11 de junho de 2026

O senso comum, o socialismo e as eleições, por Luis Felipe Miguel

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O senso comum, o socialismo e as eleições

por Luis Felipe Miguel

Socialismo não é “igualdade de oportunidades”.

A igualdade de oportunidades é o coração do projeto liberal. É o que marca sua oposição às sociedades aristocráticas, em que o acesso a tais ou quais posições era determinado inflexivelmente pela origem familiar.

Pode ser uma igualdade originária, que vale apenas para o momento zero da história humana, na versão de liberais da extremidade direita do espectro político, como Robert Nozick. Pode ser redefinida como uma base mínima disponível a todos, não uma verdadeira igualdade de oportunidades, que é o que sustenta ideias como a educação universal. Pode ser mais exigente e dinâmica, incorporando formas de apoio aos mais vulneráveis, como no liberalismo progressista de um John Rawls.

Em todos os casos, a igualdade de oportunidades é um valor central.

É um avanço? Sem dúvida. Marca um compromisso de base com a ideia da igualdade entre todos os seres humanos (mesmo que tenha sido uma longa luta até que o liberalismo aceitasse as mulheres, a classe trabalhadora e as populações não europeias no seu conceito de “seres humanos”).

Mas a igualdade de oportunidades pode conviver com enormes desigualdades reais. Uma sociedade absolutamente iníqua, em que uns poucos controlem toda a riqueza e o poder e os restantes vivam na privação e na servidão, é um resultado possível de uma situação de oportunidades iguais.

Esta sociedade é justa? Vamos julgar que os que se deram bem estão sendo premiados pelos seus “méritos” – e os que se ferraram, punidos por carecer deles? Quem por algum motivo desperdiçou sua oportunidade fica no sal, é isso?

É correto apontar que o capitalismo não efetiva a igualdade de oportunidades que ele mesmo proclama. Que, em todos os momentos, as origens sociais condicionam as trajetórias possível.

Mas o socialismo não pode ser apenas a efetivação do que o capitalismo promete mas não cumpre.

A ideia de igualdade de oportunidades projeta a sociedade como uma corrida: todos devem partir do mesmo lugar e daí cada um avança na velocidade que puder. Mas o socialismo se coloca contra esta visão individualista e competitiva.

Não é uma sociedade em que cada um dá o melhor de si para chegar na frente dos outros. É a busca por uma sociedade em que solidariedade e cooperação se imponham no lugar da competição. Em que cada pessoa desfrute o máximo de autonomia sem, para isso, precisar reduzir a autonomia dos outros. Em que a igualdade seja de acesso à autonomia, não apenas de oportunidades.

Trata-se de revolucionar as relações humanas e construir novos valores societários.

Por isso, é preocupante ver que o candidato mais avançado das eleições presidenciais deste ano repete sempre que “socialismo é igualdade de oportunidades”.

Alguns justificam dizendo que é uma “simplificação” para atingir um maior número de pessoas. Mas não é uma simplificação, é uma concessão ao senso comum, que bloqueia qualquer avanço na discussão central: qual é a sociedade que queremos?

A adesão ao senso comum pode produzir vantagens imediatas, mas cobra seu preço a médio e longo prazos.

Guilherme Boulos é, todos sabemos, um candidato cujo papel não é ganhar as eleições, mas ajudar a colocar em marcha um projeto de reconstrução da esquerda no Brasil. Ele pode almejar fazer 2, 2,5% dos votos não mais do que isso. O sucesso de sua campanha, a meu ver, não reside na votação alcançada, mas na sua capacidade de qualificar o debate político.

A baixa competitividade eleitoral é – vejam só – uma “oportunidade”. Quando maiores as chances de vitória, maiores os incentivos para que sejam feitas concessões no discurso, no programa, nas alianças. A trajetória do PT é exemplo suficiente.

Nesta campanha, Boulos tem apresentado em geral um discurso, a meu ver, muito bom. É firme, é claro. Sua insistência em dizer o que deveria ser o óbvio – o grande problema do Brasil é a desigualdade – já marca um diferencial na campanha.

É uma pena que permaneça com esta definição tão limitada e equivocada do socialismo, que, no fim das contas, reafirma a “verdade” ideológica de que nenhuma sociedade radicalmente diferente da atual será possível.

Luis Felipe Miguel

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).

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6 Comentários
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  1. Marcos Videira

    8 de agosto de 2018 2:14 pm

    Formação e Eleição

    Não acredito que a eleição e o discurso eleitoral sejam determinantes para a formação política do povo.

    Os partidos deveriam ter escolas de formação política para fazer o que a Educação formal não faz. A partir dessas escolas, organizar o povo para assumir o que lhe é de direito: a soberania política.

    Boulos conseguirá ser ouvido por quantos ? Não seria melhor se ele saísse candidato a Deputado e ajudasse a formar uma bancada progressista para defender os direitos dos trabalhadores e usar a estrutura parlamentar para contribuir na organização do povo ?

  2. Rui Ribeiro

    8 de agosto de 2018 2:35 pm

    As desigualdades artificiais

    Seria interessante o Boulos fazer uma leitura sobre as desigualdades artificiais na visão do Bakunin.

    No link abaixo está a visão do bakunin sobre a igualdade formal e as desigualdades reais e artificiais.

    http://www.spunk.org/texts/writers/bakunin/sp000112.html.

  3. bobo

    8 de agosto de 2018 3:07 pm

    A igualdade de oportunidades

    A igualdade de oportunidades é uma ida ao centro, daí depende da discussão acontecer ou fica nessa, mas não dá para deixar o Centrão ser chamado de centro.

  4. WG

    8 de agosto de 2018 3:08 pm

    De pleno acordo com o autor

    De pleno acordo com o autor do texto. Capitalismo reformado é capitalismo, sua essência não muda um milímetro. A experiência de vida das pessoas em geral é a competição, o outro é um inimigo. Pergunte-se a qualquer cidadão sobre uma outra forma de organizar a vida social, não há resposta, não há consciência de que se possa viver de outra forma.

  5. João de Paiva

    8 de agosto de 2018 3:15 pm

    O PT jurídico-judicial impediu Boulos de estar ao lado de Lula

    Acompanhando a trajetória de Guilherme Boulos, há tempos líder do MTST, fica difícil dissociá-lo de um “Lula contemporâneo, que tenha freqüentado uma universidade”. Mesmo que Boulos não declare pública e enfàticamente, é fácil perceber que Boulos teve a influência e se inspirou e se inspira em Lula. Com menos de 40 anos, Boulos não acompanhou, ao vivo, a trajetória de Lula como líder sindical que comandou grves no ABC paulista; o líder do MTST e candidato à presidência pelo PSOL só deve se lembrar de Lula a partir da 1ª disputa presidencial com FHC.

    Bem articulado e com sólida formação em Flosofia, Guilherme Boulos deve ser um estudioso de Sociologia e Política. Não avalio Boulos apenas por uma frase simplificadora que ele venha adotando em discursos e entrevistas ao grande público. Boulos é mais refinado do que sugere essa crítica do Professor Luis Felipe Miguel. O Ex-Presidente Lula há tempos parece ter percebido em Boulos o sucessor natural; não por acaso, Lula convidou Boulos para estar ao lado dele, em alguns palanques e atos. O carinho do Ex-Presidente Operário para com líder do MTST sugere que, se dependessse de Lula, Boulos já estaria nas fileiras do PT.

    Em que pese a vaidade, comum a qualquer ser humano e mais ainda a um líder de movimento social com aspirções políticas, como é o caso de Guilherme Boulos, acho mais crível que o “PT jurídico” ou “PT judicial” é que tenha colocado barreiras para ingresso dele no partido fundado por Lula e abnegados trabalhadores, guerrilheiros, líderes e integrantes de comunidades eclesiais de base, intelectuais, acadêmicos, pensadores, jornalistas…, em 1980, mas que nos últimos 25 anos tem tido sua cúpula e direção nacional seqüestradas por uma burocracia ruim de ou mesmo sem votos, a qual tem descaracterizado o PT, transformando-o em mais um partido “do sistema”. Há fundadas suspeitas de que as células que hoje corroem o PT por dentro tenham sido plantadas pelos inimigos, tanto de dentro do País como aqueles a serviço do império do norte. 

    O potencial de votos e a densidade política de Guilherme Boulos não são menores que os do Plano B, Fernando Haddad. Boulos é muito mais firme e assertivo na defesa do Ex-Presidente Lula do que esse atucanado ex-prefeito de São Paulo. Isoladamente, Haddad, que quando tentou a reeleição em São paulo não conseguiu sequer 20% dos votos e foi derrotado pelo lobista e marqueteiro João Dória no 1º turno, não atinge sequer 5% das intenções de voto. Para quem foi Ministro de Estado da Educação por mais de 5 anos (com ótimo desempenho, reconheça-se) e prefeito da maior cidade brasileira, esse pífio desempenho eleitoral e completa ausência de carisma e liderança política faz de FH uma candidatura fadada ao fracaso e à derrota.

    Se Boulos estivesse no PT e compusesse a chapa com o Ex-Presidente Lula, os golpistas das ORCRIMs judiciárias estariam numa sinuca de bico ou teriam levado um xeque, pois a impugnação da candidatura do Ex-Presidente implicaria em Boulos assumir a cabeça de chapa. Com a firmeza e lealdade que tem mostrado, sem transigir com o neoliberalismo macronista que caracteriza FH, Boulos seria um substituto muito mais confiável (para o campo da Esquerda) e perigoso (para o campo da direita golpista, oligáqrquica, plutocrata, escravocrata, cleptocrata, privatista e entreguista) do que o ex-prefeito paulistano.

  6. Anarquista Lúcida

    8 de agosto de 2018 8:13 pm

    Ai que discussao “livresca” (no mau sentido…)

    O que é preciso falar ao povo é do preço das restriçoes dos gastos do Estado, da derrubada da nova lei trabalhista, do perigo da reforma previdenciária, das ameaças ao SUS, coisas que afetam diretamente a populaçao. Discutir Socialismo em eleiçao, e ainda por cima com discurso abstrato e “teórico (tb no mau sentido)”? Me poupem.

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