10 de junho de 2026

Eu não preciso ler jornais, por Sergio Saraiva

“A semana foi marcada por dois episódios que merecem reflexão no mundo jornalístico. O primeiro foi internacional e político. O segundo foi nacional e econômico”.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

NYT

Assim começa o texto ”A imprensa na berlinda” da ombudsman da Folha de 19 de agosto de 2018.

Poderia tratar e até parecia para mim inicialmente que iria tratar como primeiro episódio – o internacional e político – da ausência, na grande mídia, de notícias sobre o documento do Comitê de Direitos Humanos da ONU determinando que o Brasil garanta os direitos políticos de Lula. Seria, aliás, pertinente ao seu papel de ombudsman.

informado1

Mas, não. Trata da reação do jornalismo dos EEUU em relação as posturas do presidente Donald Trump de ataque à imprensa.

A ombudsman se solidariza com os colegas americanos. Ainda que mereçam a solidariedade, tal manifestação soa meio que ridícula – talvez patética – vindo de quem vem. Ainda assim, reflete à perfeição o momento de autismo da grande imprensa brasileira.

Vejamos.

O Papa envia uma carta a Lula – um ex-presidente que está em uma prisão – e a imprensa não noticia. Um Prêmio Nobel da Paz inicia uma campanha em defesa de Lula e a imprensa não noticia. Lula havia conduzido, antes da prisão, conduz uma caravana que lota praças pelo norte, nordeste e sudeste do país, mas a imprensa igualmente não noticiara.

Quando, no Sul, a caravana for alvo de atentados de milicianos do candidato opositor na corrida eleitoral, o crime será noticiado como se o que tivesse ocorrido fossem “protestos” onde “manifestantes” lançaram “ovos” contra a ela. Nas palavras da própria ombudsman, na época: “ovos, pedras e objetos diversos. No final … tiros”. Mas, ovos – antes e primeiramente.

Cinquenta mil pessoas marcham para acompanhar o registro da candidatura de Lula em Brasília, mas a imprensa não noticia. Antes, outras dezenas de milhares de pessoas e uma vintena dos principais artistas nacionais se reúnem em um show com o indubitável nome de “Lula Livre” nos icônicos arcos da Lapa, no Rio de Janeiro – nenhuma notícia.

Pesquisas eleitorais consecutivamente cravam Lula como líder em intenções de votos; e os jornais dão destaque ao segundo colocado – criaram mesmo uma nova categoria – o “líder, sem Lula”.

Finalmente, escondem a ONU de suas páginas.

Passa, então, a soar como deslocado da realidade da mídia brasileira a citação que a ombudsman faz do New York Times criticando Trump:

“Insistir que verdades que você não gosta são ‘notícias falsas’ é perigoso para a força vital da democracia. E chamar jornalistas de ‘inimigo do povo’ é perigoso, ponto final.”

No Brasil, a questão não são as notícias falsas – isso já é prática usual contra a qual criamos anticorpos – a questão é a “não notícia”. O que caracteriza a imprensa brasileira hoje é a “não-notícia”. E o “jornalismo” da grande imprensa parece viver muito bem com isso.

O NYT noticiou a posição da ONU em relação aos direitos de Lula.

Fico pensando como a ombudsman se olha no espelho para retocar a maquiagem, após inserir em seu texto dominical o que disse o editorial do jornal americano The Desmoines Register – de Iowa:

Os verdadeiros inimigos do povo —e da democracia— são aqueles que tentam sufocar a verdade, vilanizando e demonizando o mensageiro. A resposta não pode ser o silêncio”.

Na imprensa brasileira, o silêncio é a regra do jogo. E é necessário, por certo, uma dose extra de maquiagem para ser ombudsman dessa imprensa.

E o que fica disso? Mais do atingir a candidatura de Lula – inimigo número um dos donos da imprensa brasileira – que não só não só não é atingida como é reforçada pela percepção da perseguição óbvia – essa postura da grande imprensa atinge a ela mesma. Exigindo uma enorme dose de hipocrisia, se se quiser afirmar que no Brasil se pratica jornalismo.

E por fim, olhar o futuro próximo e se perguntar o que restará da imprensa, ao final dessa marcha da insensatez.

Talvez a resposta esteja no próprio texto da ombudsman, quando trata do segundo episódio – o nacional e econômico – o pedido de recuperação da Editora Abril:

“é inegável a importância da empresa no cenário jornalístico, independentemente de erros e acertos editoriais em sua história. Assusta que, nas redes sociais, tenha havido comemoração. Triste sinal dos tempos”.

Tristes tempos em que se comemora o fechamento de editoras – triste, mas sintomático. Basta ver como a ombudsman encerra seu texto:

“você, leitor, tem tudo a ver com isso. A qualidade, a independência e a relevância da notícia está em jogo. Os jornalistas devem continuar a fazer perguntas e a contar as histórias que, de outra forma, não se tornariam conhecidas”

Pois é justamente porque jornalismo das grandes empresas editoras deixou de fazer perguntas e contar histórias que os leitores comemoram o seu fechamento – a sua morte por suicídio.

Isso de modo algum significa que os leitores não souberam das histórias. Souberam – e não precisaram dos jornais para tanto. Só arrogância poderia considerar que não há no jornalismo atual outras formas de torna-las conhecidas.

Descansem em paz – e que a terra lhes seja leve.

 

PS: Oficina de Concertos Gerais e Poesia – Viva Raul!

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

7 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. anarquista sério

    19 de agosto de 2018 5:53 pm

    u sei quem vc é. A única

    u sei quem vc é. A única maneira de manter saudável, é não lê*-lo.

      Vc escreve pra catequizados com batismo e crisma.

          Dos mais de 27 000 pessoas inscritas neste blog, vc é aplaudido.

               Porque eles não pensam.São zumbis seguindo ”Nosso Líder”.

               Quer mesmo catequizar pessoas sobre esse falso Messias Lula ? Há trocentos blogs pra isso.

               Aqui, vc é apenas um a mais. O que torna-o insignificante.

                  Mega insignificante.

                     Pegue a senha pra apioiar Lula neste blog.

    1. Sergio Saraiva

      19 de agosto de 2018 6:13 pm

      Anarquista Fake

      O verdadeiro “anarquista sério” – que não vejo por aqui há tempos – era inscrito no blog.

       

    2. Rodrigo Roal

      19 de agosto de 2018 6:20 pm

      (Sem título)

  2. Spin Brizomante5

    19 de agosto de 2018 6:33 pm

    …vou repetir aqui, o que

    ……na cidade spin, cabe ao poder verbalizador, como o proprio nome indica, verbalizar a realidade perante os habitantes da cidade-estado, o que implica em trazer à tona contradição para que ele seja exposta assim como o câncer que precisa vir à tona para ser curado….aqui há uma sindrome da avestruz por parte dos meios de comunicação: a Globo, que comanda o poder verbalizador, levou nosso pais ao caos ao mentir manipular como se fosse partido, e é, politico escravagista…

    A atualização de uma lenda judaica que já provocou tantos males, em especial às mulheres, vitimas em potencial da masculinidade tóxica, flagelo atual…

    https://josecarloslima.blogspot.com/2018/08/o-diagnostico-ao-consultar-uma-imagem.html

  3. Cristiane N Vieira

    19 de agosto de 2018 7:27 pm

    F@lha de SP com medo do futuro… Acorda, é o presente, hahahaha
    Irretocável.
    E a F@lha tentando se identificar com jornais USamericanos como NYT é indício de que não anda se olhando no espelho, nem pra retocar o óleo de peroba oriunda de desmatamento.
    Maior que a cegueira do panfleto é seu ego, ninguém a convence de que deixou de ser jornal, se em algum dia de fato o foi.
    Vaidade típica da classe média que idolatra Miami. E essa ombudsman, honrando a tradição da Low Prete, tentando cavar seu lugar no futuro, alguma banca da rede de esgoto GloboNews. O que eles economizam em notícias esbanjam em cabotinismo.
    Que lhes seja pesado e escuro o caminho do inferno. Mas que Deus tenha compaixão de suas misérias imperecíveis.

    Sampa/SP, 19/08/2018 – 16:19 (alterado às 16:22).

  4. Renato Lazzari

    20 de agosto de 2018 12:28 am

    “Descansem em paz – e que a terra lhes seja leve.”

    Uma delicadeza de que não me sinto capaz: desejar algo de bom a quem vem sistematicamente cagando no Jornalismo e na Democracia do nosso país. Mesmo o mais vil dos humanos merece “apenas” (como se fosse pouco) o isolamento da sociedade mas não tratamento desumano. A mim parece que tanto os diretores, editores, jornalistas (salvo raras exceções) e a ombudsman desse firma, a “Folha”, merecem, sim, serem isolados do convívio social. Em outras palavras, se se levar em consideração que toda firma tem uma razão social de existir, merecem essas pessoas a prisão e o confisco dos bens por crimes reiterados, em continuação delitiva, de lesa-pátria.

    O confisco de seus bens está relacionado ao fato de que, não fosse por esses bens, não teriam cometido os crimes, já só os cometem porque têm dinheiro. Tirar as armas através das quais essas pessoas têm ferido nossa Democracia é o mínimo que se pode fazer para prevenir que eventuais herdeiros venham a delinquir também.

  5. WG

    20 de agosto de 2018 12:14 pm

    Concordo com a análise,

    Concordo com a análise, exceto com uma interpretação que vem se tornando comum nos textos progressistas, ao concluir que a direita será “punida” no futuro por seus próprios erros. Quando isso aconteceu no passado ?

Recomendados para você

Recomendados