4 de junho de 2026

‘Os sertões’: embate de Euclides da Cunha e Dilermando de Assis continua, por Antonio Carlos Secchin

Reprodução do livro – ANTONIO SCORZA / O GLOBO
 

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‘Os sertões’: embate de Euclides da Cunha e Dilermando de Assis continua

Anotações em edição rara do livro é mais um capítulo da rivalidade dos dois

Antonio Carlos Secchin

O Globo

 

RIO – Trata-se, aparentemente, de exemplar sem maior valor: uma terceira edição, de 1905, de “Os sertões”, encadernada, com manchas d’água em boa parte do volume, e anotações a lápis efetuadas à margem do texto pelo antigo proprietário. Da assinatura de posse resta apenas um vestígio: o encadernador aparou o livro no comprimento e na largura, com isso guilhotinando também boa parte dos comentários manuscritos.

A importância desse exemplar avulta extraordinariamente quando sabemos o nome de seu antigo proprietário: Dilermando de Assis — o homem que, em legítima defesa, matou Euclides da Cunha no dia 15 de agosto de 1909. A escritora Dirce de Assis Cavalcanti, filha mais nova de Dilermando, e autora da comovente narrativa autobiográfica “O pai”, generosamente me presenteou com o livro.

Dilermando construiu sólida carreira militar, chegando ao generalato. Publicou várias obras técnicas, mas seu livro mais famoso — que atinge elevada cotação nos sebos — é “A tragédia da Piedade”, em que rememorou o lamentável episódio e reconstituiu sua defesa, opondo-se à versão difamatória veiculada por Eloy Pontes em “A vida dramática de Euclides da Cunha”.

As anotações de leitura — em preto, azul, vermelho — não trazem data, o que nos leva a indagar se teriam sido realizadas antes ou depois da morte do escritor. Tudo leva a crer que lhe são posteriores: Dilermando demonstra segurança e grande familiaridade com as matérias que comenta, inclusive no que diz respeito a estratégias bélicas, revelando um teor de conhecimentos de que dificilmente já disporia em 1909. Além disso, com ironia, refere que, à época de Canudos, não existia a “aviação de bombardeio”. Tal modalidade aérea, como se sabe, só se desenvolveu a partir da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Podemos catalogar em três espécies as observações críticas de Dilermando: positivas, neutras e negativas. As primeiras são, de longe, as mais escassas, apenas cinco, em meio a centenas de neutras e negativas. Reportam-se a momentos em que ele se deixou levar pela magia e força verbal de Euclides: “bonito” (duas vezes), “m.b.” (muito bom?), “belíssimo”, “formidável”. As neutras representam, quase sempre, esclarecimentos ou desdobramentos de informações veiculadas no livro. As negativas são de vária natureza: contestam informações históricas, refutam observações sobre procedimentos militares, assinalam as contradições de várias passagens, discordam de juízos de Euclides. Chegam a minúcias gramaticais, assinalando deslizes de pontuação, de regência verbal, de colocação de pronomes, dando-se ainda ao requinte de apontar duas redundâncias (“chimarrão amargo”, “angustura estreita”) e um cacófato (“mesma massa”). Às vezes o tom se eleva contra as afirmativas euclidianas (“Que barbaridade!”, “É mentira”).

O acompanhamento do conceito de raça constitui o núcleo da leitura de Dilermando. Defende por três vezes o “gaúcho”, a seu ver equivocadamente descrito por Euclides. Quando o autor assevera “Não há um tipo antropológico brasileiro”, Assis rebate: “Não se o conhece, porém pode ser que exista.” Num trecho, parece dirigir-se diretamente ao autor de “Os sertões”, que escrevera ser “contra a praxe” um sargento estar à frente da vanguarda: “Não, senhor! Um sargento pode muito bem, em coluna de tal monta, dirigir a vanguarda.” Em outra passagem, transfere ao próprio escritor a caracterização que ele atribuíra ao coronel Moreira César: “Uma alma proteiforme constrangida em organização fragílima” — ao lado do trecho, Dilermando anotou, simplesmente: “Euclydes.”

Euclides da Cunha e Dilermando de Assis, dois homens unidos e separados pela mesma mulher, voltaram a encontrar-se e a defrontar-se nas páginas deste exemplar de “Os sertões”.

 

* Antonio Carlos Secchin é poeta, autor de “Desdizer” (poesia reunida) e membro da Academia Brasileira de Letras

 

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