31 de agosto de 2026

Eleições apáticas e candidato zebrado, por Aldo Fornazieri

Como a política é marcada pelo imprevisto, pelo acaso e contingências e, também, pela criatividade, esse clima de apatia pode ser revertido.
Cristo Redentor do Brasil - foto de Florian Plaucher - AFP - Reprodução

Campanha eleitoral começa apática, com alta rejeição a Lula e Flávio Bolsonaro e 51% de eleitores indecisos.
Candidatos têm projeções simbólicas fortes: Lula, legado petista; Flávio, herdeiro bolsonarista; Cury, moderado conciliador.
Lula precisa melhorar avaliação do governo e resolver crise com Lulinha para reverter cenário desfavorável na campanha.

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Eleições apáticas e candidato zebrado

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por Aldo Fornazieri

A campanha eleitoral começou bastante anódina. Sem grandes emoções, nada de extraordinário, sem comoção no eleitorado, sem graça. Algumas análises e recortes de pesquisas indicam que a disputa presidencial pode ser marcada pela apatia. Mas como a política é marcada pelo imprevisto, pelo acaso e pelas contingências e, também, pela criatividade, esse clima de apatia inicial pode ser revertido.

Por enquanto, a apatia se sobrepõe. Há nisso um paradoxo: como as eleições ainda são marcadas pela polarização entre esquerda e direita, a lógica indicaria uma luta renhida, alto engajamento, mobilizações e exasperação de paixões.

Mas, desta vez, a polarização parece se combinar mais com cansaço, exaustão, fadiga e até desânimo. O engajamento negativo supera o positivo: “vamos derrotar Flávio Bolsonaro porque ele será um grande mal para o Brasil” e “vamos derrotar Lula porque ele representa as forças malignas, demoníacas”. Flávio e Lula estão enredados por alta rejeição. A disputa parece se definir não por quem acertar mais, mas por quem errar menos. Qualquer erro poderá ser fatal.

O governo Lula 3 não gerou entusiasmo. Foi um governo passivo, com vários problemas, como comunicação ruim. As avaliações negativas do governo são levemente superiores às positivas, tônica marcante desde 2024. Poucas vitórias, poucas marcas, sem um destino de chegada.

Há uma correlação forte entre avaliação de governo e desempenho nas intenções de voto. O governo e a campanha parecem negligenciar este aspecto. Nesse início de campanha, a centralidade deveria ser a divulgação das realizações do governo, pois se a avaliação melhorar, melhora também o desempenho eleitoral e reduz a rejeição.

Na pesquisa Quaest de agosto, no voto espontâneo Lula aparece com 25%, Flávio com 19% e os outros candidatos somam 3%. Os indecisos são 51% a pouco mais de um mês das eleições. Este índice é sintomático da apatia e até do desinteresse do eleitorado. Se este índice permanecer alto nas próximas semanas, duas consequências podem desdobrar-se dele: primeira, a última semana será decisiva na definição de voto; segunda, pode haver um alto índice de abstenção, como algumas análises já indicam.

Nestas eleições, os programas de governo e as propostas tendem a ter um impacto reduzido. Dois outros fatores se destacam: os índices de rejeição, no caso de Lula e Flávio; e as projeções simbólicas que os eleitores fazem em cada um dos candidatos. A projeção simbólica se refere ao processo psicológico e social pelo qual os eleitores transferem para a imagem dos candidatos os seus desejos, valores, medos, esperanças e aspirações de futuro. Em face de uma profusão de propostas confusas, o eleitor vota mais naquilo que o candidato representa para a sua identidade e para os rumos e destino do país.

Assim, a identificação, a empatia, valores religiosos e morais, origem e conduta social, a chave do salvador e do herói, a ordem e a segurança, o protesto, as frustrações, a esperança, as expectativas, a definição do inimigo (“o nós contra eles”) e a identificação do bem e do mal serão componentes decisivos na projeção simbólica que os eleitores farão em relação aos candidatos.

Preliminarmente, a imagem de Lula suscita uma projeção simbólica complexa, dividida e com diferentes vieses. Por um lado, projeta os símbolos da redução da pobreza, da justiça social, da ascensão das classes populares, da inclusão e da conciliação. Por outro, evoca os símbolos da corrupção, do populismo e da radicalização ideológica. Nesta campanha, o que está em jogo é o legado da Era Lula e dos governos petistas. Se for derrotado, será uma despedida melancólica. Se vencer, terá quatro anos para tentar superar o precário terceiro mandato, construindo um desfecho mais glorioso.

A imagem de Flávio Bolsonaro suscita a projeção simbólica do ungido dinástico, do herdeiro de legado do pai com todas as suas controvérsias e encrencas jurídicas. Como encarnação do bolsonarismo, procura aparecer mais moderado e cinicamente simpático, malandro, talhado para viabilizar no Brasil uma era de espertezas econômicas.

A imagem de Ronaldo Caiado suscita uma projeção simbólica do conservadorismo rural de direita, da mão dura e autoritária, da defesa do agronegócio, do combate aos movimentos sociais, da eficiência administrativa e da anticorrupção. Busca tonalidades mais moderadas mas, pelas posições que defende, não consegue se desvencilhar do bolsonarismo.

O mesmo ocorre com Romeu Zema. Ele projeta o simbolismo político do negociante ressentido do interior, do  conservadorismo religioso, do antipolítico, da valorização absoluta do privado e do antissistema que quer dobrar o público pelos valores e práticas do privado.

Já Renan Santos desenvolve a campanha pensando numa transição geracional, vença Lula ou Flávio. Ele projeta o simbolismo do ultra individualismo e da supremacia do tecnicismo, em linha com o conservadorismo do Vale do Silício. Seria uma nova direita programática e disruptiva, que quer ser alternativa ao lulismo e ao bolsonarismo. Defende a meritocracia tecnocrática, produtivista e anti identitária, o tecno-otimismo, a anti regulação estatal, liberdade de expressão irrestrita, fé nos valores ocidentais e nacionalismo de grande potência nuclear.

Augusto Cury surgiu inesperadamente com cores zebradas. Teve um salto extraordinário nas redes social, provavelmente impulsionado em parte. Mas não é só isso. Parece estar sendo abraçado pelos eleitores órfãos e independentes, que buscam algo moderado, algo fora da polarização.

Com um discurso conciliador, com “uma mente capitalista e um coração social”, tende a ocupar um espaço que os políticos de centro-direita não souberam e não conseguiram ocupar. Com  discurso forte, voltado para a Saúde, o acolhimento e a “escuta das dores” dos cidadãos, disponibiliza bondade para as pessoas. Quer curar uma sociedade fraturada. Enfatiza mais a necessidade de afeto, diálogo e racionalidade.    

Cury se apresenta como o arquétipo do pacificador, o terapeuta da nação, o humanista altruísta que quer um capitalismo humanizado. Com essas tonalidades zebradas, deverá saltar para a terceira posição nas próximas semanas. Tende a ser uma surpresa eleitoral, mas com poucas chances de encostar nos líderes.

A campanha de Lula precisa de calibragens urgentes, ao menos em dois temas: melhorar a avaliação do governo e se desenvencilhar do imbróglio Lulinha. Esse imbróglio se sobrepôs aos liames de Flávio com o escândalo Vorcaro. Chega ser exasperante assistir a incompetência da defesa de Lulinha, do PT e do governo em lidar com esse problema. A militância está abespinhada e requer uma solução urgente.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política a autor de Liderança e Poder.

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Aldo Fornazieri

Cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política.

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