4 de junho de 2026

O idioma em construção, por Fernando Venâncio

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Enviado por Gilberto Cruvinel

O idioma em construção

Fernando Venâncio

A imagem pode parecer ousada, mas há motivos para imaginar a Língua Portuguesa um ribeiro que abre caminho por onde corra melhor. Lá vai correndo, tortuoso e alegre, mas ignorante do seu destino.

Leia-se este trecho de “Antônia no Divã”, um blogue brasileiro que descobri recentemente:

«Vá embora do trabalho que TE atormenta. Daquela relação que VOCÊ sabe não vai dar certo. Vá embora da “galera” que está presente quando convém. Vá embora da casa dos TEUS pais. Do TEU país. Da sala. Vá embora. Por minutos, por anos ou pra vida. SE ausente, nem que seja pra encontrar com VOCÊ mesmo».

Agora compare-se isso a estoutro texto de “A marcha final”, um vídeo do português Guilherme Cabral, em voz-off aqui condensada. É uma interpelação à Selecção portuguesa há dois anos no Europeu de França, e poderia, quem sabe, voltar em breve a ser actual.

«Que a voz não me doa tanto quanto me dói quando cada um de VÓS tomba no chão. Que a voz me permita que VOS transmita tudo aquilo que a nossa nação conta. VOCÊS aí estão, e nós, unidos pela VOSSA crença, cá estamos Enquanto uns não acreditavam, VOCÊS sonhavam. Enquanto outros VOS puxavam para trás, VOCÊS corriam. Enquanto VOS insultavam, VOCÊS sorriam. Mas façam um favor a cada um dos portugueses pelo mundo fora, um favor a cada um de VÓS, talentosos lusitanos. Este é o jogo das VOSSAS vidas, este é o jogo da vida de cada um que acredita em VOCÊS.E com toda a VOSSA alma gritem: Força, Portugal!»
.

Este fenómeno linguístico é, no Brasil, denominado “mistura de tratamento”, sendo por lá objecto de aceso debate em gramáticas, blogues da especialidade, ‘consultórios linguísticos’ e outros lugares idóneos.

Entre nós, que também apaixonadamente debatemos questões de idioma, nunca se deu nome à coisa, se é que alguém mais, sequer, reparou nela. E ainda bem. Sim, imaginemos os engenheiros do idioma a apoderarem-se do tema e, munidos de queixas e suspiros, a tentarem endireitar-nos a língua.

Mas o que é mais: o fenómeno brasileiro, que só se observa em pronomes do singular, e o europeu, que está activo exclusivamente em pronomes plurais, vão, eles também, orientando o idioma para caminhos que distanciam crescentemente as duas variedades. Estamos, por outras palavras, a construir GRAMÁTICAS diferentes, como já fizemos na sintaxe dos clíticos (“Me dá o pão”) ou já consumámos na pronúncia das vogais átonas.

Escreveu um dia Ivo Castro, professor da Universidade de Lisboa, e tido como o linguista português mais em evidência: «Portugal e Brasil prosseguem as suas respectivas histórias linguísticas, que se dirigem, tanto quanto é possível observar, para destinos diferentes».

Talvez devêssemos, portanto, desejar aos nossos dois ribeirinhos uma boa viagem. Enquanto ainda é tempo.
.

10 de Junho de 2018
Dia de Portugal, de Camões, da Língua Portuguesa, das Comunidades, etc.

…………………………………………………………………………………………………..

Fernando Venâncio (1944). Nascido em Portugal, viveu meio século na Holanda. É linguista e historiador da língua portuguesa, colaborando em revistas internacionais da especialidade. É também autor de ensaios literários e traduziu do holandês poesia e ficção para editoras portuguesas.

 

 

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  1. Anarquista Lúcida

    10 de junho de 2018 9:59 pm

    Gilberto, procure os textos da Prof Maria Eugênia Duarte da UFRJ

    Ela estuda sobretudo o sistema de pronomes no dito Português Brasileiro, e mostra como é um sistema gramatical bem diferente do descrito nas gramáticas oficiais. Mostra isso inclusive nao só na fala, mas mesmo na escrita de falantes/escreventes por definiçao usuários da hipocritamente chamada norma culta, como cientistas, cronistas, pessoas que escrevem profissionalmente.

    Te aconselho tb o artigo Sobre a pretensa “Norma Culta”: Será que ela existe? Por que seria “culta?,  que desmistifica o conceito de “norma culta”, mostrando o que está em jogo nele. Eis o link: “http://www.filologia.org.br/linguagememrevista/20/04.pdf (desculpe, nao consegui inserir o link ativo, o comando está com problemas). A referência bibliográfica é Linguagem em Revista,vol. 10, n.20, Niterói, jul/dez de 2015

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