Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
E vejo o que não vi nunca, nem cri
Que houvesse cá, recolhe-se a alma a si,
E vou tresvariando, como em sonho.
Isto passado, quando me disponho,
E me quero afirmar se foi assi,
Pasmado, e duvidoso do que vi,
M’espanto às vezes, outras m’avergonho.
Que, tornando ante vós, senhora, tal,
Quando m’era mister tant’ outr’ ajuda,
De que me valerei, se àlma1 não val’?2
Esperando por ela que me acuda,
E não me acode, e está cuidando em al,3
Afronta o coração, a língua é muda. (i)
1 àlma: crase no artigo feminino a com a inicial de alma
2 val’: vale
3 al: algo, outra coisa
Curiosidade histórica: “Sá de Miranda, o poeta português quinhentista, ou, como era mais freqüentemente chamado, o Dr. Francisco de Sá, foi irmão do nosso terceiro governador geral, Mem de Sá, e tio do fundador da nossa cidade [Rio de Janeiro], Estácio de Sá.” (ii)
Fontes:
(i) Berardinelli, Cleonice, “Cinco séculos de Sonetos Portugueses de Camões a Fernando Pessoa”, p.19,22; 1ª ed.; Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.
(ii) Cleonice Berardinelli, Discurso de Posse na cadeira nº 8 da Academia Brasileira de Letras em 05/04/2010.

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