
Ganhar a eleição sem perder o governo
por Paulo Nogueira Batista Jr.
Hoje quero ter uma conversa estritamente particular com os leitores de esquerda, e só com eles. O aviso pode ser supérfluo; afinal, os leitores do JornalGGN são preponderantemente de esquerda mesmo. Mas, se por acaso houver algum leitor de direita extraviado aqui neste texto, peço gentilmente que se retire.
Pronto, continuo, estamos entre nós. A verdade, leitor(a), é que estamos rindo como quem tem chorado muito, para retomar verso de Fernando Pessoa. Se você, leitor(a), é filiada ao PT ou ao PCDB, quero lhe dizer com toda a ênfase possível: Parabéns, você ganhou a eleição! Mas acrescento de imediato: não vá perder o governo!
Breve parêntese. Uma dúvida me assalta: será prematura a comemoração? Não acredito. Primeiramente, a vida como ela é, com todos seus sofrimentos e decepções, nos convida a nunca perder uma oportunidade de comemorar – mesmo que antecipadamente, mesmo que prematuramente.
E não acredito, francamente, que a comemoração seja, a esta altura, prematura. Lula – nosso Pelé político – realizou a obra magistral de virar um jogo que parecia totalmente perdido. E, como dizia Nelson Rodrigues, a vitória sofrida é mais doce. Haddad passará ao segundo turno e deve derrotar Bolsonaro. Sempre existe o risco de surpresas e manobras de última hora. Mas o eleitor parece até certo ponto imunizado contra essas jogadas.
Insistindo um pouco na metáfora futebolística, diria que aconteceu em 2018 o mesmo que na Copa de 1962, no Chile. Pelé foi caçado desleal e impiedosamente em campo até o tirarem da disputa. Só que apareceu Amarildo para substituí-lo – e o Brasil foi bicampeão do mundo.
A diferença é que Lula foi mais do que um Pelé. Continuou jogando e armando fora de campo. Impôs derrota acachapante a seus adversários. Lula foi a estrela insuperável do campeonato, mesmo alijado do torneio. Será pentacampeão!
Agora é enfrentar o terceiro turno. Sim, leitor(a), é perfeitamente possível ganhar a eleição e perder o governo. Foi o que aconteceu com Dilma em 2014.
O que eu chamo de terceiro turno é o turno adicional que a turma da bufunfa impõe quando não consegue prevalecer nos dois primeiros. O que está em disputa nesse terceiro turno é o controle das principais alavancas da área econômica, notadamente o comando do Ministério da Fazenda e do Banco Central.
Somos todos gatos escaldados e estamos percebendo, com certeza, que o terceiro turno já começou. Haddad está sendo e será pressionado a compor a sua equipe de forma “responsável”, escolhendo profissionais respeitados pelo mercado. Dito de outra forma, de uma forma mais crua, mais realista: o que a turma da bufunfa deseja, exige na verdade, é a rendição, ou seja, a escolha de pessoas que executem fielmente seus desígnios e alinhem a política econômica aos interesses do mercado financeiro.
Ora, ceder a isso é praticar o infame estelionato eleitoral: eleger-se com o povo e governar com os plutocratas. Atenção: a experiência brasileira das últimas décadas sugere que estelionato eleitoral é suicídio político. Vide, por exemplo, o Cruzado II, logo após as eleições de fins de 1986, traição da qual o governo Sarney nunca se recuperou. Collor passou por algo semelhante: nunca mais se refez do alongamento forçado das cadernetas de poupança e demais ativos financeiros, terminando por sofrer impeachment. FHC também nunca se recuperou do estelionato que praticou para se reeleger em 1998; depois das eleições corrigiu o câmbio artificialmente represado, mas perdeu para sempre a sua credibilidade.
Dilma é o exemplo mais recente. Fez campanha para a reeleição com plataforma de esquerda, inclusive e notadamente na área econômica. Venceu o segundo turno, mas sofreu derrota monumental no terceiro, quando entregou o comando do Ministério da Fazenda a um economista ortodoxo radical. A partir daí foi descendo ladeira abaixo e acabou derrubada.
Como será o terceiro turno desta vez? Temos riscos, mas também trunfos. Os riscos são psicológicos, em primeiro lugar. Existe sempre a tentação de seguir a estrada aparentemente mais fácil e buscar a aceitação pelos poderes estabelecidos. A turma da bufunfa é craque na arte de seduzir e manipular. Antonio Palocci fez o jogo deles, acreditando que iria longe. Foi abandonado à própria sorte depois que prestou variados e valiosos serviços.
O outro risco é econômico: a fragilidade fiscal. O déficit governamental é elevado, considerando (como se deve) não apenas o déficit primário, mas também a carga de juros. A dívida pública também é elevada e tem vencimentos pesados no curto prazo. A turma da bufunfa opera em mercados financeiros concentrados, sujeitos a manipulações e movimentos combinados. A sua arma no terceiro turno é desencadear e alimentar incertezas, que se traduziriam em dificuldades de rolagem da dívida de curto prazo e pressões sobre a taxa de câmbio.
Mas os trunfos do nosso lado são consideráveis, maiores do que em 2002 quando FHC deixou tudo pendurado por barbante. O problema da dívida pública é grave, mas mesmo aí temos vantagens. A dívida é sobretudo interna e denominada em moeda nacional. A parcela em mãos de investidores estrangeiros é relativamente pequena. Como o setor público é credor líquido em moeda estrangeira, a desvalorização cambial favorece as contas governamentais.
O setor público é credor líquido em moeda estrangeira basicamente porque as reservas internacionais são muito altas, da ordem de US$ 380 bilhões, herança positiva dos governos Lula e Dilma que não foi desbaratada no governo Temer. Por esses e outros motivos, a posição do setor externo da economia brasileira é excepcionalmente forte, o que nos diferencia de economias acossadas por crises cambiais como a Argentina, que já caiu nos braços do FMI, e a Turquia.
Por último e não menos importante: o terceiro turno é um filme que já vimos. Não temos por que nos apavorar. Temos condições de fazer face a pressões e eventuais ataques especulativos contra a dívida pública e a moeda nacional.
Requisitos: nervos de aço, calma e bom senso.
Paulo Nogueira Batista Jr. é economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países.
E-mail: [email protected]
Twitter: @paulonbjr
Lucinei
1 de outubro de 2018 10:26 amSe ganhar a eleição, se
Se ganhar a eleição, se ganhar, nao vai poder dormir, pelo amor do deus.
No entanto, não dá mais pra enfrentar a batalha economica esquecendo da batalha da comunicação.
Outra coisa, quanto mais o bloco reacionário for sentindo que vai perder de fato, ja é mais que sabido, ou força o golpe ou força todo tipo de chantagem e acordo. O caminho pra esquerda é aceitar o acordo…e descumprir la na frente, sobretudo com as comunicaçoes na mesa, na bandeja. Nao pode desperdiçar o fato de a fascistada também estar “p” da vida com a rede globo, veja e a midia – que pra eles é – “petista”.
Valmont
1 de outubro de 2018 11:30 amBom sinal
Da coluna de Tereza Cruvinel, no JB: VETO DE LULAAté aqui, o ex-presidente Lula só fez uma exigência a Fernando Haddad em relação à montagem de sua equipe: que não entregasse o comando da área de comunicação ao jornalista Nunzio Briguglio.
O fato de Lula ter interferido pessoalmente nessa escolha é um bom sinal de que a comunicação estará no centro da estratégia política do Partido dos Trabalhadores, após tantos anos de descaso.
Joel Lima
1 de outubro de 2018 10:35 amPrimeiro ato de Haddad = em
Primeiro ato de Haddad = em nome do ajuste fiscal que dá orgasmos a Miriam Leitão, cortaremos as verbas da publicidade estatal a ZERO. Nenhum centavo sairá do governo pra anunciar em nenhuma mídia. No dia seguinte a isso, vamos ver placa de VENDE-SE no prédio do EStadão e da Banda. A Globo vai ter que chamar o macho alfa bonner e diminuir a metade o salário.
Rui Ribeiro
1 de outubro de 2018 11:12 amOs Golpistas ajudaram o Lula a conquistar o penta-campeonato
Ao colocar o bode cagão Michel Temer na sala do Brasil, os golpistas ajudaram o Lula a conquistar o penta-campeonato. Agora, quando o PT vai voltar e o bode cagão for retirado da sala, aqueles que reclamavam dos governos petistas estarão muito mais aliviados, nada obstante a sala continue com as mesmas dimensões de antes.
Somebody
1 de outubro de 2018 11:14 amVocês de esquerda quando
Vocês de esquerda quando ganham as eleições não governam de fato porque vocês teimam burramente em manter sabotadores e traidores da pátria em postos-chave como o supremo tribunal, procuradores, juízes e afins.
Anarquista Lúcida
1 de outubro de 2018 10:18 pmPelo menos tá assumindo q é de direita, né gringo?
Vocês de esquerda? Eta ato falho legal. Além de arrogante, burro.
Valmont
1 de outubro de 2018 11:22 amGênio brasileiro
Taí um economista genial de que o Brasil pode se orgulhar.
Um craque dessa magnitude não pode ficar na reserva.
Tem que estar no campo, porque joga muito.
Você conhece alguém mais qualificado para ocupar o Ministério da Fazenda?
Eu não.
arkx
1 de outubro de 2018 11:52 amGanhar a eleição sem perder o governo
-> Lula foi a estrela insuperável do campeonato, mesmo alijado do torneio. Será pentacampeão!
-> O que está em disputa nesse terceiro turno é o controle das principais alavancas da área econômica, notadamente o comando do Ministério da Fazenda e do Banco Central.
muitos já compreenderam muito bem o que está em marcha, embora ainda se neguem a acreditar. mesmo os já convencidos, entraram em estado de choque sem saber como reagir.
por isto nunca é demais repetir em negrito: a candidatura Haddad foi concebida desde sua origem como mais um estelionato eleitoral!
não se iludam! não iludam as pessoas! não sejam levianos, tenham responsabilidade!
pois este novo estelionato eleitoral é mais uma “obra magistral” do próprio Lula.
não existe nenhum outro caminho para o Brasil, a não ser aquele que Lula apontou em seu último comício no Rio de Janeiro na campanha de 1989:
” Mas também a gente não pode ficar na televisão dizendo: Olha, eu vou fazer o país crescer e vou distribuir renda. É preciso que a gente tenha coragem de dizer. Só existe uma forma de distribuir renda neste país. É tirar de quem tem para dar para quem não tem. É tirar dos ricos para dar pros pobres. Os empresários vão ter que perder para que a classe trabalhadora possa ganhar mais.
Nós temos que dizer isto para que as pessoas saibam que a gente não tá brincando de fazer política.”
vídeo: VHS: Lula – Último Comício 1989 – Rio de Janeiro
[video: https://www.youtube.com/watch?v=quHIlt05wvw%5D
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Genaro
1 de outubro de 2018 12:45 pmNassif;
Avaliação perfeita do
Nassif;
Avaliação perfeita do Paulo Nogueira Batista;
Já podemos ir delineando o ministério do Hadad.
sds
Genaro
CARLOS PINHEIRO JR.
1 de outubro de 2018 3:33 pmArtigo bom, mas…
O artigo do Paulo Nogueira Batista Jr. é bom e animador para nós da esquerda, mas ele se confundiu na metáfora futebolística. Pelé foi caçado e tirado de campo na Copa de 1966, na Inglaterra, e não na de 1962, no Chile. Nesta, ele sofreu uma distensão muscular sozinho, depois de um chute a gol no jogo contra a (então) Tchecoslováquia.
Edson J
1 de outubro de 2018 3:33 pmCargo
Não é de hoje que já comentei com amigos. Se Haddad for eleito (Deus queira), faria um golaço no começo do jogo se entregasse ao autor deste artigo a escolha entre o cargo de Ministro da Fazenda ou Presidente do Banco Central. O mercado? Ora, o mercado tem votos? O mercado é eleitor? Como diz a nossa Constituição, todo o poder deve emanar do povo e ser exercido em seu nome. Obedecer ao mercado não tem outra definição: é traição ao eleitor.
Jorge Fernandes
1 de outubro de 2018 4:31 pmSe LULAddad
começar dia 01.01.19 com republicanismos idiotas e não enquadrar a banca, o judiciario e o PIG, no dia 02.02.19 começo a fazer campanha pelo impedimento dele
to cansado de lutar, divulgar, dabater, perder amigos e ser traído.
Maria Luisa
1 de outubro de 2018 4:54 pmO bolsonaro pensa que pode
O bolsonaro pensa que pode ganhar no grito. Se o Brasil tem instituições e ele faz parte delas, tem que respeita-las. Quanto a essa historia de que Haddad é estelionato eleitoral é mais uma tentativa de desmoralizar o PT. Chega.
ohallot
1 de outubro de 2018 5:40 pmMais importante quanto a turma da bufunfa
é saber nomear o ministro da Justiça certo.