11 de junho de 2026

O Congresso e o Judiciário, por Sérgio Sérvulo da Cunha

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O Congresso e o Judiciário

por Sérgio Sérvulo da Cunha

O judiciário brasileiro não é sério.

Não é sério o servidor público que se queixa do volume de serviço, não precisa assinar ponto, e quer – além de repouso semanal, feriados, feriadões e recessos – mais sessenta dias de férias por ano; que, além desse, tem outro emprego, como professor; que é mais visto em cursos remunerados no exterior, em shoppings, congressos e convescotes do que na sala de audiências; que  prega contra a corrupção, mas recebe acima do teto legal; que não profere sentenças; que preside uma audiência sem ter, antes, sequer aberto o respectivo processo; que delega funções privativas de seu cargo a estagiários e auxiliares descredenciados; que por pequenos pretextos – ou sem pretexto nenhum – costuma adiar audiências, sacrificando as partes, advogados e testemunhas; que deseja ficar acima da lei, sem a possibilidade de responsabilização por abuso de poder.

O grande volume de serviço transformou-se, de muito, num álibi, justificador de grandes panaceias, tais como súmulas vinculantes e repercussões gerais, que, apresentadas como medidas salvadoras, só fazem restringir os direitos das partes e dilatar o poder dos magistrados. Por isso, não é confiável nenhuma estatística proveniente do judiciário, porque seus números são inflados. Sem dúvida, é enorme o volume dos litígios. Mas se não são solucionados, se ficam engavetados ou represados, só fazem aumentar. Passam aí a funcionar contra a parte, como uma hipoteca, que a qualquer momento pode ser executada.

Tome um tribunal, como por exemplo, o STF, que tem 11ministros, um dos quais, seu presidente, é normalmente dispensado de relatar processos. Se aumentarmos seu número para 21, ficará reduzido pela metade o volume de serviço de cada ministro. Mas eles não querem ouvir falar nisso. Foram, na Constituinte, contra a criação do Superior Tribunal de Justiça, que roubou parte de sua competência; promulgada a Constituição, não reformaram seu regimento, que – salvo as emendas que recebeu – é o mesmo do tempo da ditadura; não obstante o volume do seu serviço, gostam de se exibir com longos e professorais votos, consumindo o tempo de uma sessão com o julgamento de somente dois ou três processos, excetuados aqueles que, nos gabinetes, são eliminados, por seus auxiliares, com a aposição de carimbos;  gostam de se pavonear em viagens e conferências, pelo país e pelo exterior; e vão, correndinho, posar como presidente do TSE e do CNJ.

Se você quiser saber como funciona a cabeça corporativa de um juiz, basta examinar recentes declarações da ministra Carmen Lúcia, que preside o STF. Opondo-se à votação, realizada no Congresso, de texto sobre a prática de abuso de autoridade, ela troca visivelmente os conceitos, chamando de “criminalização” o que é “responsabilização”, de “ataque” o que é “crítica”, e de “justiça” o que é “judiciário”. Ora, o judiciário tem tanto a ver com a justiça quanto um hospital tem a ver com a saúde. Se responsabilidade significa criminalização, eu também quero ser descriminalizado. E, atenção, não quero ataques por parte de ninguém.  

Também sofismas são os do Ministério Público, ao chamar de “dez medidas contra a corrupção” um pacote de providências que aumentam seu já dilatado  poder.

Independentemente de sua motivação, é dever dos parlamentares se oporem a arbitrariedades que diminuem as garantias cidadãs, e votar medidas contra o abuso de autoridade.

No próximo editorial falarei desse pacote, dessa armadilha contra a qual todo brasileiro deve estar atento. Um bom princípio, a ser seguido sempre é esse: todo poder, concedido a uma autoridade, deve ser acompanhado da correspondente garantia, concedida ao cidadão.

E não me venham dizer que eu estou generalizando. Falo do judiciário como instituição; como toda instituição, o judiciário tem bons e maus profissionais. Mas infelizmente os últimos é que lhe dão o tom.

Sérgio Sérvulo da Cunha – é advogado, autor de várias obras jurídicas. Foi procurador do Estado de São Paulo e chefe de gabinete do Ministério da Justiça.

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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11 Comentários
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  1. fernando oliveira

    6 de dezembro de 2016 9:51 am

    Acabei de comentar num página

    Acabei de comentar num página anterior desse site: É necessário a ‘maioria silenciosa’ avançar sobre esses poderes que se encontram podres e extirpá-los. Todos eles não passam de funcionários de uma grande Empresa chamada Estado. Quando um funcionário de uma Empresa não se comporta adequadamente em suas funções, é passível de demissão. Desde o Presidente da Empresa, no caso, o Presidente da República, até o faxineiro. Então, é hora de chamar uma Assembléia Geral dos Acionistas dessa Empresa, que somos nós, Eleitores, para decidir o seu destino. Ah, e minha passagem pra cair fora D”Essa Porra”, Ame-A ou Deixe-A????????

  2. francisco Cavalcante Souto

    6 de dezembro de 2016 10:24 am

    Jamais li um resumo de tudo o

    Jamais li um resumo de tudo o que temos assistido, conhecido e visto sobre o  Poder Judiciário. Desnudando, com maestria, os intestinos de um Poder que deseja ser superior que os outros dois – Executivo e Legislativo, que formam o tripé da DEMOCRACIA.  Esta que foi golpeada por um Legislativo corrupto e ratificado pelo Judiciário, parte corrupto e corporativista extremo. O que estamos assistindo é um BRASIL  desmantelado, destruído e sem credibilidade algumano resto do mundo. É triste e lamentável nossa situação. E ainda pode piorar mais.  

  3. alexis

    6 de dezembro de 2016 10:25 am

    Poema singelo ao Supremo

    É bom ser juiz do Supremo / e ainda ter outro emprego

    Sessenta dias de férias / e o salário extra que pego

     

    A vida de um magistrado / toda a família adora

    Seja com casa em Miami / ou uma filha desembargadora.

     

    O mais bonito de tudo / é o quanto vamos ganhar

    Recebendo acima do teto / e sem ter ponto para assinar.

     

    Para ganhar uma vaga / o candidato usa qualquer jeito

    Mas uma vez dentro / Mata a bola no peito

     

    Quando ainda era moça / pensei um dia ser freira

    Optei pelo judiciário / e hoje só faço besteira

     

    É bom ser juiz do Supremo / e sair todo o dia na “Globo”

    Falamos bonito de tudo / e fazemos o povo de bobo

  4. Fábio de Oliveira Ribeiro

    6 de dezembro de 2016 10:26 am

    A crise não é entre o

    A crise não é entre o Executivo e o Legislativo, nem entre o Legislativo e o Judiciário.

    A verdadeira crise é entre o Estado e o povo brasileiro, cujos votos presidenciais em Dilma Rousseff foram rasgados por um bando de legisladores larápios com ajuda de um vice-presidente traidor e de Ministros do STF sem qualquer compromisso com a soberania popular. 

    Enquanto o protagonismo político do povo não for restabelecido, a crise irá perdurar. Eu faço parte da crise e não vou desistir do valor do meu voto.

    https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1384800541543770&id=100000415136357

     

  5. Jorge Leite Pinto

    6 de dezembro de 2016 10:47 am

    Excelente! 
    Repassarei.

    Excelente! 

    Repassarei.

  6. Rui Ribeiro

    6 de dezembro de 2016 11:06 am

    A Coxinha abaixo é equivocada, mas diz algumas verdades

    Solange Delocco, leitora de O Globo:

    Fomos às ruas em apoio às dez medidas contra a corrupção em sua origem, em apoio ao juiz Sérgio Moro e à Lava-Jato e em repúdio à votação encaminhada na calada da noite, desfigurando o projeto inicial.

    Isso não quer dizer que as pessoas sejam contra punição ao abuso de autoridade, mas contra o objetivo desses parlamentares obscuros que querem punir Moro e a operação.

    Mas o Judiciário deve saber que não atende às necessidades da população, cobra caro pelo que não é feito e ganha mais do que deveria.

    A população não foi às ruas para apoiar o Judiciário. Juízes tiraram casquinha das manifestações. Erraram nisso. Estão enganados!

    http://noblat.oglobo.globo.com/geral/noticia/2016/12/voz-das-ruas.html

    É uma pena a Solange não saiba que o Moro e Dallagnol não serão responsabilizados por seus abusos, já que a lei penal não retroage para prejudicar, só retroage para beneficiar.

    1. bonobo de oliveira, severino

      6 de dezembro de 2016 11:39 am

      Duplo engano.

      Ela engana-se na motivação declarada para o ato e quando afirma que:

       

       

      “A população não foi às ruas para apoiar o Judiciário. Juízes tiraram casquinha das manifestações. Erraram nisso. Estão enganados!”

      Nesse caso ela acerta, a população não foi às ruas nesse ato, MESMO! 

       

  7. Leandro A.

    6 de dezembro de 2016 12:11 pm

    Excelente síntese do

    Excelente síntese do judiciário!

    Todos que atuam como advogado sabem que está impossível exercer uma profissão liberal dentro de um sistema de castas.

    Nosso judiciário ainda é colonial, e, ao que parece, o último baile da Ilha Fiscal para eles não termina nunca. Juízes e promotores deveriam ser chamados pelo que são: condes, duques, barões, enfim, marajás.

    1. Somebody

      6 de dezembro de 2016 6:44 pm

      Mais. O seu judiciário é

      Mais. O seu judiciário é medieval. Usando do meu anonimato aqui eu posso lhe afirmar que eu conheci muitos dos seus juízes, desembargadores e procuradores, e eu percebi claramente que eles acreditam mesmo serem parte da realeza como se o Brasil ainda estivesse no século 18. E isso é especialmente perigoso em um país como o Brasil aonde se cometeu o erro grosseiro de dar poder demais para estes juízes e desembargadores (note como eles falam naturalmente em “interpretar” a lei de uma forma que deixa claro que eles não acreditam que precisam seguir a lei ao tomarem uma decisão).

  8. Juliano Santos

    6 de dezembro de 2016 12:14 pm

    Claro e cristalino, porque é

    Claro e cristalino. Porque é tão dificil entender o que está aí muito bem dito? Não sei, acho que a dificuldade do coxinha é juntar lé com cré, ou coisa que o valha.

    Quando houve aquele episódio em que um juiz deu voz de prisão a uma guarda de trânsito, por esta multá-lo por dirigir bêbado, todos se indignaram e a moça virou até heroina, uma celebridade.

    O que foi isso senão abuso de autoridade? Disse o Moro que a hora de discutir o abuso dos agentes da justiça não é agora porque acaba passando que os parlamentares estão querendo se proteger da lava a jato. Foi sua resposta aos argumentos irrefutáveis do Gilmar.

    Mas o mesmo se pode fizer da iniciativa das tais 10 mediadas. Por acaso não está evidente que eles estão usando da popularidade da lava a jato para consolidar na constituição um poder que eles  adquiriram na Globo?

  9. romulus

    6 de dezembro de 2016 9:56 pm

    Estado brasileiro na encruzilhada. Sabemos oq Globo quer. E vc?


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