
A farra dos possessivos, por Jean Pierre Chauvin
O internauta já terá notado.
A criatura se apruma, ajeita o cabelo, muda um fio imaginário de lugar, ajeita os óculos e começa, enfim, a apresentar a pesquisa: “Bom-dia a todos. Falarei sobre minha tese de doutorado, em andamento. Daí a pouco, “Este trabalho é um dos capítulos da minha tese de doutorado”. E vem o arremate: “Agradeço a todos pela oportunidade de compartilhar os resultados que obtive na minha tese de doutorado”.
Reparou em algo curioso? Um terço das sentenças foi gasto para enaltecer o fato de se tratar do trabalho (“tese de doutorado”) pertencente ao sujeito falante (“minha tese”). Essa obsessão por si mesmo não é exclusiva de pesquisadores de doutorado: acomete mestrandos, graduandos, alunos em idade escolar e, claro, parte dos escritores que se consideram geniais, a ponto de recomendarem ao público — por mais letrado que este seja — a leitura do que escreveram (ainda que Aristóteles, Buda, Santo Agostinho, Maomé, Tomás de Aquino, Schopenhauer, Gandhi, George Orwell, Roland Barthes, José Saramago etc) tenham feito algo cem vezes melhor.
No período de 18 anos, apresentei trabalhos parciais em mais de 90 eventos, sem contar oitenta e poucas bancas, qualificações etc. Sabe em quantas ocasiões foram feitas referências a algo que contasse com o nome deste articulista? Salvo engano, nenhuma.
O fenômeno ganha contornos ainda mais brilhantes quando a referida criatura não se limita a discorrer sobre o “seu” trabalho, a “sua” pesquisa, o “seu” livro, a “sua” determinação etc, mas defende a necessidade de agirmos com humildade. A estratégia demonstra alguma habilidade. Em geral, o sujeito afirma algo como “Não chego aos pés de nosso mestre, autor Fulano de Tal”, mas resolvi seguir a mesma trilha que Fulano percorreu.
Alguém responda, por favor, como é que uma figura que preenche 30% do pouco que diz com palavras “suas” ou sobre si mesma pode se autoconsiderar modesta? Simona Argentieri escreveu, há alguns anos, uma pérola da psicanálise: Ambiguidade. Conhece? Vale a pena: ela sintetiza um padrão de comportamento bem frequente em nossos dias: o paciente que nega a violência, embora revele fortes sinais de virulência no que diz (e no modo como o faz). Isso se aplica a diversas falas contraditórias (daí o título dado ao livro).
Talvez a criatura possa refutar tal indicação por estarmos a discutir literatura e não psiquê ou traços comportamentais. Pois muito bem. Passemos a Carlos Drummond de Andrade. Serve? Repare quantas vezes a persona poética alude a si mesma, nos poemas. Precisa de um exemplo mais recente? Assista as entrevistas (em vídeo) de Ariano Suassuna. Leia os versos de João Cabral de Melo Neto e Manoel de Barros.
Prefere prosa? Diga-me quantas vezes escritores notáveis, feito J. R. R. Tolkien, precisaram fazer autopromoção. E ainda que tenham procedido eventualmetne dessa forma, é sério, mesmo, que você pretende repetir o feito alheio? Quem dirá, superar as matrizes que você supostamente leu, heim?
Chegou até aqui? Conseguiu resistir até o fim, sem saltar linhas?
Receba os efusivos cumprimentos de quem assina esta “microcrônica de costumes”, por assim dizer. Mas, se não for incômodo, faça-nos mais um obséquio — contabilize quantas vezes: 1. este autor se valeu de verbos flexionados em primeira pessoa; 2. lançou mão de pronomes possessivos, ao longo do que Vossa Mercê acabou de ler.
Collingwood
7 de junho de 2018 6:43 pmDias atrás eu fiquei
Dias atrás eu fiquei estupefato com uma coluna do Jorge Coli na Ilustrissíma, vou citar o começo:
“Alguém se referiu ao prêmio Almirante Álvaro Alberto como “o pequeno Nobel brasileiro”. A comparação faz algum sentido, embora se trate de honraria discreta, conhecida quase apenas por pesquisadores.
Concedida pelo CNPq, tem o apoio da Fundação Conrado Wessel, que contribui com 200 mil reais para o vencedor, e da Marinha Nacional, que oferece duas viagens, à Amazônia e à Antártida.
As normas da premiação determinam todos os anos um rodízio nas disciplinas do conhecimento —exatas, biológicas e humanas— para um único agraciado. Cada área, portanto, tem sua vez a cada três anos. A lista dos laureados contém nomes muito ilustres da ciência e da cultura brasileiras.
A comissão que escolhe é grande, constituída por membros de todas as áreas. Não há inscrição: todos os pesquisadores brasileiros, por princípio, concorrem.
Acreditem no meu atordoamento quando avisaram que fui o vencedor de 2018.”
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jorge-coli/2018/05/historia-da-arte-ensina-a-lidar-com-o-nao-dito-e-a-incerteza-constante.shtml
Fábio de Oliveira Ribeiro
7 de junho de 2018 6:43 pmO problema se espalha da
O problema se espalha da política para todas as áreas da atividade humana. Basta prestar atenção aos discursos e entrevistas de Ciro Gomes. Eles começam e terminam sempre da mesma maneira:
Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu,eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu…
Rosa Macedo
7 de junho de 2018 7:44 pmA modéstia do auto deste texto
O q salta aos olhos neste texto é a falta de auto crítica do autor,o qual parece julgar a si mesmo o supra sumo da humildadr, sem dar se conta de que ao apontar a vaidade alheia, o faz exercitando a sua própria. O livro mencionado, ambiguidade, deveria ser lido por ele com mais atenção, penso…
Ibsen
7 de junho de 2018 9:54 pmNarciso
Todos os gandes filósofos citados, creia, tiveram seus momentos de Narciso e muitos foram execrados antes da consagração.
CLEIBSOM CARLOS
8 de junho de 2018 11:56 amEGOLATRIA
As pessoas sempre vivem envolvidas em um contexto social e por ele são moldadas. Se a sociedade atual é egocêntrica e ególatra, logo o “cidadão comum” assim o será, com as excessões que apenas confimarão a regra. O próprio artigo reflete isso. Apesar do autor bancar o “humilde”, ele sofre do mesmo mal que pretensamente critica, a egolatria.