4 de junho de 2026

Parece, mas não é: defenda-se dos sabichões e seus erros imaginários, por Sergio Rodrigues

 

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Parece, mas não é: defenda-se dos sabichões e seus erros imaginários

por Sergio Rodrigues

da Folha

A paisagem desmedida da língua, que nenhum ponto de vista abarca em sua inteireza, está cheia de coisas que parecem ser, mas não são. Vale a pena dar um zoom em algumas dessas arapucas, que as patrulhas do sabichonismo adoram explorar para exercer seus mesquinhos poderes sobre falantes desavisados.

Pode parecer que a expressão correta é “um peso e duas medidas”, mas não é. O certo é mesmo aquilo que todo mundo sempre falou, “dois pesos e duas medidas”. Está na Bíblia –que, se não tem a palavra final em questões morais e de costumes, certamente pode ser tomada como fonte legitimadora de uma expressão que ela própria difundiu.

Pode parecer também (não acho que pareça, mas muita gente discorda de mim) que o provérbio “Quem tem boca vai a Roma” contém um erro constrangedor, pois o certo é “Quem tem boca vaia Roma”, ou seja, exerce o saudável direito de protestar contra a tirania dos césares. Só que isso é uma falácia. Quem sabe perguntar chega aonde quiser, eis a moral do ditado. Como aliás sempre soubemos, até surgirem os sabichões. Vaia neles!

Pode parecer ainda que a palavra “aluno” tem origem num vocábulo latino que quer dizer “sem luz”, motivo pela qual deve ser evitada, uma vez que trai uma concepção pedagógica anacrônica em que o professor sabe tudo e o estudante não sabe nada. Repetida até por educadores, essa “tese” é uma bobagem. O latim “alumnus” quer dizer criança de peito e, por extensão, discípulo, aquele que precisa ser nutrido para crescer. Só isso.

Pode parecer que a contração “num”, empregada no parágrafo anterior, é um coloquialismo que, na sua informalidade de bermuda e chinelo, deve ser evitado a todo custo na linguagem escrita. É o que vêm repetindo muitos professores nos últimos anos. Não procede. Um pouco de leitura nos ensina que autores clássicos da língua recorreram à eufonia de “num” e “numa” em textos apuradíssimos.

Pode parecer (e neste caso reconheço que parece mesmo) que a inocente palavra “coitado” tem em sua origem um sentido chulo e talvez violento, o daquele que foi submetido a coito, quem sabe contra a sua vontade. Não é verdade. As duas palavras têm origens latinas distintas: coitado veio de “coctare”, atormentar, enquanto o coito nasceu do verbo “coire”, fazer sexo com. Parentesco zero.

Pode parecer (isso não deveria poder, mas parece que pode) que quando dizemos “Não vejo ninguém” estamos dando curso a uma grosseria ilógica da língua portuguesa, sem perceber que uma negação anula a outra e que, se não vemos ninguém, alguém nós vemos. A verdade é que não existe nada mais tosco no mundo do sabichonismo do que supor que línguas naturais sejam submissas à linguagem matemática. A negação dupla, que reforça em vez de anular, é um recurso consagrado e de raízes profundas no português –e não apenas nele.

Pode parecer, enfim, que nossa língua detém o recorde mundial de pegadinhas, idioma dificílimo que só pós-doutores conseguem falar sem escorregar a cada frase. Embora haja razões históricas para essa percepção, trata-se, em termos objetivos, de mais um engano. Se nos livrássemos dos patrulheiros sabichões e sua usina de erros imaginários, a paisagem já ficaria bem mais acolhedora. 

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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