O empreendedor imobiliário Donald Trump, à direita, e seus filhos, Eric, Ivanka e Donald Jr., participaram de uma conferência de imprensa no Hotel e Torre Trump International em Chicago (Amanda Rivkin – 24.set.2008/AFP)

Jornal GGN – O britânico Ian McEwan, em artigo, faz uma análise mordaz da eleição de Donald Trump. Traz, como início, a incapacidade de Darwin acreditar que Deus pudesse criar uma vespa parasita que injeta os ovos no corpo de uma lagarta e a larva vai consumir a hospedeira viva. A partir daí discorre sobre o que seria, no mundo, o famoso dois passos para frente e um para trás, quando começaremos a ver um ‘presidente Trump’ sem incredulidade, ou mesmo sem gargalhada.
E considera isso um perigo. Passaremos a ver esta tragédia de ter Trump como a pessoa mais poderosa do mundo como algo normal. Uma pessoa que se diz preparado para atacar a democracia liberal, o discurso racional, e toda espécie de decências civis, que ele descreve como correção política é uma temeridade. Irão para o lixo acordos importantes, como o Acordo de Paris sobre o clima, o pacto nuclear com o Irã e vários acordos comerciais.
A lista de mazelas não é pequena. Leia o artigo a seguir.
na Folha
Risco é achar normal Donald Trump na Presidência
Ian McEwan
ESPECIAL PARA O “GUARDIAN”
Charles Darwin não conseguia acreditar que um Deus bondoso pudesse criar uma vespa parasita que injeta seus ovos no corpo de uma lagarta para que a larva possa consumir a hospedeira viva.
A vespa da família Ichneumonidae desafiou a fé de Darwin, que já estava minguando. Podemos compartilhar sua perplexidade hoje, quando contemplamos o organismo político americano e a coisa repulsiva que se aninhou em seu interior, esperando o momento de eclodir e começar a fazer sua refeição.
A descrença atônita, uma condição à qual estamos começando a nos acostumar, é uma forma de negação que some rapidamente, mas não de modo suave. Ela desaparece em passos: dois passos para frente, um para trás. Mas até o dia da posse presidencial, em 20 de janeiro, já articularemos as palavras “presidente Trump” sem incredulidade ou gargalhadas.
O perigo é que comece a parecer normal essa tragédia singular de automutilação nacional em que um suspeito embusteiro (a ação judicial contra a Trump University, uma entre muitas, começará a ser julgada em 28 de novembro), essa pessoa vulgar, narcisista e cínica, dotada de intervalo de atenção limitado, se tornará o homem mais poderoso do mundo.
Trump está preparado, segundo ele próprio diz, a deslanchar seu ataque à democracia liberal, ao discurso racional, a toda espécie de decências civis, descritas por ele como correção política.
Haverá comentaristas e asseclas ansiosos para nos persuadir de que a nova situação é aceitável. Mas a disputa pela Presidência demorou demais e revelou demais para poder ser esquecida.
É do governador de Nova York, Mario Cuomo, uma frase que ficou famosa: “Faz-se campanha em poesia, governa-se em prosa”. Bem colocado. Se é verdade, então a poesia de Trump foi misoginia, ódio racial, xenofobia, mesquinha sede de vingança, ignorância insensata.
Praticamente não houve um único impulso humano tenebroso que ele deixou de revelar ou explorar quando fez campanha.
E, se essa foi a poesia, o que podemos esperar do gênero menor, a prosa? Se por acaso Trump falou a sério (seus partidários estarão de olho), será um governo feito de fogueira no qual serão atirados o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, o arduamente negociado pacto nuclear com o Irã e acordos comerciais diversos.
Ele terá de pressionar a Arábia Saudita e o Japão a se dotarem de armas nucleares; terá de enfraquecer o aspecto atual de assistência da “obsoleta” Otan, com isso criando o risco de uma incursão russa nos países bálticos; terá de aniquilar famílias de terroristas; iniciar uma guerra comercial com a China, por meio de um protecionismo desacreditado; restaurar a tortura como braço da política externa; construir um muro de 3.200 quilômetros de extensão ao longo da fronteira mexicana, barrar a entrada de muçulmanos no país e elevar muito os gastos militares.
E, no âmbito interno: sobretudo, “trancafiar” sua adversária, conforme o prometido em mil comícios eleitorais; perseguir jornais hostis; atacar as mulheres que o acusaram de assédio sexual; reduzir os impostos, especialmente para os super-ricos; abolir a reforma da saúde promovida por Obama e deixar 24 milhões de pessoas sem cobertura médica; “gerar” 20 milhões de empregos em dez anos; jogar por terra os regulamentos ambientais; relançar a indústria do carvão; deportar imigrantes ilegais aos milhões; lotar a Suprema Corte de conservadores ideológicos, à medida que forem surgindo vagas.
É deveras prosaico, e, esperemos, boa parte disso pode ter sido meras promessas de campanha, impossíveis de cumprir. Mas é essa a mentalidade, e este será um presidente com poder tremendo sob seu comando, com a Câmara e o Senado.
O Tea Party –a facção João Batista de Trump–, nos tempos de Obama tão altiva em relação aos empréstimos contraídos pelo governo, descobrirá que já não se importa mais tanto com a dívida. E, em torno de nós, não americanos, a ordem mundial vai obrigatoriamente começar a mudar. Estaremos ingressando na Era do Tirano?
A América se vê diante da possibilidade de acrescentar o nome de seu líder aos de Putin, Xi Jinping, Assad, Sissi, Erdogan, Netanyahu, Duterte, Nazarbayev, Lukashenko… Uma vergonha, mas algo inteiramente possível com um presidente que tão ostensivamente despreza ou ignora a história constitucional de seu país e sua tradição de liberdade de expressão.
O mundo depositará sua esperança na força das instituições democráticas americanas e no bálsamo dos conselhos sensatos, se bem que o mundo visto por Newt Gingrich [um dos principais aliados de Trump] não seja uma perspectiva tranquilizadora.
Enquanto isso, há algumas lições difíceis a serem aprendidas. A chamada “maré populista” comum à Europa, além dos Estados Unidos, apresenta à esquerda democrática um problema singular, um círculo que esta ainda não conseguiu quadrar.
Os seguidores tradicionais da esquerda estão se afastando dela. Assistimos a uma revolta de cidadãos contra a globalização e ambições multiculturais de elites. É uma crise de identidade, um sentimento da classe trabalhadora de ter sido traída.
As preocupações com as portas abertas dos países foram desprezadas facilmente demais como sendo estupidamente patrióticas, ignorantes ou racistas. Com isso, deixou-se o espaço eleitoral aberto para a direita demagoga, para sites conspiratórios.
É um problema que, no Reino Unido, o Partido Trabalhista, sob o comando de Jeremy Corbyn, ainda não encarou -e que é singularmente difícil. É mais provável que existam mil respostas pequenas ao problema que uma só solução grandiosa.
Abolir as escolas religiosas no Reino Unido que segregam nossas crianças de maneira prejudicial constituiria um pequeno passo. A experiência americana, além do próprio plebiscito britânico sobre a UE, demonstraram um paradoxo familiar: são as comunidades mais rurais, completamente brancas, que mais temem a imigração, enquanto as metropolitanas e miscigenadas a temem menos. A familiaridade não gera o pouco-caso.
Daqui a pouco o novo presidente americano estará drenando o pântano de Washington, aquele que se mostrou apropriadamente generoso, tanto no discurso de aceitação de Hillary Clinton quanto na acolhida que os Obama deram a Trump e sua mulher na Casa Branca.
O presidente em fim de mandato, a primeira-dama e a candidata democrata derrotada, todos compreendem a importância de uma transição ordeira. Trump, se tivesse sido derrotado, não teria de longe sido igualmente maduro; tinha ameaçado declarar a eleição fraudada, cegamente correndo o risco de agitação perigosíssima. Ele é uma criança ignorante e mal-humorada, estranhamente promovida para uma posição superior à dos adultos.
É bem possível que seja contido por assessores sábios, restrições constitucionais e realidades práticas, mas a preocupação continua a ser o caráter. Haverá crises, e ele terá de lidar com elas. Ele não parece ter capacidade, nem sequer ser estável.
Apesar de suas falhas, o processo eleitoral americano põe os candidatos sob pressão para revelarem seu eu interior. Os comentaristas se voltaram ao respeitado manual de doenças mentais, o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), para tentar definir o transtorno de Trump. Narcisismo maligno? Transtorno de personalidade limítrofe? Ou, como propôs Christopher Buckley, transtorno de personalidade limítrofe mexicana?
A esperança é que Trump tenha mentido aos partidários em seus comícios, mas, se por algum azar maldito ele conseguir realmente governar como fez campanha, quando se projetou como autocrata e misógino, intolerante de qualquer dissensão, indiferente aos limites presidenciais, ansioso por autorizar a tortura, racialmente hostil, então teremos que reconhecer que os EUA elevaram para seu cargo mais alto um fascista que se faz passar por qualquer outro nome.
No momento, soa improvável. Mas será apavorante.
IAN MCEWAN, 68, é britânico e autor de ‘Reparação’ e ‘Amsterdã’, entre outros
Tradução de CLARA ALLAIN
alfredo sternheim
15 de novembro de 2016 12:49 pmQuem é o vice?
É impressionante como os articulistas políticos daqui e dali, bem como parte do povo em geral, dão pouca importância ao vice presidente. Trump é idoso, mas nada sabemos sobre o seu vice presidente, que tem chances de assumir a presidência. Não consegui ainda encontrar na mídia uma informação a respeito . O mesmo se deu quando da última eleição para presidente no Brasil. Dilma foi eleita e pouco nos preocupamos com a manutenção de Michel Temer como vice presidente. Deu no que deu. PT e outros foram levianos na ocasião em que se formou a chapa.
Antonio C.
15 de novembro de 2016 1:10 pmA análise política de um impotente.
Muitos analistas deveriam observar duas vezes o que pretendem publicar. O caso é que revela mais a face do analista do que da situação analisada.
Que o Trump seja desonesto, mentiroso, dentre outras virtudes (sic), é sabido. Mas por qual motivo se fixar numa atitude do Trump do que olhar as condições que produziram a ascensão de Trump à presidência.
Verdade que os jornalões, a imprensa brasileira, no grosso – a título de exemplo e comparação – gosta deste tipo de minúcias para desqualificar o oponente. Se for da esquerda (qual?), nem se fala.
A diferença essencial é que os jornalões fazem isso para estimular emocionalmente uma posição política, algo muito próximo ao nazifascismo, enquanto que o analista usa isto como uma forma de aliviar a própria raiva e impotência diante de um fenômeno que não tem a capacidade de controlar.
OK, é muito divertido algumas vezes rir do oponente, sempre mais medíocre, iletrado e tosco do que nós. E a História mostrou ao menos um caso em que a pessoa que agiu assim contra o seu oponente acabou, anos depois, morto com uma picaretada na cabeça. E não foi o oponente quem diretamente o feriu de morte; foi alguém a mando.
O nosso analista não faz um exercício de etnopsiquiatria e muito menos uma análise política consequente. Neste aspecto, o Michael Moore foi acertado, no geral. E por qual motivo? Pelo fato de ele ter os pés no chão, nos acontecimentos. O processo de desindustrialização dos Estados Unidos foi brutal e a conta não caiu nem para o lado republicano nem para o lado democrata no nível que deveria. Como os republicanos tem sempre um inimigo na manga pra convencer a opinião pública e os democratas nem sempre sabem pra onde vão (opinião pessoal formulada na base da pergunta: realmente Hillary é mais confiável que Trump???)… Analise estes aspectos à luz do sistema eleitoral norte-americano (com todas as suas dificuldades), a composição dos delegados e dos eleitores, o comportamento e pensamento dos cinturões bíblico, (des)industrial, etc. etc. etc, e você terá uma anaĺise que mostra como Trump não foi apenas possível, mas normal.
O nosso analista poderia ser mais moderno – ao menos uma vez – e lembrar que uma explicação do real ou uma teoria não passam de representações do real e não as próprias coisas e que, por causa disto, as próprias coisas escapam da compreensão.
Isso evitaria manobras defensivas contra uma provável depressão.
Maria Luisa
15 de novembro de 2016 2:16 pmVem turbulência pela frente
Trump, se tivesse sido derrotado, não teria de longe sido igualmente maduro; tinha ameaçado declarar a eleição fraudada, cegamente correndo o risco de agitação perigosíssima. Ele é uma criança ignorante e mal-humorada, estranhamente promovida para uma posição superior à dos adultos.
Qualquer semelhança com o Néscio das Neves não é mera coincidência…
Marcos I Mendes
15 de novembro de 2016 2:23 pmdiscordo
Primeiro, me desculpe pela opinião divergente. Segundo, se saiu na Folha, não leia. Terceiro, é incrível ainda alguém achar que o presidente (qualquer um, inclusive os das megacorporações, incluindo os bancos que nem conhecemos o nome, microsoft, face, google, igrejas, mídia etc) tem algum tipo de poder. É desconhecer completamente a História (sim, sei quando usar maiúsculas).
Quarto, eles revezam democratas e republicanos (não que haja diferenças). Mas o importante é que nos últimos meses houve uma guinada: das Kapital decidiu não usar mais a Killary (usá-la ou não ou quaisquer outros é irrelevante) e usar o Drump. Quiçá para manter a aparência de democracia. Na verdade desistiram de destruir para tomar: é mais barato apenas tomar (como aqui ou em quaisquer outros lugares). Se houver a mínima resistência, mínima, como houve abusadamente aqui, partem para a ignorância. Quinto, desistiram de destruir a Rússia e vão fazer dela o que fizeram na China. O dinheiro da China é das corporações: são elas que estão produzindo lá, não os “empresários” ou o governo ou o povo chineses.
Sexto. É óbvio que isso não melhorará a vida dos 80% que não consomem. E os inúteis serão dizimados através das “brigas entre as tribos” ou através dos nossos pratos de comida.
Agora tenho de provar. Parte fácil. Alguma vez na história milenar, mesmo que por uns dias, mais de 20 ou 30% da humanidade se beneficiaram, de alguma forma ou qualquer forma, da “evolução”, da “civilização”, do “crescimento espiritual”, da tecnologia, dos meios de informação ou o quer que os senhores citem?
Alguma vez, mais de 20 ou 30% se beneficiaram da dignidade, da liberdade, da democracia, do capitalismo, do socialismo, do mérito, do livre arbítrio, do respeito e o que mais os senhores pensarem?
Bom, se você quiser saber como a economia deveria funcionar, leia o Nassif. Só saiba que quem está lá em cima não é idiota. Se a economia funcionasse como deveria, aquelas porcentagens aumentariam e a igualdade prevaleceria e isso é contra a natureza humana, primeiro. E, claro, por que seria do interesse dos ricos ficarem mais pobres ou ter menos poder? Amigos, isso nunca aconteceu, é fato. Então me digam: por que algum dia aconteceria? Por favor, não sejamos ingênuos. A catástrofe a que estamos condenados é irreversível pela nossa própria natureza e a Natureza em si funciona da mesma forma.
Não é “pessimismo”: é apresentar as cartas sobre a mesa. E não é minha opinião: é o que leio nas mais diversas fontes.
Gostaria que alguém demonstrasse o oposto. (Mas sem citar Jesus, pelo amor de deus.)
Rui Ribeiro
15 de novembro de 2016 4:46 pmTodo mundo achava normal Saddam Hussein governar o Iraque
O que ninguém acharia normal era que o Führer e o Duce tivessem o fim que tiveram.
Andre B
15 de novembro de 2016 5:39 pmO perigo é que o que Trump representa já foi normalizado.
Concordo com alguma criticas nos comentários à abordagem psicológica do artigo. No final das contas parece que normalizar Trump é um perigo porque ele é um louco. Mas isso é normalizar o que o Trump representa politicamente diminuindo o significado politico da eleição dele. Não é a loucura de Trump que foi normalizada .Digo já foi normalizada porque ele foi eleito, ele representa isso. Mesmo que volte atrás em tudo isso, o que ele represente já foi normalizado, foi aceita e está representada. A serpente já saiu do ovo.
O que foi normalizado é a a politica do ódio generalizado, a politica da divisão da população trabalhadora e pobre em benefício do grande capital – as ações das corporações financeiras estão bombando em Wall Street com as perspectivas de ganho no governo Trump -, a politica da nação homogenea sem diferenças, como “raça”, do chovinismo nacionalista, do tudo para o meu país e que se dane o resto da humanidade, onde o humano é só o igual, a politica da mentira repetida mil vezes até todos acreditarem (por exemplo, “Wall street perdeu”!). Esse é o elemento ‘outsider’ e ‘antistabilishment’ que agora passou a ser parte do normal e que tanta gente no Brasil está achando lindo: os dois minutos de ódio do 1984 de George Orwell. O pior é que não serão só dois minutos.
Pior que achar isso normal é achar que é bom. E muita gente no Brasil que na esquerda, que é o correspondente aos ‘cabeças de planilha’ da direita, está vendo o Trump não só como bom porque vai acabar com ‘o neoliberalismo’ e a ‘globalização’. Estão tapando os olhos e os ouvidos para não enxergar o horror (prefiro acreditar nessa hipótese), o fato de que ele representa o capitalismo mais nú e cru, despudorado, sem mais nenhum verniz de civilidade que já se desgastou todo, o capitalismo que não precisa de declarar guerras porque normaliza a guerra civil permanente entre os trabalhadores.
É a prosperidade para o capital e a paz dos cemitérios para os trabalhadores.
aureliojunior50
15 de novembro de 2016 8:41 pmAceitem……
Academicos, jornalistas, editores, pesquisadores, a “intelligensia” em geral :
Voces PERDERAM, erraram, fizeram besteira, continuar nesta toada de medinho, de mergulhar na paranóia, ficar regurgitando asneiras pelos cantos, não irá resolver nada, façam como o mercado, como Wall Street, e redifinam seus parametros o mais rapidamente possivel, até Donald já desceu do palanque.