5 de junho de 2026

Após 7 anos, Temer desengaveta acordo espacial com novos interesses aos EUA


O primeiro foguete brasileiro com propulsor a etanol foi lançado em Alcântara – Foto: Divulgação
 
Jornal GGN – O decreto promulgado por Michel Temer, pactuando uma cooperação com os Estados Unidos para o uso do espaço exterior e a entrega da base espacial de Alcântara (MA) para utilização dos norte-americanos, foi inicialmente dialogado durante o governo de Dilma Rousseff, em 2011. Mas os riscos que apresentava à soberania nacional travaram o seu avanço no Congresso. 
 
Em menos de um ano, Temer conseguiu que o decreto fosse aprovado na Câmara e no Senado, e dias antes da visita do vice-presidente Mike Pence ao Brasil, promulgou a medida, como uma espécie de abertura para mudanças no decreto e acréscimos de interesses que não estavam originalmente contemplados.  
 
Com a repercussão tomada pelo assunto na imprensa, a Agência Espacial Brasileira (AEB) emitiu um comunicado [leia aqui] defendendo o acordo e tentando desmistificar as ameaças que tal colaboração representa à inteligência e à tecnologia espacial do Brasil. “Uma rápida leitura dos artigos publicados em jornais e revistas revela que o interesse despertado pelo tema vem acompanhado de certo grau de desconhecimento”, manifestou a entidade.
 
O órgão explica que o acordo foi uma medida recíproca de proteção de tecnologias, tanto as norte-americanas, como também as brasileiras, e que busca tornar o Centro Espacial de Alcântara um espaço “competitivo” para lançamento de satélites a nível mundial, que em troca gerará recursos para o país. 
 
“Como praticamente todo equipamento espacial – de qualquer país –  possui algum componente norte-americano, o AST a ser assinado com os EUA permitirá que esses equipamentos sejam lançados a partir do Centro Espacial de Alcântara. Por outro lado, sem o AST, Alcântara jamais poderá lançar qualquer objeto que tenha conteúdo norte-americano e o Brasil ficará de fora do mercado de lançamentos espaciais”, pontuou [acompanhe].
 
Entretanto, duas omissões ou erros na nota da AEB voltam a trazer polêmica para a atual assinatura do governo Temer: a primeira é que as intenções explicitadas no comunicado foram as exatamente defendidas pela então presidente Dilma Rousseff, ainda em 2011, e que hoje foram enviesadas por Temer; e a segunda é que as interpretações assumidas com o acordo agora não passarão novamente pela aprovação do Congresso.
 
Em março de 2011, a visita do ex-presidente Barack Obama ao Brasil fechou com a então presidente Dilma acordos em diversas áreas. Foi naquele encontro que também foi assinado o Acordo-Quadro Bilateral para Cooperação sobre os Usos Pacíficos do Espaço Exterior. Tratava-se de um primeiro diálogo para iniciar tratativas de um acordo efetivo no setor, com o único objetivo de proteger tecnologias de operação de lançamento de ambos os países.
 
O caso ficou paralisado no Congresso pelos riscos que poderiam gerar na troca de informações de tecnologias. Como se referia a um primeiro passo antes de um acordo efetivo no setor, os parlamentares à época visualizaram riscos futuros e não aprovaram a medida. Isso porque como a própria Agência Espacial Brasileira veio a explicar recentemente, a proposta precisaria ser negociada entre os dois países para somente depois ser levado ao Congresso e, uma vez aprovado, passaria a entrar em vigor.
 
O que o governo de Michel Temer fez foi levantar o caso paralisado desde 2011 na Câmara e no Senado, para serem aprovados e representar um primeiro aceno do governo na área de troca de informações do setor espacial. Apesar de o Acordo-Quadro, em si, não ameaçar as tecnologias e representar proteção nestes casos, os discursos defendidos publicamente, tanto pelo governo Temer, quanto pelo vice-presidente dos EUA, mostram que os interesses são outros do que os incluídos no acordo.
 
 
A fala, agora, não é de proteção às soberanias, mas de troca e compartilhamento de informações e domínios. De acordo com nota divulgada pela embaixada dos Estados Unidos, os benefícios interessados estão “nas atividades da cooperação nos usos pacíficos do espaço exterior, tais como missões espaciais tripuladas, ciências espaciais e iniciativas comerciais e civis na área espacial”.
 
No comunicado público, os governos dos dois países anunciaram “seus respectivos apoios a atividades que elevam o grau de conhecimento sobre o espaço exterior e melhoram seu desenvolvimento pacífico, o que é de seu interesse mútuo e contribui para a prosperidade de ambos os países e do mundo”.
 
Evidenciando o intuito de não se ater somente a esse primeiro Acordo-Quadro para usos pacíficos do espaço exterior, ainda, se “comprometeram a promover a continuidade do relacionamento mutuamente benéfico nesse campo no futuro, através de instrumentos que favorecem iniciativas conjuntas de cooperação no espaço exterior”.
 
Nesse sentido, a aprovação imediata do tema na Câmara, em setembro de 2017, pela Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática, e tramitando em regime de urgência, para ser aprovada pela mesa diretora da Câmara e do Senado, no dia 14 de março deste ano, em sessão conjunta, mostrou a agilidade do governo Temer em adiantar a matéria.
 
Agora, caberá a fiscalização se os acréscimos pretendidos por Temer, e claramente a todo interesse dos Estados Unidos, seguirão o que determina a legislação brasileira de que qualquer modificação no atual acordo e riscos que possam gerar ao patrimônio brasileiro devem, antes, ser aprovados novamente pelo Congresso, em novas votações. 
 
 
 
Relembre o Histórico do Acordo:

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Acordo-Quadro 2011
 
19/03/2011: Intenção de acordo – Nota do Itamaraty
 
 
27/10/2011: Ajuste estabelecido pela AEB e pela NASA
 
Recuperação do tema pelo governo Temer
 
 
14/03/2018: Aprovação do Congresso, Câmara e Senado
 
 
 

Leia, abaixo, a íntegra do Acordo-Quadro Acordo-Quadro Bilateral para Cooperação sobre os Usos Pacíficos do Espaço Exterior:

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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1 Comentário
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  1. emerson57

    27 de junho de 2018 4:44 pm

    Aonde estão?

    Cadê aqueles generais que são um touro contra o PT e um boi quando as ordens vem do phamoso pais do north?

    Nossa bandeira jamais será vermelha e jamais esses milicos patriotas? conseguirão representar o Brazil como mais uma estrela na flâmula deles!

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