmo tempo, tão distante.

Na imagem aparece um grupo de homens orgulhosos e pelo menos um cachorro, também orgulhoso, de nome Cavaco, o farejador número um da pequena matilha de paqueiros, de propriedade de Pedro, bisneto de Mané Terra. A onça, se tivesse juízo, teria procurado outro caminho. Quem sabe, rumando para o Norte, acabaria alcançando Goiás algum dia, ou o Mato Grosso? Mas quis o destino que fosse bater justo em Luminárias, onde a mineirada estava acostumada a desautorizar a família desses felinos há muito tempo.

Com sua morte, ao menos deu a Pedro seu dia de glória. O bicho era bonito. Macho, porque jaguaretê preto só pode ser macho, por artes da genética. Jovem, não chegava ainda aos cem quilos. Tinha mais ou menos o porte de um cachorro dinamarquês, nas medidas de altura e comprimento. No entanto, era capaz de prodígios de força. Como arrastar um novilho morro acima, até algum esconderijo, desprezando os obstáculos do caminho.

Matou 42 criações entre o primeiro alarma, dado num certo inverno, até que caísse sob balas de .44, no verão do ano seguinte. Essa contabilidade me foi apresentada por Tatão, irmão de Pedro, em data da qual também não me recordo. Então começou a mais famosa das caçadas de Luminárias.

Primeiro fechou-se um acordo entre cavalheiros. Se o bicho atravessasse o rio Capivari, seria caçado pela turma do Pinheirinho (hoje Ingaí). “Se ficasse do lado de cá, seria de responsabilidade nossa”, contaria Pedro, pelo resto de seus dias. Nesse vaivém, a pintada várias vezes foi salva pela fronteira cavalheiresca. Pedro, com sua matilha, certa ocasião chegou às margens do Capivari poucos minutos depois da onça. A água do rio ainda minava para dentro do rastro, marcado fundo na areia.

Vivo, livre e solto na natureza, o animal foi visto apenas uma vez, por um trabalhador rural, a partir do alto da serra que divide dois vales. Em um fica a Cachoeira. No outro, a fazenda Mato-sem-Pau, onde finalmente terminou a caçada que já durava pelo menos seis meses. Pedro, com seu compadre José Augusto Terra, vindo da Mata-sem-Pau, estava a caminho de Luminárias, conduzindo um carro de boi. Levava mudança para mobiliar a casa da cidade. O mínimo necessário para a família aproveitar uma festa local. Era o costume da época.

O mensageiro chegou a cavalo, para dizer que a onça estava no Mato da Venda, nas proximidades da Mato-sem-Pau. Pedro tomou a montaria. Passou em casa correndo e dali saiu com seus paqueiros – já acostumados com o cheiro de onça – e a papo-amarelo nas mãos. Cavaco não demorou para achar a trilha, e deu o sinal com sua goela potente, e seu inconfundível sotaque de foxhound. A matilha acudiu.

E o canguçu subiu numa árvore pela última vez. Mas era preciso respeitar outra combinação: pelo menos a maioria dos companheiros tinha de estar presente na hora de derrubar o bicho. Pedro, que era destro, mas cego do olho direito, viu com certo alívio a chegada de João Lopes, com sua lendária pontaria. Atiraram juntos. Dessa forma nunca se soube de qual winchester partiu a bala definitiva.

A notícia de que a caçada chegara ao fim alcançou Luminárias rapidamente. Algum tempo depois vieram os caçadores, transportando a onça atravessada sobre o lombo de um cavalo, muito assustado com o cheiro do inimigo ancestral. Na entrada da cidade, fizeram troar mais uma vez as winchester, secundadas pelos disparos de cartucheiras e pica-paus. O coronel Hely Fonseca, crítico bem-humorado dos costumes luminarenses, gostava de contar que uma procissão desfilava pelas ruas naquele momento, e que o povo teria deixado o padre rezando sozinho para ver caçadores e presa. Foi mesmo um acontecimento, relembrado por muitos anos. Genoveva do Sobrado, por exemplo, cuidou de fixá-lo na memória de todos que a visitavam. Ensinou um papagaio a gritar: “Viva o Pedro que matou a onça!”.

De todo modo, com a morte do animal também findou a dinastia de Mané Terra. Primeiro porque acabaram-se as onças – as pintadas, com certeza. Depois, Pedro, meu pai, na derradeira oportunidade que conversamos sobre a caçada, terminou o relato olhando para o vazio, enquanto murmurava que bicho bonito como aquele jamais deveria ter sido morto. Merecia um lugar no mundo. Discordar é impossível.

 

 

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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3 Comentários
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  1. Ugo

    17 de novembro de 2018 2:56 pm

    fim de linha

    Um país ancestral e infinitamente civilizado, nunca mais!!!!

  2. Leandro A.

    17 de novembro de 2018 4:18 pm

    Tenho minhas raízes no

    Tenho minhas raízes no interior de Minas, o que me dá certa experiência para compreender a narrativa sem vilanizar os participantes. Porém, que deixassem o bicho comer um novilho aqui outro acolá. É uma maldade matar um “jaguaretê”, “canguçu”, desse aí. Essa foto registra muito bem a mentalidade predadora que nos levou aos dias de hoje e, nos conduzirá a dias futuros, quando as estórias começarão narrando “aqui um dia houve uma floresta, que se chamava Amazâonia, ali tinha um certo Pantanal…”. Pois cerrado já não há… E assim , seguimos, embriagados em nossos sonhos de progresso, destruindo tudo ao redor, até que a vida se reduza à cinzas e relatos saudosos da essência perdida. 

  3. Ze Guimarães

    17 de novembro de 2018 9:34 pm

    Que pena

    Isto de matar onças não se faz mais.

    Aqui no interior de SP, as vezes alguma sussuarana pequena invade alguma casa, eles chamam os bombeiros, que a capturam viva, com tranquilizantes e a levam para alguma reserva.

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