4 de junho de 2026

Canção do tempo das chuvas, por Elizabeth Bishop

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Enviado por Felipe A. P. L. Costa

Canção do tempo das chuvas

Por Elizabeth Bishop [1]

 

Oculta, oculta,

na névoa, na nuvem,

a casa que é nossa,

sob a rocha magnética,

exposta a chuva e arco-íris,

onde pousam corujas

e brotam bromélias

negras de sangue, liquens

e a felpa das cascatas,

vizinhas, íntimas.

 

Numa obscura era

de água

o riacho canta de dentro

da caixa torácica

das samambaias gigantes;

por entre a mata grossa

o vapor sobe, sem esforço,

e vira para trás, e envolve

rocha e casa

numa nuvem só nossa.

 

À noite, no telhado,

gotas cegas escorrem,

e a coruja canta sua copla

nos prova

que sabe contar:

cinco vezes – sempre cinco –

bate o pé e decola

atrás das rãs gordas, que

coaxam de amor

em plena cópula.

 

Casa, casa aberta

para o orvalho branco

e a alvorada cor

de leite, doce à vista;

para o convívio franco

com lesma, traça,

camundongo

e mariposas grandes;

com uma parede para o mapa

ignorante do bolor;

 

escurecida e manchada

pelo toque cálido

e morno do hálito,

maculada, querida,

alegra-te! Que em outra era

tudo será diferente.

(Ah, diferença que mata,

ou intimida, boa parte

da nossa mínima,

humilde vida!) Sem água

 

a grande rocha ficará

desmagnetizada, nua

de arco-íris e chuva,

e o ar que acaricia

e a neblina

desaparecerão;

as corujas irão embora,

e todas as cascatas

hão de murchar ao sol

do eterno verão.

*

Song for the rainy season

Elizabeth Bishop [1]

 

Hidden, oh hidden

in the high fog

the house we live in,

beneath the magnetic rock,

rain-, rainbow-ridden,

where blood-black

bromelias, lichens,

owls, and the lint

of the waterfalls cling,

familiar, unbidden.

 

In a dim age

of water

the brook sings loud

from a rib cage

of giant fern; vapor

climbs up the thick growth

effortlessly, turns back,

holding them both,

house and rock,

in a private cloud.

 

At night, on the roof,

blind drops crawl

and the ordinary brown

owl gives us proof

he can count:

five times – always five –

he stamps and takes off

after the fat frogs that,

shrilling for love,

clamber and mount.

 

House, open house

to the white dew

and the milk-white sunrise

kind to the eyes,

to membership

of silver fish, mouse,

bookworms,

big moths; with a wall

for the mildew’s

ignorant map;

 

darkened and tarnished

by the warm touch

of the warm breath,

maculate, cherished;

rejoice! For a later

era will differ.

(O difference that kills

or intimidates, much

of all our small shadowy

life!) Without water

 

the great rock will stare

unmagnetized, bare,

no longer wearing

rainbows or rain,

the forgiving air

and the high fog gone;

the owls will move on

and the several

waterfalls shrivel

in the steady sun.

*

Nota

[1] Elizabeth Bishop (1911-1979). Ao final do poema, publicado em livro em 1965, a autora anotou: “Sitio da Alcobacinha / Fazenda Samambaia / Petrópolis”. A versão em português  – extraído do blogue Poesia contra a guerra – é de Paulo Henriques Britto.

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