23 de julho de 2026

O poder do mercado e a impotência dos juízes, por Fábio de Oliveira Ribeiro

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O poder do mercado e a impotência dos juízes

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Todos são iguais perante a Lei sem distinção de qualquer natureza. Este é um dos princípios constitucionais mais importantes, pois impede que um ser humano trate o outro como inferior.

A regra lapidar do art. 5º, caput, da CF/88, vem sendo diariamente corroído por distinções bastante evidentes. Algumas delas já existiam – refiro-me evidentemente à diferença gritante entre os agentes do Estado (que desfrutam privilégios) e os cidadãos (que pagam impostos) – outras foram sendo criadas após o golpe de 2016. A população rejeitou o programa neoliberal de Aécio Neves, mas os derrotados conseguiram enfia-lo goela abaixo dos vitoriosos na eleição. Em consequencia disso, as distinções econômicas entre os ricos e pobres se tornaram mais acentuadas, pois os primeiros obtiveram o perdão de suas dívidas tributárias enquanto os outros perderam seus direitos sociais, petrolíferos, trabalhistas e correm o risco de perder até seus direitos previdenciários.

O mais grave, contudo, é ver a imprensa solapar o princípio da igualdade em nome do mercado, este Deus ex machina que se assenhora de todo o espaço público como se não fosse apenas um espaço privado de trocas entre aqueles que já eram economicamente privilegiados. O Estado, concebido como uma instituição de direito público voltada para a correção das distinções sociais herdadas pelo nascimento se torna assim um instrumento privado de opressão nas mãos de uma das classes sociais.

Milhões de brasileiros que usavam fogões a gás foram condenados a voltar a usar lenha para cozinhar. O resultado previsível será um aumento do desmatamento. A julgar pelos preconceitos sociais, que nos últimos anos foram elevados à condição de categorias jornalísticas inquestionáveis, em breve os pobres voltarão a ser hostilizados pela imprensa. Armando-se de argumentos ecológicos, os jornalistas irão choramingar porque florestas inteiras foram e serão devoradas pelos fogões dos pobres. Vítimas do empobrecimento programado, eles serão culpados porque se recusam a comer alimentos crus.

A lógica da exclusão não se torna completa antes que os outros, considerados como se fossem inferiores, passem a ser vistos como indignos de continuar existindo. Quem quiser ver realmente o futuro do Brasil que está sendo construído terá que a dinâmica de separação, exclusão, humilhação e violência genocida entre alemães arianos e judeus (Alemanha, anos 1930), hutus e tutsis (Ruanda, anos 1900), judeus e palestinos (Israel, na atualidade).

Como órgão do Estado, o poder judiciário deveria se opor à dinâmica social que está sendo lentamente construída pelas empresas de comunicação e igrejas evangélicas. Todavia, em troca de privilégios ainda maiores, milhares de juízes aderiram ao golpe de 2016. São eles que proferem as decisões ilegais que legitimam a perseguição dos representantes do povo. Os adversários do neoliberalismo estão sendo arrastados das suas casas para as Delegacias da PF e delas para os presídios. Em algum momento eles comerão a ser torturados ou executados no caminho.

As universidades públicas já deixaram de ser consideradas santuários de tolerância política e ideológica. Os juízes que se recusaram a perseguir os cidadãos por razões políticas estão sendo processados com rigor pelo CNJ, órgão que se recusa a ver e punir os abusos praticados pelos juízes e desembargadores que usam o processo para torturar desafetos e condenam réus apenas porque eles foram acusados. O Deus ex machina foi incorporado pelo MPF no exato momento em que um PGR disse que aquela instituição é a favor do mercado, muito embora ela tenha como finalidade precípua a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis como prescrito no art. 127, da CF/88.

A desordem jurídica não produz segurança, bem-estar ou desenvolvimento econômico. Os russos sabem exatamente o que eles foram obrigados a pagar durante o período de caos que sucedeu à queda da URSS. A população empobreceu e adoeceu, a economia encolheu, o alcoolismo se transformou numa epidemia, a taxa de natalidade regrediu e a expectativa de vida declinou. Eles conseguiram superar aquele momento porque encontram forças para se unir em torno de um líder capaz de dizer não ao mercado.

Em nosso caso, o único líder político capaz de desafiar o Deus ex machina está sendo destruído. O resultado será devastador e não só para os brasileiros mais pobres. Quando o espaço político se fecha para as vítimas do mercado, a violência se torna mais comum e incontrolável. Observem atentamente a região metropolitana do Rio de Janeiro, ela é uma síntese de todas as cidades brasileiras em alguns em alguns anos.

A separação econômica e racial, mais visível no Rio de Janeiro do que em qualquer outro lugar, permite ao BOPE exterminar suspeitos nas favelas sem que os traficantes ricos e brancos da orla marítima corram qualquer risco. Alguém ficará surpreso quando o BOPE passar a exterminar lideranças populares que se opõe ao neoliberalismo? Quantos BOPES terão que ser criados para que o Deus ex machina consiga pacificar milhares de cidades brasileiras que estão sendo condenadas à dinâmica de separação, exclusão, humilhação e violência genocida entre pobres/pardos/negros/índios e brancos ricos e remediados?

Quando era criança eu não conseguia entender a violência das Brigadas Vermelhas contra os juízes italianos. Após o golpe de 2016, os juízes brasileiros colocaram o mercado acima da Lei para desfrutar novos privilégios. Isto não significa, porém, que eles poderão se sentir mais seguros. Muito pelo contrário. Eles agem como se fossem inimigos do povo e em algum momento passarão a ser vistos não como juízes e sim como inimigos.

Nos dias de hoje eu não ficarei surpreso se a Constituição Federal que os juízes rasgaram for incapaz de protege-los. O mercado, porém, é uma divindade impessoal, sanguinária e terrível. Desde que possa continuar devorando uma parcela da população o Deus ex machina não se importará com este ou aquele juiz. Afinal, será sempre possível selecionar e empossar novos juízes para substituir aqueles que forem moídos por uma realidade programaticamente violenta que não pode ser pacificada pelo Poder Judiciário.

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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2 Comentários
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  1. gy francisco

    11 de dezembro de 2017 2:20 pm

    Mediocridade e pequenês dos juizes

    Os juizes poderiam ser grandes, herócios, nobres, históricos, se, com o poder que possuem nas mãso, usassem pra peitar todos os poderosos que produzem injustiça e atacam ao Brasile  aos brasileiros.

    mas, com toda a pesada e profunda formação técnica que possuem, se mostram, ao final, mediocres, covardes , alienados, com objetivos mundamos e mesquinhos, obedientes e dóceis aos que lhe oferecem dinheiro e status.

    Mas como Jesus disse, quanto maior o poder que lhe é dado, maior a cobrança que lhe será feita depois…

  2. Frederico K

    11 de dezembro de 2017 7:05 pm

    O poder do mercado e a impotência dos juízes

    Sr. Francisco: Seu comentário é um perfeito sumário do brilhante artigo de Fábio de Oliveira Ribeiro. Sua opinião complementa o texto, e mostra-se especialmente feliz ao lembrar a essência verdadeira da mensagem de Jesus, da qual os assim chamados pastores evangélicos das igrejas comerciais mantêm tão grande, estarrecedora e pecaminosa distância. 

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