
O Fascismo Revisitado
(a Manutenção Extrema do Privilégio)
por Márcia Denser
Algumas considerações que talvez possam ajudar a entender a situação que o Brasil enfrenta com a emergência de Bolsonaro e seus seguidores em nível nacional, baseadas no texto de Sara Robinson do Blog For Our Future (traduzido no site Vi o Mundo, do Luiz Carlos Azenha) que trata da ascensão do fascismo nos EUA, Porque qualquer semelhança não é coincidência.
O artigo comenta que, através da escuridão dos anos do governo Bush, os progressistas assistiram horrorizados ao sumiço das proteções constitucionais, à retórica nativista, ao uso do discurso de ódio transformado em intimidação e violência e a um presidente dos Estados Unidos que assumiu poderes só exigidos pelos piores ditadores da história (até então Trump e sua tropa nem eram cogitados pelos ditos progressistas de touca, feito anjinhos).
“Com cada novo ultraje, o punhado de nós que tinha se tornado expert na cultura e na política da extrema-direita ouvia de novos leitores preocupados: chegamos lá? Já nos tornamos um estado fascista? Quando vamos chegar lá? Ao investigar a quilometragem nesse caminho para a perdição, muitos de nós nos baseamos no trabalho do historiador Robert Paxton, provavelmente o estudioso mais importante na questão de como os países adotam o fascismo.
Ele afirma que as democracias se tornam fascistas por um processo reconhecível, um grupo de cinco estágios. De qualquer forma, o futuro fascista dos Estados Unidos aparece bem grande diante do vidro do automóvel.”
Afinal, o que é fascismo? Eis a definição de Paxton: “É um sistema de autoridade política e ordem social marcada pela preocupação obsessiva com o declínio da comunidade, com a humilhação e a vitimização e pelo culto compensatório da unidade, energia e pureza, na qual um partido de massas de militantes nacionalistas, trabalhando em colaboração com as elites tradicionais, abandona as liberdades democráticas e busca, através de violência e sem controles éticos ou legais, cumprir objetivos de limpeza interna e expansão externa”.
No 1º. estágio, um movimento rural emerge em busca de algum tipo de renovação nacionalista, usando temas como unidade, ordem e pureza. A razão é rejeitada em favor da emoção. A maneira como a história é contada muda de país para país, mas sempre tem origem na purificação da sociedade das influências tóxicas de estrangeiros e de intelectuais, aos quais cabe o papel de culpados pela miséria atual.
A Ku Klux Klan, formada em reação à Restauração pós-Guerra Civil, pode ser o primeiro movimento autenticamente fascista dos tempos modernos. Quase todo país da Europa teve um movimento proto-fascista nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial (quando o Klan ressurgiu nos Estados Unidos), mas a maior parte deles empacou no primeiro estágio. O conservadorismo moderno dos Estados Unidos foi construído sobre esses mesmos temas. Do “Despertar nos Estados Unidos”, tema de campanha de Ronald Reagan, aos grupos religiosos prontos para a Ruptura, ao nacionalismo branco promovido pelo Partido Republicano através de grupos racistas de vários graus, é fácil identificar como o proto-fascismo americano ofereceu a redenção dos turbulentos anos 60 ao promover a restauração dos Estados Unidos tradicionais, brancos, cristãos e patriarcais.
Essa visão foi abraçada tão completamente que todo o Partido Republicano agora se define nessa linha. Nesse estágio, é abertamente racista, sexista, repressor, excludente e permanentemente viciado na política do medo e do ódio. Pior: não se envergonha disso. Não se desculpa perante ninguém. Essas linhas se teceram em todo movimento fascista da História.
No 2º. estágio, os movimentos fascistas ganham raízes, se tornam partidos políticos reais e ganham um lugar na mesa do poder. Atualmente (era Bush entre 2000-2008), os grupos anti-imigração, apoiados pelo Partido Republicano, infernizam a vida dos trabalhadores rurais hispânicos nos Estados Unidos. Enquanto a violência contra hispânicos aumenta (cidadãos americanos ou não), os esquadrões da direita obtém treinamento básico a ser usado como intimidação.
Hitler e Mussolini assumiram o poder sob essas mesmas circunstâncias: paralisia do governo constitucional (produzida em parte pela polarização promovida pelos fascistas); avanço da esquerda; líderes conservadores que se sentiram ameaçados pela perda de capacidade para manter a população sob controle e se negaram a trabalhar com a esquerda, sentindo-se incapazes de continuar no governo contra a esquerda sem um reforço de seus poderes.
E mais perigosamente: a aceitação pela elite conservadora de trabalhar com os fascistas.
Essa descrição parece muito com a situação difícil em que os congressistas republicanos estão nesse momento. Apesar do partido ter sido humilhado, rejeitado e reduzido a um status terminal por uma série de catástrofes nacionais, a maior parte produzida por ele mesmo, sua liderança considera inimaginável cooperar com os democratas em ascensão.
Sem rotas legítimas para voltar ao poder, sua última esperança é investir no que restou de sua “base dura”, dando a ela uma legitimidade que não tem, recrutá-la como tropa de choque e derrubar a democracia americana pela força. Se eles não podem vencer eleições, estão dispostos a levar a disputa política para as ruas e assumir o poder intimidando os americanos a se manterem silenciosos e cúmplices.
Quanto esta aliança “não santa” é feita, o 3º.terceiro estágio – a transição para um governo fascista – começa.
Durante os anos do governo Bush, os analistas progressistas da direita se negaram a chamar o que viam de “fascismo” porque, apesar de se estar atento, nunca se viu sinais claros e deliberados de uma parceria institucional comprometida entre as elites conservadoras dos Estados Unidos e a horda nacional de camisas-marrom.
O ponto decisivo: de acordo com Paxton, esse momento da aliança do terceiro estágio é decisivo – e o pior é que quando se chega a esse ponto, é tarde para pará-lo. Daqui, há uma escalada, quando pequenos protestos se tornam espancamentos, mortes e a aplicação de rótulos em certos grupos para eliminação, tudo dirigido por pessoas no topo da estrutura de poder.
Qual é a linha do perigo? Paxton a identifica com três simples questões:
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Estão os neo ou proto-fascistas se tornando arraigados em partidos que representam grandes interesses e sentimentos e conseguem ampla influência na cena política?
2. O sistema econômico ou constitucional está congestionado, de forma aparentemente insuperável, pelas autoridades atuais?
3. A mobilização política rápida está ameaçando sair do controle das elites tradicionais, ao ponto que elas poderiam buscar ajuda para manter o controle?
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Segundo a avaliação, a resposta é sim: estamos muito perto.
A História nos diz que uma vez a aliança entre a elite e a tropa de choque é formada, catalisada e tem sucesso em busca do poder, não há mais como detê-la. Infelizmente este parece ser hoje o caso do Brasil, não?
Prevê-se que um autêntico fascismo popular nos Estados Unidos será crente e anti-negros; se uma aliança entre as corporações e os camisas-marrom tiver uma conquista, pode rapidamente ascender ao poder e destruir os últimos vestígios de um governo democrático.
No 4º. estágio, quando assumir o controle completo do país, lutas políticas vão emergir entre os crentes do partido – os camisas-marrom e as instituições da elite conservadora – igreja, militares, profissionais e empresários. O caráter do regime será determinado por quem vencer a disputa.
Se os membros do partido (que chegaram ao poder através da força bruta) vencerem, um estado policial autoritário seguirá. Se os conservadores conseguirem controlá-los, um teocracia tradicional, uma corporocracia ou um regime militar podem emergir com o tempo.
Mas em nenhum caso o resultado lembrará a democracia que a aliança derrubou.
Caracteriza-se o 5º. estágio como “radicalização ou entropia”. Radicalização, se o novo regime conseguir um grande vitória militar ( no Oriente Médio ou na Venezuela), o que consolida seu poder e dá apetite para expansão e uma reengenharia social em grande escala (vide a Alemanha). Na ausência do evento radicalizador, podemos ter a entropia, com a perda pelo estado de seus objetivos, o que degenera em incoerência política (vide Itália fascista).
É fácil neste momento olhar para a confusão na direita e dizer que é puro teatro político do tipo mais absurdamente ridículo. Que é um show patético de marionetes. Que esse povo não pode ser levado a sério. Mas estamos parados exatamente no lugar onde nossos melhores especialistas dizem que o fascismo nasce. Sempre que os conservadores no Congresso, os comentaristas de extrema-direita e seus ruidosos seguidores conseguem segurar nossa capacidade de governar o país, é mais um dia em que caminhamos em direção à linha final, da qual nenhum país, segundo a História, conseguiu retornar.
Sujeito profético este Paxton, previu Trump e o lamentável estado atual da política norte-americana com dez anos de antecedência. Pena que não lhe deram ouvidos. Aqui também parecem não dar.
É isso aí, pessoal. Eis para onde apontava a mudança pressentida – por Ignácio Ramonet, Paulo Arantes, eu mesma – do Espírito de Época desde o início dos anos 1990. Desfazendo todas as ilusões – eis o significado ideológico do “fim da história”, do “fim da arte”, fim das utopias, fim dos ideais, fim do sujeito, ou do ser humano como “sujeito da História”.
Quantos holocaustos (e quantos genocídios) ainda custará à humanidade a manutenção do privilégio?
CometaHalley
3 de outubro de 2018 6:42 pmVejo uma mensagem de erro
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Fernando J.
3 de outubro de 2018 8:16 pmJá somos um país fascista, por Dodô Azevedo
“Já somos um país fascista, você não percebeu?” – comenta Capitão Von Trapp, no quarto ato da montagem original de “A Noviça Rebelde”, no Schubert’s Theatre, em Boston.
O patriarca, a família e o público haviam acabado de saber, com supresa e horror, que o simpático e leve carteiro que paquerava Liesl, a filha mais velha dos irmãos Von Trapp, havia aderido ao nazismo, e agora, arma de fogo na mão, ameaçava abater a tiros todos os heróis, todos os seus ex-amigos, incluindo o próprio amor da sua vida.
Todos haviam, no primeiro ato do musical, cantado junto a inesquecível e solar “Sixteen on Seventeen” dueto entre os dois jovens interrompido por uma trovoada e um temporal. Nuvens não vistas no horizonte. Todos, agora, pensavam: como um garoto tão gente boa foi se tornar um adorador de Hitler?
A história da Noviça Rebelde, todo mundo sabe, é real. Situada na Áustria de 1938, um país a beira de ser conquistado por Hitler, nos ensina, no fim das contas, como um país se torna fascista sem perceber.
Mais que isso: como as pessoas se tornam fascistas convictas que estão do lado do bem. E de como ditaduras se instalam em silêncio, sem disparar um tiro, e aplaudidas pela população convertida.
O povo austríaco era reconhecido então como um povo alegre, doce, que adorava música. Quase todos, de camponeses a a barões, passando, claro, por noviças e freiras, sabiam tocar um instrumento. Pacifistas, porque o rescaldo da queda do império Austro-Húngaro.
Pós 1a guerra mundial e crash 1929, veio a crise econômica. Com a crise, o desemprego. Com o desemprego, a corrupção. E a consequente procura de culpados externos e soluções rápidas e messiânicas.
Os culpados escolhidos para serem odiados foram comunistas e judeus.
A solução rápida e messiânica veio com Hitler, militar que havia lutado na guerra e que prometia acabar com a corrupção, com os comunistas, os judeus, e com “o ciclo vicioso da política”. Por fim, valorizar a família, a propriedade e “homem de bem”, o “ariano puro”.
A indústria, na figura de seus patrões, começou a chantagear seus empregados. “Ou vocês aderem a Hitler ou o país afunda e seremos obrigados a demitir vocês todos”. Muitas das marcas de carro e roupa que consumimos hoje, na época chegaram a obrigar seus funcionários a usar a famigerada braçadeira com a suástica.
Os jovens, sem perspectiva de emprego e encantados com o discurso de “Tornar a Alemanha grande de novo”, de aos 17 anos ganhar do governo uma arma de fogo para caçar “cidadãos que não respeitam a bandeira nacional”, aderiram imediatamente.
Pronto. A elite e agora os pobres se uniram. Os inimigos da nação, da pureza, da moral e bons costumes passaram rapidamente a ser, além de judeus e comunistas, gays, ciganos e pessoas portadoras de necessidades especiais.
E da noite pro dia, o espírito inteiro de uma nação passa a ser orientado pelo ódio. Pessoas doces, gente boa, que frequentavam sua casa, se divertiam e não se metiam na vida de ninguém, se transformaram em nazistas.
Os poucos Austríacos que não foram enfeitiçados pelo fascismo, não perceberam, mas já estavam vivendo em uma sociedade fascista, quando Hitler finalmente invadiu o país sob aplausos de multidões.
Agora já era tarde. Mesmo que o Fuhrer desistisse da Áustria, ela já havia se transformado em uma nação de fascistas. Aquele povo alegre havia se transformado no povo que odeia. Mesmo que Hitler recuasse, o país já estava perdido sua identidade. Já estava conquistado. E, otimista, achando tudo normal.
Democraticamente, a Áustria, então, tornou-se, uma ditadura fascista.
Em 2018, faz 80 anos da anexação da Áustria pelo Terceiro Reich.
Um exemplo de como um povo inteiro se torna fascista, sem perceber.
Um exemplo de que o verdadeiro amor de nossa vida é o poder em subjugar o outro.
Por Dodô Azevedo
[video:https://www.youtube.com/watch?v=hwK_WOXjfc0%5D
https://g1.globo.com/pop-arte/blog/dodo-azevedo/post/2018/10/03/ja-somos-um-pais-fascista.ghtml
WG
3 de outubro de 2018 10:23 pmDe uma forma ou de outra, as
De uma forma ou de outra, as sociedades “capitalistas” estão rumando para o fascismo. Parece não fazer diferença o povo ser educado ou não, a selvageria do mercado transforma a maioria em selvagens e, nesse ponto, a extrema direita assume o poder, o final está bem descrito no post.