4 de junho de 2026

Na Aldeia Maracanã, a copa da violência

Camila Nobrega e Rogério Daflon

A violência da Polícia Militar contra indígenas da Aldeia Maracanã se intensificou desde o último domingo (15/11). Os indígenas e manifestantes que os apoiam alegam que o governo do Estado do Rio e o consórcio da obra do Maracanã não podem derrubar as casas do entorno do Museu do Índio, porque elas integram o complexo do museu em mais de 14 mil metros quadrados. E, por isso, resolveram resistir. Até o momento, o índio José Guajajara permanece numa árvore. A cena já virou símbolo da luta indígena. Kemakwin Xukurú Itápewa, um dos índios que foi preso ontem, contou que a tropa de choque chegou ao museu às 19h28 de domingo, exigindo que todos saíssem, sob alegação de que ali seria feita uma reforma. Como os índios e ativistas não saíram, houve, diz Itápewa, agressões. Em março, os índios que ocupavam o local foram retirados com truculência, gás lacrimogêneo. E nos últimos dias, resolveram voltar lá.

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– Eles queriam derrubar as casas ao lado que pertencem ao museu. Como perceberam que resistiríamos, resolveram avançar sobre nós. Um parente meu tupinambá recebeu um soco no estomago, e duas ativistas também foram agredidas. Uma ativista grávida estava conosco. Os policais também nos agrediram verbalmente, com xingamentos e ironias. Pelo Estatuto do Índio, eles não podem nos encostar. Agiam como se não soubessem disso. E me deram uma gravata – diz Itápewa, acrescentando que ontem todos foram levados para a 18ª DP (Praça da bandeira).

Apenas a Polícia Federal pode deter indígenas. A midiativista Joana Carvalho, que acompanhou a ação no local, contou que um negociador foi içado por uma escada do Corpo de Bombeiros para falar com José Guajajara. Ele está desde ontem sem comer, só recebeu um pouco de água.

– Há cerca de 300 manifestantes fazendo barulho, em apoio a Guajajara. Houve muita truculência na retirada dos outros indígenas e ele está resistindo muito – disse Joana.

O governo do Estado alega, como diz o site G1, que o espaço foi adquirido do Ministério da Agricultura e será incorporado ao Complexo do Maracanã.

A área é reivindicada na Justiça desde outubro de 2012 pelo movimento indígena. A entrada no espaço foi iniciada neste domingo, por volta das 17h de forma pacífica. Conforme o Grupo de Trabalho que dá suporte jurídico e discute a questão fundiária do território reivindicado como reserva indígena, a ocupação ocorreu como forma de defesa do patrimônio histórico e imaterial nacional e indígena, contra a destruição, em curso, das edificações presentes no espaço. As lideranças do movimento afirmam que o governo do Estado não está cumprindo com os compromissos. O contrato de gestão privada do Complexo do Maracanã ainda não foi desfeito nem mesmo revisto.  Ao menos o Museu do Índio foi tombado este ano pela prefeitura após muita luta.

Como sempre, a falta de diálogo imperou. A Polícia Militar impediu que comida e mantimentos chegasse ao índio na árvore. A imagem é uma metáfora do Brasil, país que tem entre os índios o grupo mais vulnerável à fome, segundo o Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea). A perda dos territórios em função de megaempreendimentos em todo o país está retirando milhares de indígenas de suas terras.

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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