4 de junho de 2026

História do Golpe: Como se descontroem governos, um raio X da crise, por Luis Nassif

Artigo publicado em 05/07/2015

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Os futuros historiadores têm, no momento atual, um laboratório completo para prospectar como ocorre a desmontagem de governos democraticamente eleitos.

Presidentes são muito mais fortes que a imprensa. Quando caem é por sua incapacidade de se valer das armas políticas e institucionais de que dispõem.

A primeira arma do presidente é o projeto de país que ele pretende.

Dilma Rousseff começou de forma esplêndida seu primeiro governo. Tinha claro que, ao período de forte inclusão, deveria ser seguida uma era de consolidação da competitividade da economia e do aprofundamento das políticas sociais.

Definiu claramente três vetores: foco na economia real, com ênfase em financiamento, concessões e inovação, e aprofundamento das políticas sociais. E lançou um conjunto de programas expressivos nas três áreas entre os quais o regime de partilha do pré-sal, a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, o Plano Brasil Maior, o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego), Fies, a Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial).

Na macroeconomia, Dilma deu início a uma desvalorização gradativa do real, redução da taxa Selic e do spread bancário.

Durante um curto espaço de tempo, o país experimentou o sabor inesquecível de uma economia normal, O enorme capital financeiro acumulado em décadas de taxas de juros descomunais começou a se mover em direção à renda variável (http://migre.me/qEaRS).

O grande momento foi em outubro de 2012, quando o Banco Central ganhou a briga de braços com o mercado e baixou a Selic para 7,14%. Antes disso, quando conseguiu mudar as regras da poupança, para jogar o piso dos juros para patamares inferiores.

Durou até abril de 2013.

Antes disso, quando a inflação ameaçou retomar e o crescimento a cair, houve um curto circuito no governo Dilma e afloraram as vulnerabilidades deixadas pelo governo Lula e pelo PT, no período de bonança.

Ausencia de estratégia de poder

Em todo país democrático, as bases do poder do presidente repousam em alianças com o Congresso, Judiciário, grupos de mídia.

São os segmentos que pertencem ao establishment, ao mercado de opinião já estabelecido. Nos grandes processos de inclusão, o mercado estabelecido se incomoda. Esse incômodo passa pelo mundo político – a oposição que perdeu o bonde -, e por estamentos públicos.

Especialmente em relação às corporações com poder de Estado – Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal -, seguindo o modelo norte-americano, a Constituição definiu claramente formas de subordinação ao poder popular – expresso no Presidente da República, eleito pelo voto do povo.

Essa subordinação se dá na definição da política de atuação da PF (não confundir com interferência em processos), na nomeação de juízes dos tribunais superiores, do Procurador Geral da República e do delegado geral da PF.

Os legisladores entenderam que o dar autonomia às corporações criaria poderes dentro do Estado, colocando em risco a governabilidade (leia, a propósito, artigo do jurista Luiz Moreira em http://migre.me/qF9aj).

A visão política de Lula era de que as ameaças à governabilidade estavam na mídia e Forças Armadas. Mas a mídia só ganhava força em momentos de instabilidade no mercado financeiro.

Julgava que agindo dentro do mais amplo republicanismo esvaziaria por si a campanha midiática, sobre pretensões bolivarianas, chavistas, castristas. E a governabilidade seria garantida pela popularidade do presidente e pela revolução econômica dos incluídos.

No Judiciário e sistema policial, cometeu uma série infindável de erros:

Erro 1 – as indicações para o STF.

Erro 2 – a falta de interlocução com o Procurador Geral da República.

Erro 3 – a perda de controle sobre a Polícia Federal, especialmente após a descentralização  da inteligência

Erro 4 –falta de estratégia na comunicação pública e falta de sensibilidade para entender o fenômeno das redes sociais.

Erro 5 – o Mensalão. A decisão inédita de tornar público o julgamento acabou fornecendo uma munição inédita e fatal.

O resultado final foi a terra arrasada no PT, com a prisão das suas principais lideranças e a marca indelével da corrupção pregada na testa do partido.

Os erros de Dilma

Em algum momento de 2013, Dilma perdeu o eixo. Queda do nível de crescimento, pressão da inflação e, depois de junho, a popularidade despencando. Por cima de tudo, o fenômeno das redes sociais acelerando drasticamente as demandas sociais, inclusive dos recém-incluídos.

Tornou-se um trem desgovernado, agindo de impulso, isolando-se, atropelando regras básicas de política, economia e sociabilidade.

Fechamento – foi gradativamente se afastando dos melhores conselheiros, Lula, Delfim, Belluzzo e dos amigos que ousavam apontar para os erros que estavam sendo cometidos.

Obstrução dos canais de participação – Conselhão, os conselhos empresariais da ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), os conselhos sociais do Gilberto Carvalho, contatos com associações e sindicatos.

Desmonte da política fiscal – as desonerações não levaram à recuperação da economia, mas temia-se que não as renovando aprofundaria a crise.

Desatenção com os sinais de junho –teriam sido providenciais, se bem compreendidos e gerando mudanças no comportamento da presidente. Mas não captou os sinais.

Paralisação de políticas estruturantes – O Conselho de Gestão foi abandonado assim como os trabalho da EPL (Empresa de Planejamento e Logística), os programas do MCTI (Ministério de Ciências, tecnologia e Inovação). Até alguns bens elaborados programas do MEC, da gestão Haddad perderam-se por falta de cuidados na implementação, como aconteceu com o Fies.

Queda de braço nas concessões – tentou-se reduzir a Taxa Interna de Retorno das concessões, como meio de diminuir o Custo Brasil. Deu errado. Assim como deu errado o modelo de redução da conta de luz, muito devido a problemas climáticos.

Erros de comunicação na Copa – houve um trabalho exemplar de organização, mas que só ficou claro em plena Copa, quando foram tirados os tapumes dos aeroportos e estádios.

Mesmo assim, Dilma logrou vencer as eleições e encaminhar-se para o segundo mandato.

Aí cometeu uma sucessão adicional e inédita de erros.

Demora em começar o governo – Em vez de se repensar o segundo governo, mergulhou em dois meses de retiro onde a única preocupação foi montar uma base política própria para as eleições na Câmara, desdenhando as lições de Lula. E promover uma reforma ortodoxa na economia, sem o cuidado de comunicar aos diletos eleitores.

Erros com a Petrobras – criou o falso escândalo da refinaria de Pasadena, dando vida a uma denúncia morta por uma questão não resolvida com o antigo presidente José Sérgio Gabrielli. Quando estourou a Lava Jato, manteve a diretoria por meses, ao custo da saúde da presidente Graça Foster. A Petrobras ficou sangrando por 8 meses.

Erros com a Lava Jatos – deixou a Lava Jato correr solta, julgando que o fato de nada dever significaria que nada deveria temer. Não cuidou de defesas mínimas legais, como o de impedir vazamentos e manipulações de depoimentos, enquadrar os faltosos.

Erros na Câmara – a tentativa de eleger um presidente da Câmara produziu um desastre que entregou o poder de bandeja para Eduardo Cunha.

Quadro atual

A história do Procurador Geral da República Rodrigo Janot e do delegado geral da Polícia Federal de que ambos os poderes vão atrás de fatos, não de pessoas, e que a impessoalidade domina as investigações é boa para o eleitorado, não para quem domina as entranhas do poder.

Ministério Público, Polícia Federal, Judiciário em geral, buscam sempre ampliar seus espaços e subordinam-se a quem detem de fato o poder. Se esse alguém é externo ao Executivo, aderem.

Quando alcançam seus objetivos não é por nenhuma conspiração, mas pela lógica nayural, intrínseca ao exercício do poder por estamentos burocráticos, que dá certo quando os governos falham.

A partir de determinado momento, a inação do governo Dilma e a pro atividade da mídia – e de seu aliado preferencial, o PSDB – deixaram claro onde estava o centro de poder. E decididamente não era no Palácio do Planalto.

É isso o que explica o fato de Rodrigo Janot não ter aceito a denúncia contra Aécio Neves, apesar da profusão de detalhes sobre propinas na delação de Alberto Yousseff. Ou ainda manter na gaveta inquérito que desde 2010 tramita na PGR sobre contas de Aécio em paraísos fiscais. É o que explica também a não tomada de medidas contra vazamentos. Ou o fato do MPF e a PF não terem investigado as relações da Abril com Carlinhos Cachoeira e dificilmente aprofundarão as ligações da Globo com a CBF. Nem sequer prestado esclarecimentos sobre as investigações da cocaína encontrada no helicóptero de um senador mineiro.

Estratégias

A frente que quer derrubar Dilma é bastante heterogenea, de Eduardo Cunha a Aécio Neves, do conservadorismo evangélico ao preconceito mais abjeto, tudo devidamente estimulado pela mídia – muitos dos grupos dependem da entrada de um presidente acessível para sobreviver.

Por outro lado, essa heterogeneidade levará fatalmente a uma disputa intestina.

Enquanto Eduardo Cunha serviu ao propósito de derrubar Dilma, foi poupado. À medida que a queda de Dilma deixa de ser uma possibilidade distante, passa a ser bombardeado pelos jornais.

A Globo tem nos evangélicos a maior ameaça ao seu predomínio. Se Dilma cair, o protagonismo será do PMDB, não do PSDB. Logo, em breve voltarão os ataques a Renan.

Por outro lado, os principais programas implantados no primeiro governo Dilma sobrevivem, esquecidos, andando de lado, mas sobrevivem.

A presidente ainda teria espaço para reagrupar ideias e trabalhar com a única arma que lhe resta: um programa de governo.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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16 Comentários
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  1. bfcosta

    6 de março de 2018 12:33 am

    Link do original com os

    Link do original com os comentários.

    https://jornalggn.com.br/noticia/como-se-descontroem-governos-um-raio-x-da-crise

    PS: e logo de cara aparece um comentário de quem ?? Ninguém mais, ninguém menos que Romulus Maya !!

  2. hc.coelho

    6 de março de 2018 12:57 am

    Doi

    Doi esta mania do nassif de bater na Dilma. É uma das coisas mais desagradaveis que leio nos blogs.

    Não vou nem dizer o que acho.

    1. Edson Almeida

      6 de março de 2018 8:38 am

      Dói muito…

      Dói muito é a tentativa de TAPAR os olhos para a realidade. Infelizmente o texto do Nassif expõe os fatos. Como esquerdistas não podemos tapar os olhos e nem fechar a boca para os erros de Dilma, Lula, PT e demais partidos de esquerda.

       

    2. André élebê

      6 de março de 2018 8:49 am

        Bateu foi pouco.
        De um

        Bateu foi pouco.

        De um adulto, até em sua vida pessoal já se espera uma certa dose de reação a fatos adversos. O governo Dilma – por obra e graça da mandatária – se esmerou em nada fazer, nada querer ouvir, nada dizer. Fosse apenas Dilma pela Dilma, vá lá: o problema é que junto com ela esfarelou-se um governo, o regime democrático e conquistas cuja perda talvez seja irreversível.

        O que não entendo é esse carinho sem limites com Dilma. Honestíssima, não tenho dúvida, e igualmente bem-intencionada. Infelizmente seu nojo à política, imperdoável na mandatária maior da nação, nos levou ao momento em que vivemos. Não se trata de “culpar a vítima”, até porque a vítima é a população em geral, só que a população DEU A DILMA a caneta que ela tão resolutamente se negou a usar repetidas vezes. Esse é um fato incontornável.

    3. André élebê

      6 de março de 2018 8:57 am

        Ah, outra coisa. Tá vendo

        Ah, outra coisa. Tá vendo as fotos que, não por acaso, ilustram o artigo? Pois aquele sacripanta, conhecido há mais de dez anos como despachante de Daniel Dantas, foi mantido no governo de 01.01.2011 até os últimos dias de Pompeia por obra e graça de Dilma. Dia desses o sujeito estava confraternizando com Gilmar Mendes.

       

        Os ingleses têm um interessante ditado: “you fool me once, shame on you. You fool me twice, shame on me” – você me engana uma vez, a vergonha é sua; você me engana duas vezes, a vergonha é minha. Dilma foi vítima de si própria, com dezenas e dezenas de milhões de nós outros no banco do passageiros.

  3. Cesario

    6 de março de 2018 2:06 am

    Falta de dados

    Faltou-se acrescentar os dados macroeconômicos, principalmente a queda do superávit primário de 2013/14. As contas do governo saíram de controle, e começamos 2015 com um novo ministro dizendo que teríamos que pagar a conta da gastança.

  4. José B

    6 de março de 2018 2:55 am

    Dilma deixou o cardoso 5 anos

    Dilma deixou o cardoso 5 anos no cargo de ministro da justiça e ainda o escalou como advogado no processo do impeachmet. Em certa ocasião, com a lava jato desossando o PT fechando o cerco sobre o Lula, a ex presidente , com a autoridade do republicanismo, decretou: “não vai ficar pedra sobre pedra”.

    Pois é.

     

  5. Frankn

    6 de março de 2018 5:11 am

    Na real
    A Dilma é uma completa INCOMPETENTE. O Haddad relatou que Erdogan e Putin alertaram a Dilma em 2013 que as manifestações de 2013 eram um modelo de golpe armado pelos EUA para derrubarem governos mundo a fora. O quê que a Dilma fez de 2013 a 2016 para combater o galope do golpe? Na-da!!

    Para piorar, em maio de 2016 a Carta Capital relata uma fala da Dilma em seu último discurso como Presidente onde ela diz que nunca imaginou ter que lutar contra um outro golpe novamente. Ora bolas!! Se essa mulher foi avisada por Erdogan e Putin, se há uma ampla bibliografia mundial desde pelo menos 2012 relatando que tais manifestaçoes são usadas pelos EUA para golpear países, se ela sabia que a cabeça dela seria posta a prêmio quando reservou o Pre-Sal para os brasileiros, das duas, uma:

    Ou esse mulher é uma completa retardada mental .
    Ou ela é muito esperta e cínica para ter a certeza de que todos nós somos otários em acreditar que ela foi vítima por nunca imaginar que seria golpeada.

    Vou um pouco mais longe. A Dilma conseguiu ser tirada do poder sem derrubar um só golpista , sem dar uma só tiro de revide. Cunha e Aécio caíram por fogo amigo.

    O povo colocou no poder uma governante para proteger seus interesses, lutar por seus interesses, e na hora do tiroteio caiu todo mundo : Dilma, Cardozo, Mercadante, Bernardo… um bando de incompetentes. Nunca antes na História da Humanidade foi tão fácil de se tomar o poder de uma economia de primeira grandeza. Foi como tirar doce de criança.

    E ela ainda foi mantida elegível. Curioso isso. Muito curioso. Dá até a impressão que rolou um acordo do tipo: eu não dou tiro em vocês golpistas e vocês me deixam viva eleitoralmente.

    Essa mulher foi uma desgraça para nós. Digo mais, se o Lula se acha estadista, ele não é. Nenhum estadista coloca uma despreparada no poder nem muito menos a reelege para mais quatro anos de incertezas. O Lula é um irresponsável e está pagando o preço por isso hoje.

    1. Cesario

      6 de março de 2018 11:53 am

      Certíssimo

      Falou o que muitos pensam, mas que a maioria não quer admitir!

  6. Sidnei Oliveira

    6 de março de 2018 8:48 am

    EUA ,MP e a entrega de bandeja!
    Se não bastasse a cachorrada quebabano o rabo para um pacote de dólares,temos outro grupo que em nome da ” justisssssa” estão,entregando o pais em nome de algo (u$) ,vejamos em poucos meses perdemos o petróleo,a infraestrutura e agora o mercado de proteína mundial….. E tem imbecil,falando da Dilma!Otários!Manipulados! Cegos!

  7. carlos alberto rodrigues de carvalho filho

    6 de março de 2018 10:56 am

    Eles são poderosos

     Nassif, culpa a Dilma pelo golpe, mas varios fatores colaborem para o impeachment, o principal acredito que a elite não permitiria um bom governo Dilma pois com certeza viria Lula em nova eleiçaõ e ganharia de novo, seria mais oito anos fora do poder, precisavam acabar com a Dilma e mergulhar o pais numa crise, sem maioria no Congresso , foi inevitavel.segundo ponto foi a Lava Jato, o maior processo de corrupçaõ no mundo que mergulhou o pais numa crise maior , com escandalos todos os dias , arrasando empresas de petroleo ,engenharia e e alimentos,então não foi a Dilma a culpada , mas sim o momento histórico que o pais passou.

  8. solle

    6 de março de 2018 12:37 pm

    Por muito menos o Lula quase

    Por muito menos o Lula quase foi golpeado na críse do mensalão….É reduzir demais a avaliação pra colocar a Dilma como a maior responsável pela deflagração do golpe. Se fosse pro pau teria sido muito pior….

    1. André élebê

      6 de março de 2018 6:53 pm

        Você deve estar de

        Você deve estar de brincadeira. 

        A se levar em conta sua lógica – de fazer inveja a Ubaldo, o paranóico – não se deve lutar jamais, porque “é pior”. Então vamos desde já desistir de candidaturas, de propostas, enfim, da esquerda como um todo, pois lutar “é pior”. Resta apenas esperar que a direita, por algum milagre, canse do poder.

        

  9. Gilson AS

    6 de março de 2018 12:56 pm

    Esqueceu de comentar o fator,
    Esqueceu de comentar o fator, Aécio Neves, Cunha e Temer.

  10. Juliano Santos

    6 de março de 2018 1:22 pm

    Essa bola de cristal do

    Essa bola de cristal do Nassif foi 100%. Sem tirar nem por

  11. gy francisco

    6 de março de 2018 1:50 pm

    Resumindo Dilma

    Dilma vana Rousseff: a mais honesta e incompetente governante da história do Brasil.

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