
a chinesinha e os marajuízes
por Zê Carota
vizinho ao self em que regularmente bato a boia há um restaurante chinês, à porta do qual, todos os dias, uma cena se repete: a filha do casal de imigrantes proprietários do mesmo, garotinha de seus 4 ou 5 anos, cabelos muito lisos e pretinhos sempre presos em marias-chiquinhas e num rabinho de cavalo, com seu inseparável panda de pelúcia que lhe serve de mochila e abraço, num português com sotaque ainda muito acentuado saúda todos os transeuntes sempre com a mesma frase, “orá, tudo regau?”, seguida de um joia que faz com o polegar gorduchinho.
não sei o quanto – e se – a sua presença e o seu gesto resultam em mais mesas ocupadas e consumo e lucro, tampouco acredito que seja uma, digamos, estratégia dos pais, uma vez que, embora muito atarefados, e apesar de um parente sempre por perto e de olho, alternam-se em cuidados com ela, levando-lhe comidinhas, fazendo-lhe carinhos, enfim, sendo pais.
sei é que o encanto de seu “tudo regau?” é irresistível, além de viciante, pois, feito eu, muita gente faz questão de sempre passar em frente ao restaurante só pra ser saudada por ela.
carisma e graciosidade fora, boa parte do fascínio se deve, obviamente, ao seu falar errado, e é só imaginar o déficit de graça, no mais amplo sentido da palavra, caso ela nos perguntasse se está tudo legal, e não “regau”.
esta semana, com outro e abjeto sentido, a expressão “tudo legal” foi dita a todos, proferida por um dos recém descobertos marajuízes – os neo marajás – da lava jato, para conferir legalidade ao fato de receber o polpudo (R$ 4 mil e quebrados) auxílio-moradia, mesmo tendo luxuosa residência no município em que trabalha.
nem cabe entrar no âmbito de imoralidade de exigir tal direito, porque, com os incontáveis casos de seletividade, relativização e politização dos (pré)julgamentos protagonizados por juízes, desembargadores, ministros e procuradores responsáveis (sic) pela lava jato, não se pode esperar moral do que se nos revela não imoral, mas amoral mesmo.
a questão na qual devemos nos concentrar é: como respeitar uma Lei criada e aprovada por um, não de agora, legislativo maciçamente corrompido (com inúmeros parlamentares delatados e investigados na própria lava jato, inclusive), e validada precisamente pelos poucos e privilegiados beneficiários da mesma, legislando em causa própria, mas todos gastando seu latim em discursos sobre ética, moral, o bem do país e seu povo, com igualdade (?), direitos (??) e justiça (???) para todos (????)?
“A criança erra na gramática, mas acerta na poesia”, dizia o Manoel de Barros, no que é corroborado pelo “tudo regau” com que a chinesinha saúda e beneficia a todos.
por seus turnos, os marajuízes acertam na gramática, mas erram pela hipocrisia que beneficia a poucos com o dinheiro de todos – e bom relembrar que o GOLPE em Dilma, endossado pelo judiciário, se deveu às “pedaladas” dadas para garantir o repasse de verbas para programas sociais – dentre eles, o Minha Casa, Minha Vida…
AMORAIZA
4 de fevereiro de 2018 9:46 pmFica a dica
Zê,
quando americano acha que a gente fala espanhol, dá muita raiva, não?
E quando acham que o Brasil fica na Argentina então, nem se fale.
O idioma japonês não tem o som “l” (ele)
Brasil em japonês é “boraziro.”
No idioma chinês, não tem o som “r” (erre)
Chinês não fica bravo, fica “bolabo”
Japonês não fica bravo, fica “borabo”.
Então, a menininha que fala “tudo hregau” deve ser japonesa.
Sugestão:
Na dúvida, pergunte.
Abrs.