A extrema direita obteve uma vitória histórica nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha. A Alternativa para a Alemanha (AfD) conquistou 43,8% dos votos e elegeu 39 parlamentares, ficando a apenas três cadeiras da maioria absoluta no Parlamento estadual, que possui 83 assentos, noticia o jornal inglês The Guardian.
O resultado coloca o partido diante da possibilidade de formar, pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, um governo estadual liderado pela extrema direita. No entanto, a AfD ainda enfrenta o chamado “cordão sanitário” mantido pelos partidos tradicionais, que se recusam a governar em coalizão com a legenda.
O candidato da AfD ao cargo de primeiro-ministro estadual, Ulrich Siegmund, de 35 anos, declarou que o partido “fez história” e afirmou que o resultado representa um mandato claro para governar. Segundo ele, os eleitores enviaram uma mensagem de que “as coisas não podem continuar assim”.
A AfD mais que dobrou seu desempenho em relação às eleições de 2021, quando havia obtido 23,7% dos votos. O comparecimento às urnas também foi recorde, chegando a 76,5%.
Derrota histórica para a CDU
O resultado representou um duro golpe para a União Democrata-Cristã (CDU), partido do chanceler Friedrich Merz. A legenda obteve apenas 17,2% dos votos e ficou com 15 cadeiras — praticamente metade do apoio conquistado anteriormente.
Os social-democratas do SPD obtiveram 9,3%, os Verdes 8,9% e o partido A Esquerda (Die Linke), 8,6%. Cada uma das três siglas conquistou oito cadeiras. O partido Aliança Sahra Wagenknecht (BSW) ficou com 5,3% e cinco assentos.
A CDU classificou o resultado como uma “derrota” e reafirmou que não pretende formar um governo com a AfD. A posição é especialmente importante porque, sem algum tipo de acordo, a extrema direita terá dificuldades para construir uma maioria estável no Parlamento estadual.
A AfD, por sua vez, também afirmou que não pretende governar como minoria. Siegmund rejeitou a possibilidade de participar de “jogos” políticos para formar um governo minoritário.
Pressão sobre Friedrich Merz
A eleição foi considerada um dos principais testes políticos para Friedrich Merz, que enfrenta baixa popularidade desde que assumiu o governo federal. A CDU perdeu espaço para a AfD também nas pesquisas nacionais, enquanto o partido de extrema direita consolidou-se como principal força de oposição no Bundestag.
Segundo o The Guardian, apenas 9% dos eleitores da Saxônia-Anhalt declararam recentemente estar satisfeitos com a atuação política de Merz.
Siegmund chegou a dizer que Merz foi um “bom cabo eleitoral” para a AfD durante a campanha. A afirmação sintetiza a estratégia do partido de explorar a insatisfação com o governo federal e com o desempenho econômico da Alemanha.
Imigração e aproximação com a Rússia
A campanha de Siegmund foi marcada por propostas duras contra a imigração. Entre as medidas defendidas pela AfD estão uma ofensiva de “remigração” e deportações, além de restrições à presença de símbolos LGBTQIA+ nas escolas.
O candidato também propôs interromper a construção de novos parques eólicos, alterar o lema estadual de “Pense moderno” para “Pense alemão” e retomar o canto do hino nacional nas escolas.
A AfD também mantém uma posição favorável ao Kremlin, defendendo o fim do apoio alemão à Ucrânia e mudanças no tratamento concedido aos refugiados ucranianos.
Durante a campanha, Siegmund explorou ainda a chamada “ostalgia”, sentimento de nostalgia em relação à antiga Alemanha Oriental, buscando capitalizar o descontentamento de parte da população do leste alemão.
Reação e temor de avanço da extrema direita
A vitória provocou manifestações de preocupação dentro e fora da Alemanha. Milhares de opositores da AfD participaram, no sábado, de um “festival da democracia” em Magdeburgo, capital da Saxônia-Anhalt.
O bispo de Magdeburgo, Gerhard Feige, alertou para forças políticas que procuram “semear discórdia” e estimular medo e desconfiança. Em referência à experiência histórica alemã, afirmou que uma democracia também pode criar as condições para sua própria destruição.
O Instituto Econômico Alemão advertiu que as políticas de imigração defendidas pela AfD podem ter consequências graves para a economia regional. A Saxônia-Anhalt enfrenta envelhecimento populacional, redução da população e forte dependência de trabalhadores estrangeiros.
Também há preocupação com a possibilidade de vazamento de informações sensíveis para a Rússia caso a AfD consiga assumir o governo estadual, devido à posição favorável do partido ao Kremlin.
Um novo cenário para a política alemã
O resultado na Saxônia-Anhalt amplia a pressão sobre os partidos tradicionais e pode ter consequências que ultrapassam os limites do estado. A AfD já mira as próximas eleições federais e interpreta a vitória como sinal de que pode avançar ainda mais nacionalmente.
A líder nacional da AfD, Alice Weidel, afirmou que o resultado representa um “mandato claro para governar” e disse que o partido conversará com outras legendas para avaliar as possibilidades de chegar ao poder.
O desafio imediato, porém, permanece: com 39 dos 83 assentos, a AfD não possui maioria própria e continua isolada pelo restante do sistema partidário.
A eleição, contudo, já representa uma mudança histórica na política alemã. Pela primeira vez desde 1945, um partido de extrema direita chega tão perto de assumir o controle de um governo estadual.
Fonte: The Guardian. Reportagem de Kate Connolly, publicada originalmente em 6 de setembro de 2026 e atualizada em 7 de setembro.
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