7 de junho de 2026

Três sonetos vivos sobre a morte

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Enviado por Felipe A. P. L. Costa

Três sonetos vivos sobre a morte

Por F. Ponce de León, do blogue Poesia contra a guerra

A morte está presente nos três poemas reproduzidos abaixo. Cade um deles, no entanto, a vê sob diferentes circunstâncias e pontos de vista – o assassinato torpe e covarde de uma mulher, as inferências do legista durante a autópsia e os versos ditos por alguém que perdou a pessoa amada.

O ano de publicação em livro (não necessariamente o ano em que cada um deles foi escrito) aparece entre parêntesis, ao lado do titulo. O soneto de Tenreiro Aranha foi extraído da coletânea Poesia contra a guerra, os outros dois foram extraídos do blogue de mesmo nome.

*

Se acaso aqui topares, caminhante (1850)

Tenreiro Aranha (1769-1811)

À mameluca Maria Bárbara, mulher de um soldado, cruelmente assassinada

no caminho da Fonte do Marco, perto desta cidade de Belém,

porque preferiu à morte à mancha de infiel ao seu esposo.

            Se acaso aqui topares, caminhante,

Meu frio corpo já cadáver feito,

Leva piedoso com sentido aspeito

Esta nova ao esposo aflito, errante.

 

            Diz-lhe como de ferro penetrante

Me viste por fiel cravado o peito,

Lacerado, insepulto, e já sujeito

O tronco feio ao corvo altivolante:

 

            Que d’um monstro inumano, lhe declara,

A mão cruel me trata d’esta sorte;

Porém que alívio busque à dor amara,

 

            Lembrando-se que teve uma consorte,

Que por honra da fé que lhe jurara,

À mancha conjugal prefere a morte.

*

Monólogo de um bisturi (1903)

Henrique Castriciano (1874-1947)

A Papi Júnior

“Primeiro o coração. Rasguemo-lo. Suponho

Que esta mulher amou: tudo está indicando

Que morreu por alguém este ser miserando,

Misto de Treva e Sol, de Maldade e de Sonho.

 

Isso não me comove: adiante! Risonho

Fere, nevado gume! e, ferindo e cortando,

Aço, mostra que tudo é lama e nada, quando

Sobre os homens desaba o Destino medonho…

 

Fere este braço grego! E as pomas cor de neve!

E as linhas senhoris que a pena não descreve!

E as delicadas mãos que o pó vai dissolver!

 

Mas poupa o ventre nu, onde repousa um feto:

Por que hás de macular o sono fundo e quieto

Desse verme feliz que morreu sem nascer?”

*

Elegia no. 1 (1951)

Mauro Mota (1911-1984)

 

Vejo-te morta. As brancas mãos pendentes.

Delas agora, sem querer, libertas

a alma dos gestos e, dos lábios quentes

ainda, as frases pensadas só em certas

 

tardes perdidas. Sob as entreabertas

pálpebras, sinto, em teu olhar presentes,

mundos de imagens que, às regiões desertas

da morte, levarás, que a morte sentes

 

fria diante de todos os apelos.

Vejo-te morta. Viva, a cabeleira,

teus cabelos voando! ah! teus cabelos!

 

Gesto de desespero e despedida,

para ficares de qualquer maneira

pelos fios castanhos presa à vida.

*

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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1 Comentário
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  1. Eduardo Ramos

    31 de março de 2018 12:37 am

    Magníficos!!!!!

    Magníficos!!!!!

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