23 de julho de 2026

Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (3), por Maurício Luperi

Quem financia as empresas brasileiras e americanas? A resposta é muito mais interessante do que normalmente aparece no debate econômico.
Andy Warhol e Jean-Michel Basquiat - Reprodução

Grandes empresas nos EUA usam diversos instrumentos financeiros; no Brasil, acesso é mais restrito e concentrado nas maiores.
Empresas médias e pequenas nos EUA têm várias opções de crédito; no Brasil, dependência bancária ainda é alta.
Série analisará dados e regulação para ampliar concorrência e diversificar financiamento no Brasil.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Além dos bancos: como reconstruir o financiamento das empresas e famílias no Brasil

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Artigo 3 – Brasil e Estados Unidos: quem realmente financia as empresas?

por Maurício Martinelli Luperi

Nos dois primeiros artigos desta série discutimos um conceito fundamental: aprofundamento financeiro não significa simplesmente aumentar o volume de crédito. Significa ampliar o número de instituições, instrumentos e investidores capazes de financiar empresas e famílias.

Agora podemos avançar uma etapa.

A pergunta deixa de ser conceitual.

Passa a ser empírica.

Quem realmente financia as empresas brasileiras e americanas?

A resposta é muito mais interessante do que normalmente aparece no debate econômico.

A impressão criada pelo debate brasileiro

Quando ouvimos economistas discutindo crédito no Brasil, frequentemente parece existir apenas uma variável relevante:

a Selic.

Como se toda empresa, independentemente do porte, recorresse ao mesmo tipo de financiamento.

Na prática, não é assim.

Empresas utilizam diferentes instrumentos.

O problema brasileiro é que esses instrumentos possuem pesos muito diferentes daqueles observados em economias de mercado de capitais mais desenvolvidos.

Grandes empresas

Comecemos pelas grandes corporações.

Estados Unidos

Uma grande empresa americana normalmente escolhe entre diversas alternativas.

Pode emitir:

  • Corporate Bonds;
  • Commercial Papers;
  • empréstimos sindicalizados;
  • securitizações;
  • private placements;
  • ações;
  • private credit;
  • linhas bancárias tradicionais.

Os bancos continuam importantes.

Mas competem diariamente com investidores institucionais, fundos de investimento, seguradoras, fundos de pensão e gestores privados de crédito.

Na prática, o banco deixa de ser o único fornecedor de recursos.

Torna-se apenas mais um concorrente.

Brasil

Grandes empresas brasileiras também conseguem acessar:

  • debêntures;
  • notas comerciais;
  • FIDCs;
  • CRA;
  • CRI;
  • securitização;
  • mercado acionário;
  • empréstimos bancários.

O problema aparece quando observamos a abrangência desse mercado.

Grande parte dessas operações permanece concentrada nas maiores companhias do país.

Para empresas médias e pequenas, esse universo ainda é bastante restrito.

Empresas médias

É justamente aqui que começam as diferenças mais importantes.

Nos Estados Unidos, empresas de médio porte frequentemente conseguem combinar:

  • bancos regionais;
  • bancos nacionais;
  • private credit;
  • asset-based lending;
  • leasing;
  • factoring;
  • linhas garantidas pela SBA;
  • investidores privados;
  • recebíveis.

Essa diversidade aumenta significativamente a concorrência.

No Brasil, embora várias dessas modalidades existam, a dependência do crédito bancário continua elevada.

Pequenas empresas

É aqui que talvez apareça a maior diferença.

Nos Estados Unidos, uma pequena empresa pode recorrer simultaneamente a:

  • community banks;
  • credit unions;
  • fintech lenders;
  • fornecedores;
  • factoring;
  • leasing;
  • cartões empresariais;
  • linhas garantidas pela Small Business Administration (SBA);
  • investidores locais.

No Brasil, pequenas empresas continuam recorrendo predominantemente aos bancos comerciais, às cooperativas de crédito e, mais recentemente, às fintechs.

Os demais instrumentos ainda possuem participação relativamente limitada.

Não basta contar instrumentos

Essa talvez seja a principal conclusão.

Frequentemente ouvimos a seguinte objeção:

“O Brasil já possui debêntures, FIDCs, fintechs e securitização.”

É verdade.

Mas essa não é a pergunta correta.

A questão relevante é outra:

Qual é a participação efetiva de cada um desses instrumentos no financiamento das empresas?

Ou ainda:

Quantas empresas conseguem utilizá-los?

Existir não significa possuir escala suficiente para alterar a estrutura do sistema financeiro.

O que iremos medir

Nos próximos artigos, deixaremos de lado impressões gerais.

Vamos trabalhar com dados.

Entre outros aspectos, compararemos:

  • participação dos bancos no crédito total;
  • participação do mercado de capitais;
  • número de bancos nacionais e regionais;
  • concentração bancária;
  • cooperativas de crédito;
  • fundos de crédito;
  • private credit;
  • venture capital;
  • securitização;
  • FIDCs;
  • crédito para grandes empresas;
  • crédito para médias empresas;
  • crédito para pequenas empresas;
  • crédito ao consumidor;
  • cheque especial;
  • crédito rotativo;
  • financiamento imobiliário;
  • financiamento de veículos.

Também analisaremos o papel das instituições responsáveis pela regulação desses mercados.

No caso brasileiro:

  • Banco Central;
  • CVM;
  • CADE;
  • BNDES.

Nos Estados Unidos:

  • Federal Reserve;
  • SEC;
  • FDIC;
  • OCC;
  • SBA.

O objetivo da série

Esta série não pretende defender uma simples cópia do modelo americano.

Cada país possui sua própria história, estrutura jurídica e sistema financeiro.

Nosso objetivo é outro.

Identificar quais mecanismos ampliam a concorrência, diversificam as fontes de financiamento e facilitam o acesso de empresas e consumidores ao crédito.

A partir desse diagnóstico, discutiremos quais reformas legais, regulatórias e institucionais poderiam adaptar essas experiências à realidade brasileira.

Porque aprofundar o mercado financeiro não significa substituir bancos.

Significa construir um sistema em que empresas e famílias tenham muito mais opções para financiar seus projetos.

Leitura recomendada

  • ALLEN, Franklin; GALE, Douglas. Comparing Financial Systems. Cambridge, MA: MIT Press, 2000.
  • RAJAN, Raghuram G.; ZINGALES, Luigi. “Financial Dependence and Growth.” American Economic Review, v. 88, n. 3, 1998.
  • DE PAULA, Luiz Fernando. Sistema Financeiro, Bancos e Financiamento da Economia: Uma Abordagem Keynesiana. Rio de Janeiro: Elsevier (Campus), 2014.
  • Federal Reserve. Financial Accounts of the United States. Publicação trimestral.
  • Banco Central do Brasil. Relatório de Economia Bancária e Relatório de Estabilidade Financeira.

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Mauricio Luperi

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

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