
Anjos & insetos. III. A síntese abiótica de moléculas orgânicas
Por Felipe A. P. L. Costa [1]
A descoberta de que aminoácidos e outras moléculas orgânicas complexas podem ser sintetizados espontaneamente, mesmo na ausência de seres vivos, inaugurou uma nova era no estudo experimental da origem da vida.
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O mais novo dos dois filhos do casal Nathan e Edith Miller – ele um juiz, ela uma professora –, Stanley Lloyd Miller nasceu em Oakland, na Califórnia, em 7/3/1930.
O interesse pela vida ao ar livre começou na infância, levando-o a se tornar um escoteiro. Gostava de acampar, sobretudo porque a experiência lhe permitia ficar em contato direto com a natureza, longe dos problemas e das amolações do dia a dia. Na década de 1960, já como professor universitário, voltaria a acampar na cordilheira de Sierra Nevada (Bada & Lazcano 2012). Iniciou os estudos universitários na Universidade da Califórnia (Berkeley) e, seguindo os passos do irmão mais velho (Donald), graduou-se em química (1951). Foi em seguida para a Universidade de Chicago, onde fez uma pós-graduação (1954). Por sugestão do primeiro orientador, o físico estadunidense de origem húngara Edward Teller (1908-2003), o ‘pai da bomba de hidrogênio’, o tema inicial de sua pesquisa era a nucleossíntese. Em 1952, no entanto, Teller anunciou que estava deixando a universidade, indo trabalhar no que viria a ser o Laboratório Nacional Lawrence Livermore, um centro de pesquisas nucleares, em Livermore (Califórnia).
Recomeçando do zero
Embora Teller tenha se colocado à disposição para continuar acompanhando a sua pesquisa, Miller foi aconselhado a procurar outro orientador. Assim, após quase um ano de trabalho, e tendo avançado relativamente pouco, ele se viu às voltas com a necessidade de recomeçar tudo praticamente do zero [2].
Foi quando Miller voltou a pensar no trabalho de Harold C. Urey (1893-1981), químico estadunidense agraciado com o Nobel de Química (1934) por suas pesquisas com isótopos. No ano anterior, assistindo a uma palestra de Urey, Miller ficou intrigado com o que ouviu a respeito da atmosfera primitiva. Eis o que o laureado palestrante escreveu sobre a origem da vida (Urey 1952, p. 355; tradução livre):
Em nossa presente discussão, o problema da origem da vida envolve três questões distintas: (1) a formação espontânea dos compostos químicos que formam os corpos físicos dos organismos vivos; (2) a evolução de reações químicas complexas que são a base dinâmica da vida; e (3) a fonte de energia livre que, sozinha, pode manter as reações químicas e sintetizar os compostos químicos.
Quando chegou a Chicago, Miller pretendia desenvolver uma pesquisa exclusivamente teórica. Agora, porém, ele estava decidido a testar as ideias de Urey, fazendo disso o tema de sua tese. Em setembro de 1952, Miller apresentou suas pretensões ao novo orientador. Urey, a princípio, relutou, pois temia que o seu aluno, tendo um prazo relativamente curto pela frente, não conseguisse obter resultados expressivos. Miller insistiu e os dois, por fim, estabeleceram um acordo: ele faria uma tentativa; caso não obtivesse resultados promissores em alguns meses, procuraria então um tema mais ‘seguro’ para a tese.
Montando um experimento
O primeiro desafio do experimento – comumente referido como experimento de Miller-Urey, embora a autoria do artigo original seja apenas de Miller – foi construir um microcosmo que de algum modo pudesse simular as condições da Terra pré-biótica. O aparato que foi usado era relativamente simples, sendo constituído de duas esferas de vidro (uma menor, capaz de armazenar ~0,5 L de água, e a outra maior, com capacidade para 5 L) conectadas entre si por um sistema de tubos.
A esfera menor, que fazia o papel dos oceanos, continha água, mantida em ebulição por uma fonte de calor (‘o Sol’). O vapor d’água produzido era conduzido por um tubo ascendente até a esfera maior, que continha gases (metano, amônia, hidrogênio) e fazia o papel de atmosfera. A esfera maior estava equipada com um par de eletrodos, os quais periodicamente liberavam descargas elétricas, como se fossem os relâmpagos da atmosfera primitiva. O vapor d’água – e os produtos das reações eventualmente ocorridas no interior da esfera maior – fluía então por um tubo descendente, condensava-se e, por fim, retornava à esfera menor – mimetizando assim o papel das chuvas e dos cursos d’água no transporte dos compostos desde a atmosfera até os oceanos.
Algumas características do experimento eram claramente simplificações pouco realistas. Manter a água da esfera menor em ebulição foi uma delas. Outra foi manter a concentração de gases bem acima dos níveis estimados para a atmosfera primitiva. Por que Miller e Urey admitiram tais simplificações? Em linhas gerais, para ganhar tempo. Manter o ‘oceano’ em ebulição e aumentar a concentração de gases na ‘atmosfera’ acelerariam as reações, facilitando a obtenção de algum tipo de resultado em uma escala de tempo acessível – dias ou semanas, e não na escala natural de centenas, milhares ou mesmo milhões de anos!
Após submetê-lo a ensaios preliminares, o aparato enfim foi posto para funcionar. Transcorrida uma semana, Miller notou que um líquido amarronzado, de aspecto oleoso, havia se acumulado na esfera menor. Para surpresa geral [3], as primeiras análises indicavam a presença de substâncias orgânicas relativamente complexas, como alanina e glicina, dois aminoácidos proteicos. Análises posteriores confirmaram boa parte dos resultados iniciais, além de revelar a presença de compostos adicionais.
Química pré-biótica
O trabalho de Miller foi um verdadeiro divisor de água. Afinal, o líquido obtido por ele não era tão somente uma mistura aleatória de compostos simples – e milhares deles poderiam ter sido formados. O fato de que foram encontrados aminoácidos – e outras moléculas orgânicas – em quantidades apreciáveis está de acordo com a hipótese de que tais compostos poderiam ter sido sintetizados nas condições habitualmente descritas da atmosfera pré-biótica. Além disso, levanta a suspeita de que tais compostos eram relativamente abundantes.
Nas palavras de Garrison (2010, p. 12; grafia original):
Houve geração de vida nesses experimentos? Não, os compostos que se formaram são apenas blocos construtores da vida. Mas os experimentos realmente mostram algo sobre as características e a uniformidade da vida na Terra. O fato de esses compostos cruciais poderem ser sintetizados com tanta facilidade e estarem presentes em todas as formas de vida não é coincidência. Eles são ‘permitidos’ pelas leis da física e pela composição química do planeta. Os experimentos também enfatizam o papel especial da água nos processos da vida. O fato de qualquer forma de vida, da água-viva a uma erva no deserto, depender de água salgada em suas células para dissolver e transportar substâncias químicas é certamente significativo, o que sugere que as moléculas vivas simples e [autorreplicantes] surgiram em algum lugar no oceano. Também sugere que toda a vida na Terra possui ancestralidade e origem comum.
Os resultados foram divulgados em um artigo de duas páginas na revista Science (Miller 1953). O artigo, curiosamente, era assinado apenas por Miller, embora este tenha inicialmente pretendido incluir o nome do orientador [4]. Assumindo uma postura estranha aos padrões atuais de conduta, Urey declinou da oferta, pois, nesse caso, segundo ele, Miller receberia pouco ou nenhum crédito pelo trabalho.
O sucesso do experimento despertou a imaginação e estimulou o trabalho de outros pesquisadores, a ponto de ser referido hoje como um marco no estudo experimental das origens da vida. Dois anos depois, pesquisadores ingleses reportaram a primeira repetição do experimento, obtendo resultados semelhantes. Nos anos seguintes, diversos laboratórios mundo afora fariam a mesma coisa. Em linhas gerais, os resultados mostram que, dada uma ‘atmosfera’ redutora, sujeita a descargas elétricas, várias substâncias orgânicas (e.g., aminoácidos, açúcares e bases nitrogenadas) são sintetizadas. Mesmo diante de críticas importantes (e.g., a atmosfera pré-biótica seria oxidante, e não redutora), a principal conclusão de Miller continua de pé: moléculas orgânicas complexas podem ser obtidas, mesmo sob circunstâncias inteiramente abióticas.
Coda
Em 1954, após concluir o doutorado, Miller foi trabalhar no Instituto de Tecnologia da Califórnia. No ano seguinte, foi para a Universidade de Columbia (Nova York), onde ficou até 1960. Foi então para a Universidade da Califórnia, em San Diego, onde permaneceria até o fim da vida. Ao longo de sua carreira, ele sempre esteve envolvido com a chamada química pré-biótica, voltando-se também para o estudo da síntese de nucleotídeos e ácidos nucleicos.
Em novembro de 1999, Stanley Miller sofreu um primeiro derrame cerebral. Continuou trabalhando por mais algum tempo, mas ficou debilitado e logo se aposentou. Mudou-se então para uma casa de repouso, em National City, cidadezinha próxima a San Diego. Nos anos seguintes, sofreu uma sucessão de derrames, vindo a falecer em 20/5/2007, aos 77 anos, em decorrência de problemas cardíacos. Não era casado nem teve filhos.
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Notas
[1] O título deste artigo – os dois anteriores estão aqui e aqui – faz alusão ao filme ‘Angels & insects’ (1995), de Phillip Haas, adaptado do romande ‘Morpho eugenia’ (1992), da escritora inglesa A. S. Byatt (assinatura literária de Antonia Susan Duffy [nascida em 1936]).
[2] Em certo sentido, a mudança foi oportuna, pois logo depois surgiriam dois artigos (Hoyle et al. 1956; Burbidge et al. 1957), agora clássicos, dando um novo rumo ao estudo da origem dos elementos químicos. Segundo Hoyle e colegas, à medida que envelhecem, as estrelas queimam seu estoque de combustível (H e He). Quando o estoque está perto do fim, a temperatura externa sobe, enquanto a força gravitacional interna fica mais intensa. Dependendo do tamanho da estrela, isso pode resultar em fases alternadas de contração e expansão. Durante a fase de contração, a pressão e a temperatura no núcleo da estrela atingem valores elevadíssimos, o suficiente para que átomos pesados sejam formados pela fusão de átomos mais leves. As estrelas funcionariam assim como fornos cósmicos, no interior dos quais os núcleos se fundiriam, gerando átomos mais pesados – ver Wallerstein et al. (1997); em português, ver Singh (2006).
[3] Até mesmo os seus colegas de laboratório duvidaram dos resultados (Bada & Lazcano 2012).
[4] Sobre os bastidores da publicação do artigo, ver Bada & Lazcano (2012). Ainda em 1953, não custa lembrar, o físico inglês Francis Crick (1916-2004) e o biólogo estadunidense James Watson (nascido em 1928) propuseram o famoso modelo em dupla hélice para a estrutura do ADN.
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Referências citadas
Bada, JL & Lazcano, A. 2012. Stanley L. Miller 1930-2007: A biographical memoir. Washington, NAS.
Burbidge, EM & mais 3. 1957. Synthesis of the elements in stars. Reviews of Modern Physics 29: 547-650.
Garrison, T. 2010 [2006]. Fundamentos de oceanografia, 4ª ed. SP, Cengage.
Hoyle, F & mais 3. 1956. Origin of the elements in stars. Science 124: 611-4.
Miller, S. 1953. A production of amino acids under possible primitive earth conditions. Science 117: 528-9.
Singh, S. 2006. Big Bang. RJ, Record.
Urey, HC. 1952. On the early chemical history of the earth and the origin of life. PNAS 38: 351-63.
Wallerstein, G & mais 14. 1997. Synthesis of the elements in stars: forty years of progress. Reviews of Modern Physics 69: 995-1084.
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[Nota adicional: versão resumida e adaptada de capítulo do livro O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna (2017); para informações adicionais a respeito da obra, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, ver aqui; para conhecer outros artigos e livros do autor, ver aqui.]
Anarquista Lúcida
12 de setembro de 2018 7:16 pmSei que tb se formam as bases do DNA e do RNA
Com exceçao de uma, o uracil, parece.
Lisbeth.Salander
12 de setembro de 2018 7:31 pmNem uma palavra em seu texto sobre ALEXANDER OPARIN… why?
from: https://www.physicsoftheuniverse.com/scientists_oparin.html
ALEXANDER OPARIN
(1894 – 1980)
Alexander Oparin
Alexander Oparin was a Russian biochemist, notable for his contributions to the theory of the origin of life on Earth, and particularly for the “primordial soup” theory of the evolution of life from carbon-based molecules. Oparin also devoted considerable effort to enzymology and helped to develop the foundations of industrial biochemistry in the USSR. He received numerous decorations and awards for his work, and has been called “the Darwin of the 20th Century”.
Alexander (or Aleksandr) Ivanovich Oparin was born on 2 March 1894 in Uglich, Russia. When he was nine years old, his family moved to Moscow because there was no secondary school in their village. He attended Moscow State University, majoring in plant physiology, where he was influenced by K. A. Timiryazev, a Russian plant physiologist who had known the English naturalist Charles Darwin, and Darwin’s work was to greatly influence Oparin’s later ideas. He graduated from the Moscow State University in 1917, and became a professor of biochemistry there in 1927.
In 1924, Oparin officially put forward his influential theory that life on Earth developed through gradual chemical evolution of carbon-based molecules in a “primordial soup”, at just about the same time as the British biologist J. B. S. Haldane was independently proposing a similar theory. As early as 1922, at a meeting of the Russian Botanical Society, he had first introduced his concept of a primordial organism arising in a brew of already-formed organic compounds. He asserted the following tenets:
There is no fundamental difference between a living organism and lifeless matter, and the complex combination of manifestations and properties so characteristic of life must have arisen in the process of the evolution of matter.The infant Earth had possessed a strongly reducing atmosphere, containing methane, ammonia, hydrogen and water vapor, which were the raw materials for the evolution of life.As the molecules grew and increased in complexity, new properties came into being and a new colloidal-chemical order was imposed on the simpler organic chemical relations, determined by the spatial arrangement and mutual relationship of the molecules.Even in this early process, competition, speed of growth, struggle for existence and natural selection determined the form of material organization which has become characteristic of living things.Living organisms are open systems, and so must receive energy and materials from outside themselves, and are not therefore limited by the Second Law of Thermodynamics (which is applicable only to closed systems in which energy is not replenished).
Oparin showed how organic chemicals in solution may spontaneously form droplets and layers, and outlined a way in which basic organic chemicals might form into microscopic localized systems (possible precursors of cells) from which primitive living things could develop. He suggested that different types of coacervates might have formed in the Earth’s primordial ocean and, subsequently, been subject to a selection process, eventually leading to life.
He effectively extended Charles Darwin’s theory of evolution backwards in time to explain how simple organic and inorganic materials might have combined into more complex organic compounds, which could then have formed primordial organisms. His proposal that life developed effectively by chance, through a progression from simple to complex self-duplicating organic compounds, initially met with strong opposition, but has since received experimental support (such as the famous 1953 experiments of Stanley Miller and Harold Urey at the University of Chicago), and has been accepted as a legitimate hypothesis by the scientific community.
In 1935, Oparin helped found the A. N. Bakh Institute of Biochemistry (part of the USSR Academy of Sciences). His definitive work, “The Origin of Life”, was first published in 1936. He became a corresponding member of the USSR Academy of Sciences in 1939, and a full member in 1946, and he served as director of the Institute of Biochemistry from 1946 until his death. In the 1940s and 1950s, he supported the pseudo-scientific theories of Trofim Lysenko and Olga Lepeshinskaya, seen by some as a cynical effort to “take the party line” and thereby to advance his own career.
Oparin organized the first international meeting on the origin of life in Moscow in 1957, which was to be followed by other meetings in 1963 and in 1970. He was nominated as a Hero of Socialist Labour in 1969 and, the next year, was elected President of the International Society for the Study of the Origins of Life. He received the Lenin Prize in 1974 and the Lomonosov Gold Medal in 1979 “for outstanding achievements in biochemistry”. He was also awarded five Orders of Lenin, the highest decoration bestowed by the Soviet Union.
Oparin died on 21 April 1980 in Moscow, and was interred in Novodevichy Cemetery in Moscow.
Alexander Oparin Books
See the additional sources and recommended reading list below, or check the physics books page for a full list.
El Origen de La Vida (Spanish Edition)
by Alexander I. Oparin (Author)The Chemical Origin of Life
by Alexander I. Oparin (Author), Ann Synge (Translator)Summary of Alexander Oparin’s “The Origin of Life”
by Ultano Kindelan Everett (Author)
ALEXANDER OPARIN
(1894 – 1980) << Back to List of Important Scientists
Ivan de Union
12 de setembro de 2018 8:00 pm“A descoberta diki”…
A
“A descoberta diki”…
A gente ate desiste diki… Ler!
Anarquista Lúcida
13 de setembro de 2018 7:13 pmIvan, até vc c/ bobagem purista?
Nem parece o Ivan que eu conheço. E qual o problema, descoberta de que está Ok até de um ponto de vista purista.