O “vídeo bomba” e a largada para 2022, por Eduardo Borges

Ouso dizer que após a divulgação do vídeo a campanha presidencial de 2022 teve seu primeiro marco temporal e seu ponto de partida.

O “vídeo bomba” e a largada para 2022

por Eduardo Borges

Nem sempre reafirmar o óbvio é um grande problema. Nesses tempos de constante ameaça à nossa sanidade mental, repetir o óbvio é até uma estratégia de resistência racional. O óbvio que quero repetir nesse texto é a tese de que o bolsonarismo não pode ser analisado com os tradicionais instrumentais teóricos da ciência política. O bolsonarismo deve sempre ser visto como um universo paralelo que ultrapassa todos os limites do que entendemos sobre civilidade, equilíbrio e razão.

Na sexta feira o Brasil parou para assistir o famoso “vídeo-bomba” de uma reunião ministerial do governo Jair Bolsonaro. A própria expectativa da sociedade sobre o vídeo diz muito sobre o momento em que estamos vivenciando.

Entretanto, deu-se aquele típico episódio em que o tamanho da expectativa foi proporcional ao tamanho da decepção.

O desafio que me proponho nas linhas que se seguem é apresentar uma ideia de como está configurado hoje, no Brasil, o conjunto dos principais segmentos envolvidos na luta política do país.

Usarei, para tanto, o envolvimento em torno do vídeo da reunião ministerial para caracterizar esses grupos de interesses que hoje formam as correlações de força sociais e políticas do país e qual o impacto no projeto político desses segmentos em vista a 2022.  Ouso dizer que após a divulgação do vídeo a campanha presidencial de 2022 teve seu primeiro marco temporal e seu ponto de partida.

A ascensão de Jair Bolsonaro ao poder estabeleceu alguns parâmetros que reorganizou a sociedade civil brasileira em segmentos bem definidos.

O primeiro segmento é formado por ex-bolsonaristas transformados em moristas e que enxergaram no conteúdo do vídeo a confirmação da palavra de honra de seu líder maior, o ex-juiz Sérgio Moro, e a legitimação definitiva de sua caminhada rumo ao Planalto. Em torno de Moro temos uma parcela da sociedade de extrema direita e de direita que buscam em Moro algum simbolismo de sofisticação que os afaste da imagem tosca do capitão. Talvez, em se viabilizando politicamente, Moro possa atrair nomes de peso da direita, agora “decepcionados” com o bolsonarismo. Por enquanto, para esse grupo de apoiadores do ex juiz de Curitiba, o vídeo foi um golpe duro que precisa rapidamente de um contragolpe.

Um segundo segmento é formado pelos políticos do Centrão, em lua de mel com o capitão, que por sua tradição fisiológica e adesista a qualquer governante de plantão (eles estão aí de Sarney a Dilma) precisam se manter no limite do prudente. O Centrão segura a mão do aliado até quando isso esteja revertendo em benefício político e financeiro. Desprovidos de limites éticos e  morais, esse grupo segue sempre a favor do vento. Certamente que eles estavam esperando com bastante expectativa o nível de nitroglicerina do vídeo e o impacto no projeto do grupo. Para o Centrão, seja Bolsonaro ou Mourão, o que importa é a manutenção dos cargos. Portanto, uma queda eventual do capitão em nada mudaria sua estratégia. Se o vídeo tivesse potencial para derrubar o presidente, eles estariam rapidamente nesse barco. Mas diante da fragilidade do vídeo, que não apresentou provas suficientes e incontestáveis de que Bolsonaro visava especificamente a PF do Rio de Janeiro para uso privado, o Centrão tratou de fazer o que faz de melhor, defendeu o capitão e, por tabela, manteve sua condição de puxadinho de qualquer governo.

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O terceiro segmento, que certamente já tinha preparado a pipoca, é formado pela oposição de esquerda que enxergava no vídeo uma possível bala de prata no coração do capitão com força suficiente para mobilizar em direção ao Impeachment o até agora inerte Presidente da Câmara Rodrigo Maia. O fato é que no que diz respeito à questão da interferência da PF o vídeo não apresentou provas com força jurídica suficiente para constranger o procurador-geral da República em apresentar uma denúncia contra Bolsonaro. O caminho para o arquivamento do inquérito está devidamente pavimentado. A esse grupo, resta, a principio, esperar um resultado de pesquisas confiáveis pós vídeo, e buscar fazer a leitura mais equilibrada e verossímil dos próximos passos. 2022 se tornou logo ali. Talvez esse segmento tenha definitivamente entendido que não se desconstrói o bolsonarismo, usando as armas do próprio bolsonarismo. O fato de se tratar de um conjunto de discursos, sem a necessidade de um desdobramento na vida real, as chances do vídeo ministerial favorecer ao projeto de radicalização da esquerda eram baixas. O discurso populista é a única arma que sustenta Bolsonaro, já que o mesmo sempre foi destituído (desde a campanha) de um projeto estratégico para o país. Para a horda de seguidores da seita é o discurso moralista, populista e tosco que os nutre e os mantem fiéis ao mito. A esquerda precisa fugir dessa armadilha e aproveitar a explícita incompetência do governo em propor políticas pública em tempos de pandemia, para apresentar ao conjunto da sociedade saídas concretas para a crise de hoje e do futuro. Contudo, tem pela frente, antes, o desafio de resolver pendências que dizem respeito à sua unidade de luta. Fragmentada como está, fragiliza o discurso e impede a construção de um projeto para o país que o faça retomar a normalidade democrática, o crescimento econômico, a distribuição de renda, a diminuição da desigualdade social e o respeito aos direitos humanos e trabalhistas.

Um quarto segmento, ainda no campo progressista, é formado pelos sites e canais que se identificam com um projeto de esquerda. Esse grupo tem se mostrado bastante heterogêneo, pois, apesar de se identificarem com o campo progressista, fazem uma disputa subliminar entre eles em decorrência de aproximações mais fortes com alguns segmentos do campo como o lulismo e o cirismo. O grupo tem buscado incluir até mesmo youtubers arrependidos e em franca direção de reposicionamento de marcas, turbinados por uma estratosfera de seguidores, adquiridos no tempo em que ainda valia a pena para imagem deles se mostrarem antipetista e golpista. O impacto, nesse grupo,  do vídeo da reunião ministerial foi, em alguns casos, constrangedor. O que vimos foi um exercício hercúleo da parte de alguns deles para ainda manter em alta a expectativa em torno do conteúdo. Acredito, porém, que o golpe já foi assimilado e eles tiveram a possibilidade de entender como funciona a lógica invertida e amoral do bolsonarismo. Portanto, pela qualificação intelectual e crítica de seus membros, é um segmento que ainda pode prestar um grande serviço à democracia e se constituir em boa resistência, principalmente no campo da disputa de narrativas e de discursos, mas para isso vai precisar se reinventar definindo de forma mais clara uma agenda e um campo de unidade.

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O quinto segmento é o da grande mídia, aquela que o saudoso Paulo Henrique Amorim chamava de PIG (Partido da Imprensa Golpista). Capitaneado pelo Grupo Globo, Estadão, Folha de São Paulo entre outros, esse segmento vive seu inferno astral fruto de um passado golpista e inconsequente. Atiraram no antipetismo e ajudaram a matar a democracia e a política. Caíram na armadilha do moralismo seletivo da LavaJato do doutor Moro, e nem perceberam (ou sim) que estavam servindo para fazer o trabalho sujo que pavimentaria a ascensão do capitão Jair. Que ironia, o feitiço, literalmente, virou contra o feiticeiro. Depois de uma série de editoriais críticos aos desmandos e ao obscurantismo do governo, o vídeo “bombástico” se transformou também em uma kriptonita nas mãos da grande imprensa. A partir das 19:00 horas da sexta feira, o que foi possível assistir em seus telejornais foi uma desesperada tentativa de vender o vídeo no varejo, buscando construir uma narrativa bombástica no atacado, os anos de luta contra o petismo lhes deu vasta experiência.  Para eles, seguramente, 2022 também já começou. O próximo passo é iniciar o processo de depuração de um nome que lhes dê unidade e demonstre possibilidades de se viabilizar como forte concorrente ao capitão e ao candidato do campo progressista. Aos poucos os nomes vão aparecer. Alguns estão se viabilizando via Covid 19 (Dória – Witzel – ACM Neto) ou em paralelo ao Covid (Huck – Amoedo) é  esperar os próximos blocos e editoriais.

O sexto segmento é formado pelo conjunto das instituições da República (principalmente do campo jurídico) e por segmentos da sociedade civil organizada (OAB – ABI – CNBB entre outros). O governo do capitão já deu provas suficientes que esses segmentos são seus adversários e é para resistir contra eles que ele pretende armar a população. Desde a época do chamado julgamento do mensalão até o final das eleições de 2014 em que o candidato derrotado, Aécio Neves, iniciou o processo de difamação das instituições, que o Brasil se viu em meio a uma grande crise moral jurídica. A Lava Jato trouxe para o campo jurídico a politização da justiça e escancarou o seletivismo dos nossos eminentes juízes e ministros do STF. O juiz Sérgio Moro e seus Procuradores amestrados achincalharam o devido processo legal e o Estado Democrático de Direito tudo sob o olhar benevolente e, em alguns casos, cumplice dos nossos agentes do Direito. Quando finalmente o capitão chegou com sua sensibilidade de uma vaca em uma loja de cristais, acompanhado por seu “acepipe”, o ministro Weintraub (que quer mandar todos eles para a prisão), além do cabo e do soldado do Eduardo 03, já era tarde demais. Agora é aguardar o capitão armar toda a população e esperar pela instauração de um novo regime que certamente será algo parecido como uma “República Democrática Popular Autoritária e Armada do Brasil”. Com a palavra nossos operadores do Direito.

No último segmento, temos os membros da futura “República Democrática Popular Autoritária e Armada do Brasil” formada por toda horda de seguidores do mito. Aqueles que depois do vídeo devem ter ficado como pinto no lixo. O que para um segmento da sociedade representou um discurso cretino e autoritário, para os seguidores do mito a fala do capitão no vídeo foi somente a reafirmação de sua condição de mito. Alguém já afirmou, com propriedade, que nem todo bolsonarista é um canalha, mas que todo canalha é bolsonarista, o vídeo foi a legitimação da frase. Em tempos de pandemia fala-se de que teremos um “novo normal”. Os bolsonaristas já vivem nesse novo normal faz tempo. O espetáculo de cafajestagem, vulgaridade tosca,  populismo de segunda classe e  desrespeito aos poderes estabelecidos, presentes no vídeo ministerial, formam os valores adormecidos, agora despertados, desse “normal bolsonarista”. Para eles, se 2022 estava perto, após o vídeo, 2022 já chegou. Qual o preço que a sociedade e a democracia vão pagar, só o tempo dirá, e só a resistência do conjunto da sociedade, que não se identifica com esses valores, nos fará sobreviver até 2022.

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PS : o fato de não ter identificado a bala de prata no coração político do capitão, não significa que o vídeo em questão não tenha importância no conjunto das críticas ao governo Bolsonaro. A ausência quase que completa da pandemia na pauta da reunião só demonstra o completo distanciamento do governo diante dos reais problemas da população. As falas boçais do presidente e alguns de seus ministros só desnuda ainda mais que eles não se constrangem em fazer m… tanto no público quanto no privado. A pauta obsessiva em torno dos costumes deixa claro que essa gente chegou ao poder exclusivamente para impor  o obscurantismo e o ódio. E algumas afirmativas feitas no vídeo claramente podem ser interpretadas como crime, o que se espera, no mínimo, é que seja solicitado esclarecimento pela justiça, afinal, trata-se do presidente da República, maior autoridade do país. A não ser que realmente já tenhamos virado uma republiqueta de bananas.

Mas deixo essa análise mais especificamente jurídica para meus colegas aqui no GGN ou nos diversos veículos progressistas espalhados pelo país.

Eduardo Borges – Doutor em história, professor adjunto da UNEB

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1 comentário

  1. É incrível que alguém acredite que o PIG perdeu algo nessa história.
    O apoio incondicional que sempre deram, e continuam dando, à plutocracia, lhes rendeu fortunas.
    Vista grossa das autoridades (com direito até mesmo a processos que desaparecem, como num passe de mágica), dólar barato e swaps cambiais ao infinito asseguraram a transferência de seus patrimônios para portos seguros, bem longe deste nosso barco que afunda.
    O PIG não tem qualquer motivo para arrependimentos.
    Estão estourando champanhe pelo empreendimento bem sucedido.

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