5 de junho de 2026

O primeiro ‘rolezinho’ da história, em 1960, na Carolina do Norte

Sugerido por Lair Amaro

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Do blog do Thomas Conti

Estados Unidos, 1 de Fevereiro de 1960: o primeiro “rolezinho”

O título não poderia deixar de ser uma provocação, mas bem intencionada – peço perdão aos colegas historiadores pelo anacronismo.
Sit In Rolezinho Estados Unidos 1960 luta direitos civis Greensboro NC woolworth blog thomas conti

Em 1 de Fevereiro de 1960, quatro jovens universitários negros, vestidos com suas melhores roupas, entraram na lanchonete Woolworth’s em Greensboro, no Estado da Carolina do Norte, EUA. Os estudantes compraram alguns itens da mercearia sem nenhum problema, e em seguida pediram um lanche no balcão de serviços da lanchonete.

O evento, aparentemente banal, é um marco histórico da luta por direitos civis nos Estados Unidos. Tudo porque os estudantes, contrariando a política da loja, fizeram seus pedidos na área do balcão que era reservada para as pessoas brancas, quando havia indicações explícitas de que a área para as pessoas “de cor” era mais ao canto da loja.

Os funcionários da loja se recusaram a atender ao pedido dos jovens, e o gerente pediu que se retirassem do estabelecimento. Os quatro jovens ficaram sentados até o horário que a loja fecharia, esperando pacientemente serem atendidos – o que não aconteceu.

Sit In Rolezinho Estados Unidos 1960 luta direitos civis Greensboro NC woolworth

No momento da foto, uma mulher branca idosa ia em direção aos quatro. Um deles, Franklin McCain, relembra o que sentiu no momento: “Eu estava pensando comigo mesmo, ela deve ter uma faca de amolar e tesouras naquela bolsa dela e elas estão prestes a me atravessar direto. Quero dizer, nós estávamos invadindo o espaço dela, um espaço que nos era dito que nós não podíamos habitar.” A citação vem de uma entrevista dada por McCain em 2010, no aniversário de 50 anos do protesto de Greensboro.

No dia seguinte ao protesto, mais de vinte afro-americanos reuniram-se na loja, onde novamente tiveram seu pedido recusado e sofreram discriminação por parte dos clientes brancos do recinto. No terceiro dia, por volta de 60 pessoas juntaram-se ao protesto, e a loja protegeu-se alegando estar “de acordo com a lei estadual”, que era favorável à segregação.

No quarto dia, mais de 300 pessoas, que aprenderam a dinâmica do protesto, juntaram-se e começaram a ocupar mais lojas da região. Os protestos, que ficariam conhecidos como “sit-ins”, espalharam-se para outras cidades e Estados, e foram um ponto de inflexão crucial na luta por direitos civis nos Estados Unidos, atraindo a atenção da mídia e da Casa Branca, com o então presidente Eisenhower declarando ser “profundamente simpático aos esforços de qualquer grupo a gozarem dos direitos de igualdade que lhes é garantido pela Constituição”.

Os protestos continuaram por meses, ainda que não raro sofrendo reações violentas por parte de lojistas ou clientes. Mas, em julho daquele mesmo ano, a rede de lojas onde os jovens protestaram aboliram a segregação por cor dentro do estabelecimento, e outros recintos do sul dos Estados Unidos também começaram a desfazer as divisões raciais. Hoje, os quatro bancos onde os jovens se sentaram fazem parte do museu do Instituto Smithsonian da História Americana, e a sessão específica do museu foi construída onde era a loja onde os jovens protestaram pela primeira vez.

Greensboro Museu luta direitos civis estados unidos rolezinho

O lugar que os quatro jovens se sentaram preservado em museu da história americana.

Rolezinhos, Brasil, 2012-2013

Estou em vias de terminar um artigo apenas para tratar da questão atual dos “rolezinhos” em nosso país, mas gostaria de já deixar aqui algumas provocações.

Por que as pessoas dos shoppings tem medo destes jovens?

Quando relembramos o acontecimento dos Estados Unidos, nos é difícil entender como os funcionários da loja e seus clientes puderam agir da forma que agiam, ou como a lei do sul dos Estados Unidos podia permitir tamanha discriminação. Parecem coisas muito distantes, de um passado longínquo. Mas é na verdade muito recente, e fato é que temos poucos motivos para crer que aquelas pessoas eram biologicamente diferentes de nós em qualquer sentido. Elas reagiram com uma mistura de sentimentos que, colocadas lado a lado com o impacto que teve o “rolezinho”, é muito similar.

Primeiro, elas tem medo. Penso que os dois maiores medos do ser humano são o desconhecido, e outros seres humanos. Junte os dois e multiplique o número de componentes e o potencial para o medo irracional é quase irreversível. Assim como os brancos do sul dos EUA, acostumados com o distanciamento e o preconceito, não conheciam nada da vida dos negros, quem eles eram, qual sua cultura, etc, parte significativa da sociedade brasileira hoje não tem a menor ideia de como é a vida e os costumes de seus novos jovens adolescentes, negros, pobres, ou que seja. Conseguem apenas evidenciar que de fato são “gente diferenciada“. Em outras palavras, ignorância, preconceito e má vontade, atreladas à racionalidade estatística e contábil que organiza os shoppings centers conforme o público-alvo e que já de partida segrega seus frequentadores por classe. Basta ver como rolezinhos tradicionais da alta classe nunca geraram polêmica ou balas de borracha.

Outra provocação é como as regras dos espaços privados e a lei pública são colocadas em tensão nesses acontecimentos. A lei federal dos Estados Unidos colocava todos como iguais e em tese não permitia a discriminação. Forças da tradição, aliadas ao elitismo muito bem apadrinhado financeiramente, eram contudo fortes suficientes para que em diversos Estados o dia a dia pudesse ser organizado numa lógica que era diretamente contrária à lei. Após os protestos, evidente que houve a vitória da lei federal sobre as inclinações pessoais dos lojistas, mas só depois de anos de luta, muito sangue derramado e desconfortos por toda parte. Aqui no Brasil as coisas não chegaram ao ponto de haver placas indicando onde brancos e negros devem ir, ou pobres e ricos devem ir, mas é completamente lícito fazer estabelecimentos para as classes altas em regiões onde o transporte público é péssimo ou inexistente, ou adotar uma política que permita apenas lojas de alto padrão e altos preços no estabelecimento de modo a não convidar “populares”, ou cobrar taxas abusivas de estacionamento onde não se quer os pobres, dentre outras táticas que, alega-se, são apenas métodos matemáticos e estatísticos de aumentar as vendas. Talvez isso seja em parte verdade, mas definitivamente não são “só” isso.

Para concluir, com este artigo não era meu intuito realmente classificar uma luta decidida por direitos civis dos EUA como um “rolezinho”, nem dizer que o rolezinho é uma luta consciente por direitos civis no Brasil. Entretanto, os jovens dos EUA não tinham a menor ideia que estavam marcando a história do país – na verdade deviam estar pensando mais no quanto estavam arriscando a vida. Nesse momento tampouco sabemos o que significa esses rolezinhos. Enfim, com ressalvas, acredito que existem paralelos e lições importantes que devemos nos dispor a refletir sobre, uma vez que ainda vivemos, sim, num dos países mais desiguais do mundo, herança que, ao menos do meu ponto de vista, não lutamos um centésimo do que seria necessário para de fato combatê-la.

E ah, já ia esquecendo. Sobre a mulher que se aproximara do jovem manifestante McCain na lanchonete dos EUA, ela não o atacou. Na verdade, surpreendentemente, ela sorriu para ele e disse: “Garotos, estou tão orgulhosa de vocês. Apenas lamento não terem feito isso há 10 anos atrás”. Segundo o próprio, as palavras dela foram uma fonte de inspiração para ele durante toda a sua vida.

AT quatro luta direitos civis Estados Unidos Monumento

Monumento aos quatro jovens que fizeram história nos EUA. David Richmond, Franklin McCain, Ezell Blair Jr, Joseph McNeil.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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11 Comentários
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  1. H Menon Jr.

    16 de janeiro de 2014 10:47 am

    Não creio que exista base

    Não creio que exista base comparativa entre o evento reportado neste Post e os tais rolezinhos de SP… nos USA havia discriminação política, legal, e aqui no Brasil o que ainda persiste é a chamada discriminação social. Embora pertinente, o Post me pareceu forçado. 

    1. Francisco Pinto

      16 de janeiro de 2014 1:21 pm

      Concordo. Forçado demais. É

      Concordo. Forçado demais. É insensato comparar movimentos explicitamente pacíficos dos negros estadunidenses (apenas sentarem nos bancos e ficarem quietos) com os nossos rolezinhos, politica e ideologicamente vazios e que têm claramente um caráter revanchista de classe e intimidatório, de entrar em bando cantando funk bem alto, quando não gostamos nem de ouvir o funk dos outros nos ônibus (na minha cidade é proibido, mas desobedecido). Isso é no mínimo descortês, mas também criminalizável, já que se invade o “espaço sonoro” dos outros causando tumulto e sem lhes dar a escolha do sossego. Além disso, garanto que o Nassif sairia de perto deles se estivesse com a mulher e um filho num shopping. Por fim, também é óbvio que há furtos e roubos nos rolezinhos, pelo menos por parte dos que aproveitam o anonimato e o poder que vem da multidão. Em muitos casos a repressão pode ser legítima.

  2. Fábio de Oliveira Ribeiro

    16 de janeiro de 2014 11:08 am

    Quando eu estava no 1º grau,

    Quando eu estava no 1º grau, antigo ginásio, costumava ir ao recem inaugurado Shopping Continental (divisa de Osasco com São Paulo) com amigos da escola e do bairro.  Eramos então apenas um “bando de moleques” com 11, 12, 13 anos de idade. Confesso que adoravamos infernizar a vida dos seguranças do local. Olhava-mos as lojas, subiamos e desciamos escadas, sentavamo-nos no anel de alvenaria que emoldurava uma bela fonte no piso térreo (a mesma não existe mais). Zanzavamos horas no Shopping geralmente sem ter dinheiro para consumir o que quer que fosse. As vezes tomavamos refrigerante ou sorvete com a grana da passagem e voltavamos para o Jardim das Flores a pé. Vez por outra eramos obrigados a correr dos seguranças usando as escadas de serviço próximas ao banheiro ou exploravamos o mesanino, que ao contrário de hoje não tinha nenhuma loja e servia como uma espécie de passagem secreta escura de um lado ao outro do Shopping quando era necessario escapar de uma investida de vários seguranças. Um amigo meu sempre levava a lanterna, instrumento bastante valioso para nossas retiradas estratégicas através do mesanino escuro.  O que faziamos no final da década de 1970 não tinha nome, mas se fosse hoje certamente seria chamado de “Rolezinho”.  Ha, ha, ha… 

  3. Fábio de Oliveira Ribeiro

    16 de janeiro de 2014 11:33 am

    Mano, na boa… estou cada

    Mano, na boa… estou cada vez mais surpreso com a situação precária da segurança no Estado de São Paulo.

    http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/01/1398366-adolescente-gay-e-achado-desfigurado-apos-se-perder-em-festa-em-sp.shtml

    O garoto foi mutilado e o BO é de suicídio? Fala sério. 

    É evidente que neste caso tem “mano” dentro da Polícia protegendo os “skinheads killers!” 

    Esta semana vimos a PM dar tiros de borracha e soltar bombas de efeito moral para dispersar o Rolezinho num Shopping. Pelo visto os “tiras” paulitas detestam Rolezinhos de pobres, pretos e pardos da periferia, mas tem uma predileção bestial e mórbida pelos Rolês assassinos dos garotos brancos e bem nascidos das áreas nobres.

    O governador Alckimin precisa urgentemente esclarecer que tipo de Rolê ele apoia. Afinal, no Estado governado por ele  Rolê de garoto negro em Shopping é reprimido pela PM. Mas Rolê de branco assassino racista a Polícia libera. Foi ele que inventou este critério?

     

  4. adolpho

    16 de janeiro de 2014 12:44 pm

    Totalmente forçado, esse

    Totalmente forçado, esse post.

    Estão poltizando um evento que não tem nada a ver com qualidade, assim entendendo atributos do tipo: cor de pele, indumentária, situação social. Tem a ver com quantidade: um grupo com elevado número de pessoas, que possui inerentemente um grande potencial para causar tumulto.  Ou alguém, antes do tais rolezinhos, já viu alguém por ser pobre, preto, amarelo ou vermelho ser barrado em QUALQUER shopping deste país? 

    1. Francisco Pinto

      16 de janeiro de 2014 1:30 pm

      Não costumo ver seguranças de

      Não costumo ver seguranças de shoppings barrarem pretos ou pobres que andam em pequenos grupos, e moro no sul, onde a população negra é relativamente menor, o que favoreceria o racismo. Mas mesmo que barrassem, não seria necessariamente racismo. Sou branco como as roupas das propagandas do Omo, ganho um salário bem alto (funcionário público, auditor) e já fui barrado andando sozinho por não estar bem vestido. Um colega de trabalho também já relatou o mesmo. Às vezes as coisas não são exatamente o que os “defensores do povo” gostariam que fossem. Estes até têm boas intenções às vezes, mas acabam perdendo credibilidade quando sua ideologia passional lhes faz fantasiar a realidade.

      1. adolpho

        16 de janeiro de 2014 3:41 pm

        Vc reforço minha tese. Vou

        Vc reforço minha tese. Vou reproduzir aqui o comentário que postei no “Vi o mundo”, em resposta a um outro comentário:

        “Ainda bem que vc se tranquilizou, meu caro. Pois a reação aos rolezinhos por parte dos famigerados capitalistas lojistas é da mesma natureza de um dono de blog que trava a presença de gente que não lhe interessa. Assim como um blog, um shopping é um espaço privado que pode ser acessado pelo público. Um bloqueiro, por exemplo um Eduardo Guimarães, um Azenha, um Nassif, um Reinaldo Azevedo muitas vezes pé alertado pelos frequentadores de sua preferência, que o espaço está seno invadido por trolls ou petralhas. O que ele faz? Depende… alguns limam os trolls ou petralhas de imediato (Reinaldo Azevedo, Eduardo Guimarães), outros o fazem quando a presença dos “indesejados” se dá em nível tal que podem afastar o público que lhes interessa, porque foram alertados por esse mesmo público (na base do “ou eles ou eu!”). É o caso do Nassif – que já mandou para fora de eseu espeaço muitos comentaristas. Alguns desses comentaristas podem até se queixar de estar violado o seu direito de livre manifestação, mas todos entendem perfeitamente que o blogueiro tem todo o direito de assim proceder, uma vez que é um espaço virtual privado, com custo de manutenção e que seu “retorno” é a audi~encia que tem. Por que é tão difícil compreender que um shoppinh é um espaço privado, com custo de manutenção e que o seu “retorno” é dado pela sua potencial frequencia? Tem tanta luta de classes entre os comentaristas dos blogs, quanto entre os frequentadores de shopping…”

        1. Francisco Pinto

          16 de janeiro de 2014 5:11 pm

          Muito interessante a

          Muito interessante a comparação blogs-shoppings, mas acho que o Nassif é um tanto mais tolerante ao pensamento não-alinhado com o dele que o Reinaldo Azevedo. Uma vez fui banido de um texto do Reinaldo, sem ter feito nenhuma grosseria, porque rebati umas noções puritanas-moralistas-conservadoras-cristãs-aurotitárias que o Reinaldo e seus discípulos estavam vomitando contra direitos gays e educação sexual nas escolas públicas.

  5. Frederico69

    16 de janeiro de 2014 12:57 pm

    é verdade

    já tinha conhecimento deste fato, e apresentado neste momento, não tem como não perceber a correlação.

    realmente deve ter sido o primeiro rolê da história.

  6. Juliano Santos

    16 de janeiro de 2014 1:09 pm

    A grande diferença da

    A grande diferença da discriminação nos EUA e aqui no Brasil é essa. Lá é asssumida, aqui dissimulada. Como disse o autor do post, no papel os shopings não impedem que pobres, principalmente pretos entrem. Mas fazem o possível para tornar esse fato muito pouco provável.

    Eles na verdade esperam que os pobres cumpram sua parte numa espécie de trato implícito. Ou seja, que saibam “seu lugar”. Se um deles com “aparência suspeita”, está sozinho, até entra, mas os seguranças ficam em alerta. Tudo isso tem que ocorrer da forma mais discreta possível, para manter a “normalidade” e não assustar os clientes “adequados”.

    Somente o rolezinho com seu barulho quebra esse acordo não escrito. E tudo que a sociedade queria fingir que não existe vem a tona. Só assim que se encara um problema, escancarando-o. Nesse sentido esses jovens são muito mais orgânicos politicamente, que os coxinhas e black blocs de junho.

    PS: Me incluo nessa. Acabei de comprar uma bicicleta nova. Estarei mentindo se disser que não fico apreensivo ao ver um negro com jeito “funkeiro” se aproximando. 

  7. josimar

    16 de janeiro de 2014 4:47 pm

    o filme “o mordomo”

     

    O filme “O mordomo” recria muito bem o evento do post. 

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