A guerra eleitoral, por Aldo Fornazieri
Uma disputa eleitoral com a presença de forças de extrema-direita antidemocrática não é apenas um antagonismo entre forças adversárias plurais, mas tem a dimensão de guerra na chave amigo/inimigo. Esta dimensão pressiona para que a disputa se defina entre dois polos, transformando as eleições em um confronto com alta intensidade de polarização.
A dimensão de guerra política é trazida para a cena eleitoral pela extrema-direita. Ela usa armas avessas à disputa democrática. Dissemina o ódio, usa a mentira sistemática, difunde as fake news e deepfakes como método, ataca as instituições da democracia, deslegitima o sistema eleitoral, promove ataque preventivo às urnas, abusa de recursos jurídicos infundados para criar uma suspeição generalizada contra as instituições, adota táticas de intimidação, assédios direcionados e ataques à imprensa, investe em manipulação psicológica digital, faz acusações mentirosas e criminalização dos adversários, propõe a supressão de seus adversários, corrói o sistema político com discurso antissistema.
Várias dessas armas estão sendo usadas pela campanha de Flávio Bolsonaro. As campanhas democráticas e progressistas ocorridas em vários países nos últimos tempos se mostram incapazes de enfrentar a guerra política com armas de guerra política.
A mesma deficiência das forças democráticas e progressistas ocorre aqui no Brasil desde as eleições de 2018, quando a extrema-direita adquiriu força eleitoral com o bolsonarismo. Além de dispor de parcas armas para a guerra política, essas forças se comportam como se fossem representantes da razão, das Luzes, dos bem pensantes e dos bem viventes contra o uso brutal e ilimitados dos instrumentos e meios arrolados acima pela extrema-direita. A brutalidade se impõe na ausência da virtude combativa.
Dada a intensidade e a diversidade de ataques da extrema-direita, o embate torna-se desproporcional e as forças democráticas e progressistas tendem a ficar sempre numa posição defensivista. É preciso ter claro que defesa e defensivismo são conceitos diferentes.
“Defesa” é um conceito e uma atitude legítimos, usados tanto na atividade política, quanto militar. Ele diz respeito a elemento estratégico da preservação de posições, meios e vidas em face de ataques inimigos. “Defensivismo” se refere a uma distorção de avaliação das condições de luta e da própria conduta do agente, que se intimida e se acovarda diante de ameaças e ataques. É a ideologia da passividade e da espera, do temor do risco do agir, dos recuos táticos e da conduta reativa aos acontecimentos e conflitos.
Defesa e ataque são as duas vértebras estruturais da estratégia. Se a defesa visa a preservação, o ataque tem como fim a vitória. A defesa é condição do ataque. Os grandes estrategistas, desde Sun Tzu ensinaram que deve haver um equilíbrio entre defesa e ataque: “a invencibilidade está na defesa; a possibilidade de vitória, no ataque”. Clausewitz tendia a priorizar a defesa. Se ela fosse forte, faria o atacante consumir a maior parte dos seus recursos.
Em campanhas eleitorais, definida uma boa defesa, tende a ter vantagem que constrói narrativas ofensivas e antecipa os ataques. Quem ataca tem o domínio das narrativas e pauta o jogo das eleições. Expor as fragilidades do adversário consiste em mantê-lo ocupado em sua defesa, usando o tempo se explicando.
Até agora, a campanha de Lula não tem nem uma boa defesa e nem um bom ataque. Está no defensivismo. O centro da defesa consistiria em construir uma linha de barragem para sustentar os feitos do Lula 3. O que está em julgamento pelo eleitorado são os resultados do governo. São os resultados que estão sendo atacados. A avaliação negativa tem sido maior do que a positiva. É isto que impede Lula construir uma vantagem em relação a Flávio. No primeiro turno, ao menos a metade do tempo de TV e rádio deveria consistir na divulgação e defesa dos feitos do governo.
Quem olha os programas de TV da campanha petista não consegue perceber uma estratégia. Parece que são tiros a esmo. Ao não ter uma boa defesa também não consegue atacar. Em guerra e política os ataques inimigos podem ser neutralizados pelos contra-ataques.
O foco da estratégia de ataque do bolsonarismo está claro: o imbróglio Lulinha, a crise do STF com o alvo em Alexandre de Moraes e os temas da corrupção e da segurança pública. Não se sabe se Lulinha é inocente ou culpado. O que se sabe é que André Mendonça, setores a PF e Flávio Bolsonaro manipulam o tema eleitoralmente. A investigação contra Lulinha começou com o escândalo do INSS. Como a quebra de sigilo não encontrou nada, criaram outro objeto: tráfico de influência.
André Mendonça está a serviço da campanha de Flávio e age para favorecer Vorcaro. O PT e a campanha se omitiram. Deveriam ter feito uma ampla denúncia da manipulação do caso Lulinha, atacando Mendonça e os delegados da PF. O PT parece cultivar uma certa reverência a Mendonça. Talvez seja porque ele usa um tom de voz que parece que está sempre conversando com Deus.
Era preciso ter exigido medidas legais para conter Mendonça, os delegados, os vazamentos e os fins de sigilos seletivos, acusando-os publicamente. Era preciso ter denunciado Mendonça de agir de forma parcial, protegendo Flávio, Vorcaro e Ciro Nogueira. Mendonça grava vídeos de agradecimento que são peças de campanha de Flávio. As violações procedimentais, a intervenção ilegal que Mendonça promove na PF, o recebimento secreto de Vorcaro por um de seus auxiliares são provas dessa guerra parcial e eleitoreira. Tudo isso poderá levar à anulação do processo do escândalo Master e livrar Vorcaro da cadeia.
No combate ao golpismo e na defesa da democracia, as esquerdas terceirizaram a tarefa para o STF. Agora, o estilhaçado Alexandre de Moraes teve que vir a público para dizer o que publicamente André Mendonça estava de errado e criminoso. Esse medo, essa conduta reativa é o defensivismo impotente no enfrentamento da guerra bolsonarista.
Lula perdeu pontos por conta do ataque bolsonarista a Lulinha sem que houvesse um contra-ataque. Poderá perder pontos com a crise do STF, que mantém o ataque bolsonarista sem um contra-ataque equipotente. A campanha de Lula corre riscos e a vitória é incerta. Qualquer erro será fatal.
É um dever do PT e do comando da campanha definir uma estratégia clara e eficaz, capaz de evitar a derrota. Capaz de criar entusiasmo, de mobilizar a militância para que esta possa mobilizar a sociedade.
Assim como era inadmissível a vitória de Bolsonaro em 2018, a vitória de Flávio também o é. Mas, tragicamente, é possível. Lula e os responsáveis pela condução da campanha, os líderes partidários e todos os candidatos progressistas precisam liderar e imprimir uma direção que leve à vitória.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder.
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