5 de junho de 2026

Os gays das novelas continuam amordaçados; por Jeff Benício

Sugerido por Gunter Zibell – SP

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Do Terra

Na Globo, mulheres podem beijar na boca; gays continuam amordaçados

Jeff Benício

As sisters Clara e Vanessa deram beijo durante festa no Big Brother Brasil 14

A Globo adora gays. É o que se conclui ao perceber que, nos últimos dez anos, a maioria das novelas das 19h e 21h apresentou personagens masculinos homossexuais. Em uma única trama, “Paraíso Tropical” (2007), existiam dois casais. Em outro folhetim, “Insensato Coração”, o número de gays chegou a quase dez. Não foi mera coincidência. As duas novelas foram escritas por Gilberto Braga. O autor é assumidamente homossexual. Aliás, ele acaba de ficar noivo de seu companheiro, o decorador Edgard Moura Brasil, com quem vive há 30 anos.

Apesar de a bandeira da diversidade estar fincada no horário nobre da emissora, a cúpula global nunca permitiu a exibição de um beijo na boca entre dois homens. Agora os olhos do país se voltam para Félix e Niko em “Amor à Vida”. O autor Walcyr Carrasco, bissexual declarado, teria recebido carta branca da direção da emissora para ressaltar o final feliz do casal com um beijo. Verdade ou mentira, saberemos somente no dia 31, quando a novela termina.

Já o beijo entre mulheres não é exatamente um tabu na Globo. Exemplo disso é a exibição no último domingo, por volta de 11 da noite, do beijão das sisters Clara e Vanessa numa festa do BBB14. Duas loiras bonitas se beijando é uma imagem recorrente na galeria de fetiches da maioria dos heterossexuais. Será por isso que é aceito com maior naturalidade e exibido sem alarde na TV, ao contrário do boca a boca entre dois homens? E se, ao invés de duas sisters, o beijo tivesse acontecido entre dois brothers? A Globo exibiria a cena?

Há chance desse beijo gay masculino acontecer nesta edição do reality show. O empresário Vagner é homossexual de carteirinha e crachá. Solteiro, parece disposto a se divertir muito no confinamento. O cozinheiro Rodrigo, o Portuga, é do tipo sem preconceito. Logo nas primeiras horas dentro da casa, se mostrou aberto às experiências: “Trabalho com muitos gays, eles vêm com brincadeiras comigo. Às vezes um vem e me dá um selinho na boca”. Em outro momento da conversa, o pernambucano não descartou ficar com outro homem diante das câmeras do BBB: “Eu não pretendo (beijar um homem), mas…”. Esse ‘mas’ ainda pode surpreender.

A liberação do beijo gay na teledramaturgia da Globo quase aconteceu em ‘América’, de 2005. A cena entre os peões Junior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro) foi gravada. A direção da novela tomou o cuidado de registrar diferentes intensidades de beijo. Optou-se por um encontro de lábios calmo e romântico. Porém, a sequência foi vetada horas antes de ir ao ar no último capítulo da trama. Na época, a autora Gloria Perez expressou publicamente frustração com a censura interna.

Para não cometer imprecisão, é importante lembrar que dois homens já tocaram sim os lábios em uma novela global. Porém foi um selinho pueril. Aconteceu em ‘Um Sonho a Mais’, trama das 7 produzida em 1985. Ney Latorraca, vestido como Anabela Freire (um disfarce de seu personagem hétero Volpone), deu uma bitoca no iludido Pedro Ernesto (Carlos Kroeber), que acreditava estar diante de uma mulher. Foi tão caricatural que não chocou.

Em novela da Globo, o beijo gay feminino mais lembrado é o de Clara (Aline Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli) em ‘Mulheres Apaixonadas’, escrita por Manoel Carlos. Não foi ‘aquele’ beijo. As duas também deram um selinho angelical, numa encenação de ‘Romeu e Julieta’, de Shakespeare. Como em ‘Um Sonho a Mais’, recorreu-se à ficção dentro da ficção para amenizar o impacto da demonstração afetiva entre pessoas do mesmo sexo.

Manoel Carlos volta ao tema do amor entre mulheres em sua nova novela, ‘Em Família’. A dona de casa Clara (Giovanna Antonelli) vai trocar um casamento entediante com Cadu (Reynaldo Gianecchini) pela paixão por Marina (Tainá Müller). Em várias entrevistas, o autor confirmou a possibilidade de escrever um beijo entre as duas. Outro selinho à vista? Ou a Globo será liberal como o SBT, que mostrou um beijo com ‘b’ maiúsculo entre Luciana Vendramini e Gisele Tigre em ‘Amor e Revolução’?

A minissérie ‘A Teia’, a partir do dia 28, na Globo, terá cenas quentes entre duas mulheres. Ou seja, em minissérie e no Big Brother, pode. Na novela, não pode. Enquanto a ficção da Globo mostra selinhos tímidos entre mulheres e mantém amordaçada a boca dos gays masculinos, emissoras de outros países já liberaram geral. Na vizinha Argentina, a novela ‘Farsantes’, do Canal 13, exibiu o beijo entre dois advogados que se apaixonaram na convivência do escritório. Em Portugal, a versão local de ‘Dancin´Days’, no canal SIC, mostrou o final feliz — com direito a casamento e beijo — de um pai de família com vida dupla que se assumiu gay após se apaixonar por outro homem.

Aqui, por enquanto, os gays das novelas só podem dar ‘beijinho no ombro’, como canta a funkeira Valesca Popozuda, musa do movimento GLBT.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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8 Comentários
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  1. Marcos_

    23 de janeiro de 2014 10:39 am

    Como homossexual, eu preriria

    Como homossexual, eu preriria que os gays nem existissem nas novelas. A grande maioria é usada de forma caricata, somente para fazer humor sobre o preconceito que a sociedade tem, reforçando-o ainda mais.

    Quando me assumi para os meus pais, tive (e ainda tenho) a maior dificuldade para mostrar para eles o que de fato é um homossexual, visto que já estão contaminados pela visão completamente deturpada da mídia aberta. 

    Claro que precisamos de visibilidade, para derrubar a ignorância. Mas esse tipo de visibilidade eu dispenso.

    1. Helio J. Rocha-Pinto

      23 de janeiro de 2014 12:36 pm

      Ainda que mal representados,

      Ainda que mal representados, a visbilidade que as novelas têm dado aos homossexuais não é desprezível. Os avanços atuais em direitos LGBT no Brasil, mesmo que pequenos, se deve muitas vezes a essa visibilidade. Se não fosse pelas novelas, o assunto demoraria mais a ser compreendido pela parcela da população que não tem proximidade de amizade ou familiar com homossexuais. Você teria ainda mais dificuldade em lidar com isso se tivesse de assumir nos anos 70, quando nada do tipo era exibido na TV.

      1. Gunter Zibell - SP

        23 de janeiro de 2014 8:29 pm

        Do facebook de “Moça, vc é machista”:

        Sobre Nico e Félix, na novela de Walcyr Carrasco:

        Precisamos parabenizar o autor sobre um aspecto da relação gay que sempre criticamos aqui na página, e que ele está conseguindo quebrar com os personagens Nico e Félix: a visão do gay calcada somente no sexo. Muito se ouve falar sobre sexo gay, o que é tido como pecado é a “sodomia”, vergonhoso pra sociedade é o homem que se comporta sexualmente como a mulher, que “dá”, etc.
        Sobre esse aspecto, Walcyr Carrasco aborda a visão real do que acontece com um casal gay: o que acontece com todos os casais: jantares, brigas, choros, ciúmes, beijos, carinho, dormir junto, tomar banho, fazer comprar, criar filhos, sair pra trabalhar… Gays não ficam transando o dia todo (se ficassem tb não seria da conta de ninguém).
        Sexo não é sujo, nem o hetero e nem o gay, no entanto, em uma sociedade que tem o sexo como pecaminoso, que exerce um controle absurdo da sexualidade, heteronormativa como é a nossa, calcar a cena de dois personagens que se apaixonam, que vivem os dramas de qualquer paixão real é, sem dúvida, um avanço inominável.

        x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x

        Em tempo: eu só tenho usado ‘declarar-se’. Acho que ‘assumir-se’ é só para admitir erros, tipo ‘assumo que estacionei em local proibido’, ‘assumo que bebi demais na festa’, etc.

        E a cena de ontem foi uma das mais bonitas da novela:

        http://gshow.globo.com/novelas/amor-a-vida/videos/t/cenas/v/felix-desabafa-com-niko-sobre-seus-problemas-com-cesar/3093728/

         

  2. Ed Döer

    23 de janeiro de 2014 2:04 pm

    A coisa me parece mais

    A coisa me parece mais simples…

    BBB em princípio não tem script, logo, a Globo não tem controle (na teoria) sobre o que acontece lá. Embora a escolha de participantes poderia sim influir no tipo de “realidade artificial” que será criada.

    E mesmo que a Globo resolvesse não mostrar na TV aberta o ocorrido, as pessoas ficariam sabendo através dos serviços que transmitem o programa 24h ou graças à cobertura realizada por parte da imprensa (em função do serviço 24h). Então, a Globo tem duas escolhas diante desse tipo de caso:

    a) Não mostra e enfrenta as cobranças que seriam feitas por “esconder” o que ocorreu, se indispondo com parte da sociedade.

    b) Mostra, pois o público “médio” do programa provavelmente não se importaria muito com qualquer “anormalidade”. E esse tipo de programa sobrevive graças ao “espetáculo”, qualquer coisa diferente e atípica é garantia de maior audiência e visibilidade, em teoria.

    Considerando as duas escolhas, ousaria dizer que, de fato, a primeira nem existe, pois não é uma decisão benéfica para o negócio, não que empresas não possam cometer erros, mas parece um erro primário demais para a Globo. No máximo, tal possibilidade é considerada levemente. Diferente de uma novela, ficção em sua totalidade, mesmo que inspirada ou amparada na realidade. Nesta, a empresa é livre para desenvolver a trama da forma que achar melhor. E tentando atender um público mais amplo, diverso e conservador que de um BBB, imagino. O que poderia explicar o receio da Globo em apresentar na novela uma realidade mais “ousada” que a “realidade forjada” do BBB.

    E ainda teríamos que considerar a adequação do beijo para o desenvolvimento e desfecho da trama. Uma coisa (questionável ou mesmo condenável) seria evitar a encenação do mesmo em função de receios e pruridos, por mais que a história aponte para a viabilidade do mesmo… e que tal beijo seria certeza em caso de um casal hetero. Outra seria “forçar” o beijo só para garantir um pioneirismo ou defesa da causa LGBT, mas o mesmo ficar “deslocado” na história. Até porque, em princípio o que se espera de uma história é que tenha um bom desenvolvimento e que a mesma seja crível dentro do universo criado…e não mero proselitismo, por mais justas e benéficas que sejam as bandeiras levantadas.

    1. Gunter Zibell - SP

      23 de janeiro de 2014 8:25 pm

      Teve uma abordagem fora da caixa que achei interessante.

      A maioria das pessoas acha ok ter 6 gays nessa novela (já houve novelas com mais e com núcleo travesti tambem.)

      A maioria acha bobagem não ter beijo gay e critica. Eu acho bobagem mas até que não critico porque eu conheço o processo de pesquisas qualitativas para TV, já fui convidado a uma.

      Mas essa abordagem a seguir não só não condena como acha bom a não-sexualização do casal gay:

      Do facebook de Moça, vc é machista:

      Sobre Nico e Félix, na novela de Walcyr Carrasco:

      Precisamos parabenizar o autor sobre um aspecto da relação gay que sempre criticamos aqui na página, e que ele está conseguindo quebrar com os personagens Nico e Félix: a visão do gay calcada somente no sexo. Muito se ouve falar sobre sexo gay, o que é tido como pecado é a “sodomia”, vergonhoso pra sociedade é o homem que se comporta sexualmente como a mulher, que “dá”, etc.
      Sobre esse aspecto, Walcyr Carrasco aborda a visão real do que acontece com um casal gay: o que acontece com todos os casais: jantares, brigas, choros, ciúmes, beijos, carinho, dormir junto, tomar banho, fazer comprar, criar filhos, sair pra trabalhar… Gays não ficam transando o dia todo (se ficassem tb não seria da conta de ninguém).
      Sexo não é sujo, nem o hetero e nem o gay, no entanto, em uma sociedade que tem o sexo como pecaminoso, que exerce um controle absurdo da sexualidade, heteronormativa como é a nossa, calcar a cena de dois personagens que se apaixonam, que vivem os dramas de qualquer paixão real é, sem dúvida, um avanço inominável.

       

      1. Ed Döer

        24 de janeiro de 2014 1:22 am

        Gostei do texto.Na época que

        Gostei do texto.

        Na época que a gente tinha começado a “trocar figurinha” eu tinha falado para ti algo quase nessa linha mas não com a mesma desenvoltura e clareza, tendo como base o “velho” seriado Will & Grace. Nada contra o engraçado amigo do Will (que agora não lembro o nome), mas imagino que a solução para quebrar com as “últimas barreiras” de preconceitos que existem por aí, é focar no “tipo Will”, que é menos estereotipado, mostrando que LGBTs lidam com os mesmos tipos de problemas e situações que os não-LGBTs, tirando a parte do preconceito, é claro. Seja na ficção, como em campanhas governamentais e ONGs. Não seria uma questão de não-sexualizar o gay, mas de “normalizar” o mesmo, mostrando como parte integrante da sociedade e não como alguém que está ali (em caso de ficção) só para dizer que tem um (ou O) gay na história.

        Por sinal, não duvido que tem gente por aí que olha para o pessoal nas paradas gays e acham que os LGBTs se portam daquela maneira 24h por dia. Fora que muita farra, animação e felicidade deve deixar o pessoal conservador que leva uma vida “típica” (e monótona) com inveja…hehe

        1. Gunter Zibell - SP

          24 de janeiro de 2014 3:43 am

          Também não lembro do amigo do Will

          Mas sei que teve beijo gay nessa série, e isso já tem lá seus 10 anos.

          E o estereótipo no amigo do Will não é só o gestual, mas a superficiliadade das atitudes dele. Eu posso parecer mais com esse personagem numa coisa e mais com o Will em outra. Posso parecer mais com o Niko em várias coisas e mais com o Félix em outras.

          Mas agora já se está indo além, há a defesa do comportamento esteriotipado também, se ele for encontrado na sociedade presencial. Afinal, não faz mal nenhum a ninguém. Apenas comportamentos que façam mal a outras pessoas (como o racismo, o sexismo e a homofobia) é que devem ser condenados. Essa é uma mudança de paradigma que foi se formando ao longo dos últimos 40 anos.

          Pode rolar um pouco de inveja sim, mas em minorias de héteros, que fizeram muito esforço para reprimir seus comportamentos e aprender uma determinada postura que é artificial. Podem ficar pensando: para que me reprimi tanto?

          Isto é, independentemente do homem ser gay ou hétero, o que é estereótipo de homem hétero (ou simplesmente homem) é aprendido. O mesmo para mulheres, claro.

          Eu acho esquisita essa codificação presente em homens hétero (mulheres tem as outras codificações para elas que também seguem) com uma lista enorme de coisas que devem ser feitas (mostrar valentia, ‘falar grosso’, apreço a esportes, manifestar-se pegador, etc.) e outra lista de coisas que devem ser evitadas (mostrar fragilidade, ‘desmunhecar’, dançar isto ou vestir aquilo p.ex.)

          A pedagogia da heteronormatividade me parece um mundo de artificialismos. Um monte de projeções que não têm utilidade nenhuma.

          O mundo não é assim. Há coisas Yin, coisas Yang e pessoas que gostam mais de algumas e mais de outras.

          Mas enfim, acho que não é o gay mais afetado (por exemplo como eu sou na vida presencial) que é estereótipo. É o que nos acostumamos a ver como ‘homens’ e ‘mulheres’ que são estereótipos.

          Eu não faço autopoliciamento de meu gestual ou fala. Nem busco experimentar atividades ou falar de assuntos se eu não tiver interesse nelas. Eu não gosto de parecer rude ao falar, não gosto de nenhuma atividade física. Mas também não sou vaidoso e nem gosto de parecer superficial.

          Muitos homens hétero talvez parecessem assim se fossem criados com maior naturalidade. 

  3. evandro condé de lima

    23 de janeiro de 2014 2:52 pm

    Acho um pouco estranho a

    Acho um pouco estranho a necessidade da representatividade de determinado grupo ser “obrigatória”. Pombas, teremos de fazer uma estatística (olha aí o IBGE para ajudar) sobre nossos diferentes grupos sociais (ou o nome que quiserem) para começar a pedir também que sejam representados? Alguém já pediu isso ou aquilo a quem escreve um livro, uma peça de teatro ou um roteiro. Deixem quem cria livre. pelamordedeus.

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