4 de junho de 2026

O que Ben Urwand pode ensinar aos eleitores brasileiros?, por Fábio de Oliveira Ribeiro

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O que Ben Urwand pode ensinar aos eleitores brasileiros?

por Fábio de Oliveira Ribeiro

A melhor maneira de resenhar este livro é ir direto à exposição que o próprio autor fez da ferida histórica que ele estudou:

“No decorrer da investigação, uma palavra se repetia com constância nos registros tanto alemães quanto americanos: ‘colaboração’ (Zusammenarbeit). E, aos poucos, ficou claro que essa palavra descrevia com precisão o arranjo particular entre os estúdios de Hollywood e o governo alemão na década de 1930. Do mesmo modo que outras companhias americanas, como IBM e General Motors, os estúdios de Hollywood colocavam o lucro acima dos princípios em sua decisão de fazer negócios com os nazistas. Eles injetaram dinheiro na economia alemã numa variedade de maneiras embaraçosas. Mas, como o Departamento de Comércio dos Estados Unidos reconheceu, os estúdios de Hollywood não eram simples distribuidores de bens; eram provedores de ideais e cultura. Tinhas a oportunidade de mostrar ao mundo o que realmente acontecia na Alemanha. Nisso o termo ‘colaboração’ assumia seu pleno significado.

Os diretores de estúdio, que eram em sua maioria imigrantes judeus, foram a extremos excepcionais para preservar seus investimentos na Alemanha. Embora poucos comentassem isso na época, esses homens seguiam as instruções do cônsul alemão em Los Angeles, abandonando ou mudando toda uma série de filmes que teriam exposto a brutalidade do regime nazista. Esse foi o arranjo da década de 1930, e, ao final de uma longa pesquisa, de repente ficou claro por que a evidência estava dispersa em tantos lugares: era porque a colaboração envolve mais de uma parte. Nesse caso, a colaboração envolveu não apenas os estúdios de Hollywood e o governo alemão, mas também uma variedade de outras pessoas e organizações nos Estados Unidos. Se esse é um capítulo obscuro na história de Hollywood, então ele também é um capítulo obscuro da história americana.” (A Colaboração – o pacto entre Hollywood e o Nazismo, Ben Urwand, Leya, São Paulo, 2014, p. 15/16)

O livro A Colaboração – o pacto entre Hollywood e o Nazismo narra a obsessão de Hitler por cinema.  Citando Mein Kampf, Urwand afirma que o líder alemão imaginava que “…a nova tecnologia poderia ser capaz de transformar as opiniões de um grande grupo de pessoas rapidamente e sem confusão” (A Colaboração – o pacto entre Hollywood e o Nazismo, Ben Urwand, Leya, São Paulo, 2014, p. 23). Todavia, segundo ele, Hitler dava mais importância à oratória que ao cinema. O líder alemão acreditava que a presença do orador diante do seu público permitia a ele medir a reação das pessoas e modular sua performance até atingir o efeito desejado: o convencimento da plateia.

Urwand faz uma exposição detalhada sobre vários filmes “made in USA” que foram modificados para atender a estética e à ideologia nazista. Também revela que os diretores de estúdios chegaram a deixar de produzir filmes antinazistas para não comprometer seus lucros no III Reich até o final da década de 1930.

A colaboração entre os judeus e o III Reich é um fato doloroso. O fenômeno foi documentado por Hannah Arendt:

“Em Amsterdã assim como em Varsóvia, em Berlim como em Budapeste, os funcionários judeus mereciam toda confiança ao compilar as listas de pessoas e de suas propriedades, ao reter o dinheiro dos deportados para abater as despesas de sua deportação e extermínio, ao controlar os apartamentos vazios, ao suprir forças policiais para ajudar a prender os judeus e conduzi-los aos trens, e até, num último gesto, ao entregar os bens da comunidade judaica em ordem para o confisco final.” (Eichmann em Jerusalém, Hannah Arendt, Companhia das Letras, São Paulo, 1999, p. 14)

Em razão de ter concluído que os judeus foram mais facilmente localizados, reunidos e transportados para o extermínio nos países ocupados em que a comunidade judaica era organizada e colaborava com o III Reich, Hannah Arendt se tornou uma persona non grata. Ela foi hostilizada pela comunidade judaica norte-americana e rejeitada por alguns de seus amigos pessoais (fato referido no filme Hannah Arendt de 2012).

Os diretores de estúdios de cinema que colaboraram com o nazismo, entretanto, não sofreram qualquer tipo de perseguição nos EUA. Numa palestra sobre sua obra, Urwand é categórico: nos anos 1940, os estúdios de Hollywood começaram a encobrir sua colaboração com o III Reich produzindo filmes abertamente antinazistas.

https://www.youtube.com/watch?v=xsBj1f-T9hk

Há algo mais que o autor não disse, mas que poderia ser dito. Os estúdios de Hollywood (que haviam lucrado colaborando com o nazismo) passaram a obter lucros apoiando o esforço de guerra dos EUA e, depois da vitória, o trabalho de desnazificação da Alemanha sob o comando dos Aliados.

Publicado há alguns anos, o livro de Urwand foi moderadamente debatido no Brasil https://www.cartacapital.com.br/internacional/hollywood-e-hitler-os-chefes-dos-estudios-cederam-aos-desejos-nazistas-8945.html. Ele deve voltar a despertar atenção em razão de uma matéria publicada pela The Economist e intensamente repercutida no Brasil.

https://www.infomoney.com.br/mercados/politica/noticia/7565785/bolsonaro-risco-democracia-seria-presidente-desastroso-diz-the-economist

https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2018-09-20/jair-bolsonaro-economist.html

https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,the-economist-chama-bolsonaro-de-a-ultima-ameaca-da-america-latina,70002510950

https://www.cartacapital.com.br/politica/para-the-economist-bolsonaro-daria-um-governo-desastroso

O diagnóstico da The Economist em relação a Jair Bolsonaro é aparentemente preciso. Todavia, a revista inglesa não mencionou dois fatos importantes: a imprensa brasileira ajudou a desencadear o golpe “com o STF com tudo” que derrubou Dilma Rousseff e provocou o crescimento do líder de extrema direita; os barões da mídia estão colaborando ativamente com o principal candidato antipetista, seja atacando Haddad e o PT seja minimizando o fato de que Bolsonaro é favorável à tortura e prometeu fuzilar FHC, fechar o Congresso Nacional e mandar matar 30 mil pessoas de esquerda:

https://www.youtube.com/watch?v=PGTtIGmOY24

Em seu livro Mein Kampf, que foi publicado em 1925, Hitler havia prometido exterminar os judeus. Isso não impediu os estúdios norte-americanos de colaborar com o nazismo nos anos 1930. Há duas décadas Bolsonaro prometeu cometer um genocídio no Brasil, mas isso parece não incomodar os barões da mídia. A ambição econômica levou os estúdios de Hollywood (que eram dirigidos por judeus) a colaborar com nazismo e, de certa maneira, legitimar um cenário político em que a Solução Final se tornou plausível e passível de ser executada. A racionalidade neoliberal dos barões da mídia brasileiro está criando um cenário muito semelhante no Brasil em 2018.

Foi por isso que resolvi tecer algumas palavras sobre o livro de Ben Urwand. Conhecer o passado é uma maneira de tomar as decisões certas no presente para evitar uma tragédia no futuro.

 

 

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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  1. WG

    20 de setembro de 2018 9:03 pm

    Hollywood tornou-se parte

    Hollywood tornou-se parte essencial da máquina de guerra dos EUA.  Em quase todos os filmes norte americanos, é possível detectar componentes ideológicos, do tipo China inimiga, Japão amigo, Coréia do Norte inimiga, Cuba inimiga, etc etc. Seria interessante saber de que forma esse componente é inserido, se de forma voluntária ou não, trata-se de um processo sistemático.

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      21 de setembro de 2018 11:52 am

      O problema que você menciona

      O problema que você menciona pode ser resumido numa fórmula bastante singela:

      “Nos EUA a indústria cinematográfica é uma continuação da guerra por outros meios.”

      Na fase atual, além do inimigo estrangeiro (“Estaremos em guerra com os chineses em 10 anos”, diz um dos protagonistas do filme Infiltrados de 2006) há o inimigo interno (os derrotados pelo neoliberalismo).

      O primeiro é sempre colocado em relevo e mostrado como terrível, desumano, violento, dissoluto e enganador (como o líder norte-coreano em A Entrevista de 2014).

      O segundo (os pobres, desempretados, famintos, desesperados e sem casa nos EUA) são simplesmente ignorados. Não há qualquer espaço para a existência deles nos cinemas.

      A estética cinematográfica dos EUA é dominada pelo americanismo.

      Um escritor cujo nome esqueci definiu o americanismo como o nazismo dos norte-americanos.

      Não creio que ele esteja totalmente errado. 

  2. Edgar Rocha

    20 de setembro de 2018 9:13 pm

    Sempre os EUA…

    Ótimo! E isto poderia ser estendido ao mercado financeiro e às grandes corporações americanas financiadoras das tinc-tanc, em especial, as petrolíferas.

    Sempre eles. Não esquecendo o caráter tributário da mídia brasielra em relação à americana (Globo é filha da Time Life, por exemplo). Todos torcem por Bolsonaro, mesmo que discretamente.

    Imaginemos: numa revolta anti-nazista no Brasil, de que lado ficariam os EUA e a OTAN? Eu aposto que diriam que os russos estariam por trás de tudo pra derrubar o coiso e ferir nossa democracia. Com as bênçãos de Trump, Obama, Hilary, poderiam invadir o país pra ‘nos defender”. É uma possibilidade, não acham? os EUA só tem o seu próprio lado. E o capital está do lado que pagar mais. Dinheiro não tem religião.

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