4 de junho de 2026

Troca de direitos civis por direitos sociais e a contraposição das pautas identitárias ao neoconservadorismo.

Troca de direitos civis por direitos sociais e a contraposição das pautas identitárias ao neoconservadorismo.

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Mais uma vez a classe média acha que sua pauta de reivindicações de direitos civis em detrimento aos direitos sociais é a solução das pautas da sociedade como um todo, ignorando que o neoconservadorismo que é confundido com o fascismo, é a verdadeira grande pauta de parte da sociedade menos favorecida.

As aparentes multidões de mulheres no famoso EleNão esbarraram numa constatação muito simples, que as pautas de direitos civis além de não substituir as pautas de direitos sociais se choca com a onda de neoconservadorismo.

A estética pequeno burguesa de mulheres gritando pelo direito de ter controle do seu próprio corpo, que é uma reivindicação universal para todas as categorias sociais, é uma prioridade mais burguesa do que proletária, que não tem o reflexo esperado nas manifestações do EleNão, porém esta ruptura aparentemente contraditória, pois tanto a mulher burguesa e mais ainda a mulher proletária sofre do controle de todos os aspectos de sua vida, mas para entendermos o porque é necessário retornar um pouco ao passado e procurarmos entender o que ocorre na chamada transição da sociedade burguesa tradicional para a sociedade pós-burguesa e pós-capitalista, estas duas são mais transformações sociais do que de forma de produção.

O maio de 1968 inaugurou uma nova etapa de um comportamento, que foi visto por muitos como algo revolucionário principalmente por amplos setores pequeno burgueses de esquerda. No maio de 68 se nega a sociedade burguesa com seus pilares conservadores da época, religião, família e estado, em resumo o conceito de autoridade. Ou seja, se passa de uma luta anticapitalista para uma luta que pretendia tirar os pilares da sociedade burguesa do passado e por consequência se pensava estar lutando diretamente contra o capitalismo.

Porém, como o capitalismo se adapta mais rapidamente do que os conceitos gerados contra ele, a sociedade pós-burguesa advinda da destruição dos antigos conceitos conservadores do passado, são rapidamente transformados em mercadorias e vendidos como uma forma de protesto. Chamo a atenção que na época surgiu uma propaganda em que explicitamente procurava identificar a liberdade com o uso de uma determinada marca de calças jeans.

Ou seja, a revolta de 68 é digerida pelo capitalismo, vendida como modismo mercadológico, enquanto as relações de luta pelo poder entre classes são embaralhadas e substituídas por lutas pura e simples de direitos civis de minorias, ou mesmo maiorias, que sofriam a repressão do capital.

A proposta emancipação da sociedade do capitalismo transforma-se na emancipação do capitalismo propriamente dito. A crítica ao capitalismo é substituída pelo direito de tanto consumir como de ser consumido como mercadoria. A nova sociedade que pensava que estava na direção da emancipação da superestrutura capitalista, termina priorizando o individualismo e o hedonismo narcisista. A negação dos elementos que identificavam a repressão da sociedade burguesa do passado, ou seja, seus pilares conservadores, religião, família e Estado, são todos negados, restando somente o mercado como a saída individual de cada um.

A negação de tudo, exceto o mercado, derruba não só as velhas estruturas burguesas, mas através da globalização, derrubam as estruturas sindicais que possuíam os códigos de luta contra o capital, ou seja, junto com a sociedade burguesa anterior caem as organizações sindicais, que não estavam preparadas para um novo inimigo, o capital internacional desenraizado de seus limites nacionais do passado.

Os últimos resquícios do sindicalismo ainda sobrevivem nas empresas públicas, pois nelas o “patrão” é claramente identificado, e devido a isto a luta do capital pela privatização, além de reforçar os lucros pela exploração de serviços oligopolizados, destruí o tecido sindical.

O que se chama nos dias atuais de sociedade pós-capitalista ou pós-burguesa, é a caracterizado não pela emancipação da sociedade do capitalismo, mas sim emancipação do capitalismo propriamente dito, este último se livrando da velha consciência burguesa. Livra-se desta maneira da crítica interna dos próprios burgueses, por outro lado se livra dos valores éticos do passado burguês, uma espécie de parricídio da origem do capitalismo, ou seja, na sociedade pós-burguesa o capitalismo mata a sociedade burguesa só restando o mercado.

As palavras chaves do maio de 68 como o proibido proibir ou não deve existir a autoridade, dão a partida para a nova sociedade de mercado, sem as amarras dos valores do passado para sem eles começar esta nova sociedade ser o objeto de tudo. Em resumo, a priorização da sociedade pós-burguesa é o gozo individual acima de tudo, o hedonismo como forma de vida, pois simplesmente é proibido proibir.

Como as classes trabalhadoras perdem o seu referencial de resistência, e escuta das classes dominantes um discurso puramente de liberdades e direitos civis e individuais, reage a tudo isto através de um neoconservadorismo que procura em parte a reconstrução de um passado com maiores referenciais dando origem a uma reação que por muitos é confundida como um neofascismo. O neoconservadorismo é uma reação ao hedonismo individualista, porém apesar de negar o individualismo, de forma aparentemente contraditória esse neoconservadorismo aceitação o mercado não como uma construção burguesa mas uma forma de reagir através de sonhos irreais da saída individual, moldam-se novas palavras, como o empreendedorismo, para antigos conceitos, procurando tirar palavras como classes sociais e luta de classes do léxico do trabalhador.

Este neoconservadorismo, paradoxalmente mesmo sendo uma reação a uma nova construção capitalista, baseada num relativismo moral de pessoas ligadas ao mercado na ponta superior da cadeia de produção, é uma oposição ao modernismo sem a negação do neoliberalismo. Enquanto o liberalismo do século XIX ou anteriores era revolucionário devido a sua negação ao conservadorismo aristocrático, que se contrapunha ao mercado.

Agora o neoconservadorismo se contrapõe a modernidade, caracterizada pela busca de novos direitos civis e humanitários, sem negar o caráter utilitário que é apoiado pela sociedade de consumo moderna. Há uma espécie de ruptura entre as estruturas culturais das econômicas

O neoconservadorismo identifica a modernidade social como licenciosa e depravada, entretanto apesar de romper com a modernidade social pensa em usufruir dos confortos criados sobre a égide desta, aceitando tudo aquilo que o mercado lhes impõe para consumir.

A luta entre a tentativa de prosseguir nas pautas de direitos civis, com a contraposição do neoconservadorismo, é claramente representada pelo EuNão, que mostra que há um fosso, aparentemente intransponível, entre a pauta identitária que serve magistralmente a todos e a pauta reativa neoconservadora, que nega os efeitos e não as causas de sua miséria.

 

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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