4 de junho de 2026

A Lua e a Favela: Valdi Afonjah e Eduardo Waack

A Lua e a Favela / Paraíso Paranoia

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Por Eduardo Waack

Numa noite de julho de 1987, andando pela Favela do Cabogato, à beira do Rio Beberibe, no bairro de Peixinhos, em Olinda (PE), fui surpreendido por uma lua cheia maravilhosa que surgia detrás dos barracos. Majestosa, ela iluminou a paisagem, tornando singelo o momento, conferindo nobreza e prata ao caos, poluição e miséria em que viviam seus humildes habitantes. Então lembrei-me do poema “A Lua e a Favela”, que eu escrevera em situação semelhante alguns anos antes, na cidade de São Paulo, e que constava de meu livro Canções do Front, de 1986. Dias depois comentei o fato com o compositor Valdi Afonjah; apresentei-lhe a letra, e ele se propôs musicá-la. Assim nasceu um dos clássicos de seu repertório, bastante tocada em shows, e que agora, trinta anos depois, participará de seu novo disco, chamado “Baobá Nossa Memória”, a ser lançado brevemente.

Favela de Cabogato / Peixinhos, Olinda (PE)

Meses antes desta cena eu havia sido convidado pelo fotógrafo Daniel Aamot a viver nesta comunidade localizada entre Olinda e Recife, e ali desenvolvermos um projeto social, trabalhando com crianças em situação de vulnerabilidade, mulheres (em sua maior parte mães de família) e adolescentes. Junto ao Beberibe, plantávamos na horta a comida que seria colhida e distribuída pelos moradores locais. Duas missionárias alemãs ensinavam técnicas de cozinha, corte e costura, e a arte da panificação. Construímos um forno comunitário. Daniel registrava em fotos, com sua inspiração visceral (anos após ele cunhou o termo Homem Gabiru), e eu abordava em crônicas, poemas e textos jornalísticos aquilo que presenciava. Dirce Jaeger, que era toda bondade e esperança, assim nos descrevia: “Não adianta pedir a Maria que não chore, não adianta pedir ao Biu que não beba… Adianta aprender que, no choro e na bebedeira, nasce o protesto calado, daquele que vai cair de bêbado e secar as lágrimas…”

Segundo dados do IBGE, quase 97% dos aglomerados subnormais de Pernambuco encontram-se na Região Metropolitana do Recife. Desse total, 969 localizam-se em apenas cinco cidades: Recife (40%), Jaboatão dos Guararapes (26%), Olinda (10%), Cabo de Santo Agostinho (10%) e Paulista (5%). O levantamento apontou que a maioria dos moradores das áreas mais pobres do Brasil tem televisão e telefone celular, mas está muito mais longe da universidade e do trabalho formal do que os demais habitantes da cidade. Muitos vivem em áreas marcadas pela precariedade e pelo risco: 11.149 moradias estão fincadas em aterros sanitários, lixões e áreas contaminadas, existem 27.478 casas erigidas nas imediações de linhas de alta tensão, 4.198 domicílios perto de oleodutos e gasodutos, e 618.955 construções penduradas em encostas. Triste país que maltrata seus filhos e privilegia os detentores do capital… Até quando?

Agora tenho o prazer de apresentar em primeira mão esta gravação. Sobre ela assim se referiu meu parceiro Valdi: “Eduardo, gravei uma sessão acústica, acompanhado ao violão e estou te enviando o poema musicado, é muito bom cantar essa música pois me faz viajar no tempo. Espero que você goste, forte abraço”. Sua voz repleta de sentimento, cor de ébano, terra fértil e saudade, que transita entre a África e o Brasil, interpreta e nos faz lembrar de clássicos do cancioneiro universal como Redemption Song, de Bob Marley, ou Little Wing, de Jimi Hendrix, e aquelas mais queridas de Milton, Macalé, Gil, Melodia e Djavan. Há dor, sofrimento, crua realidade e originalidade ancestral, mas também beleza e resignação nesta composição.

Valdi Afonjah, foto Piu Dip

Vamos ouvi-la?

Abaixo, o poema “A Lua e a Favela”, e sua versão em italiano, traduzida pelo poeta siciliano Marco Scalabrino em 2015.

 

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  1. Márcia Salomão

    14 de julho de 2018 10:25 pm

    Música e Sentimento

    Bela canção que nos mostra que mesmo em meio ao caos existe beleza. Ensina que a esperança a tudo supera. É como a flor do Lótus que nasce em meio à lama. Há música nas palavras, e uma mensagem forte na melodia. Esta é a MPB que desejo ouvir nas rádios deste país.

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