Um roteiro para entender o populismo diplomático de Bolsonaro, por Guilherme Casarões

O recurso às massas se traduz na ideia de que a pol. ext. reflete os valores do povo. Sem mediações, sem "deep state", sem a influência nociva das elites globalistas ou do marxismo cultural. A diplomacia bolsonarista se arvora de ser a voz de um povo que ela mesma não define.

@GCasaroes, pelo Twitter

1) Uma política externa populista, antes de tudo, não se confunde com populismo diplomático, que seria o emprego estratégico da política externa, seja por parte do presidente ou do chanceler (lembram de @joseserra ?), para se conectar à massa ou para finalidades eleitoreiras.

 

 

2) E nem todo líder populista faz populismo com a política externa. Ações pragmáticas guiaram a diplomacia de Getulio Vargas, de Perón (em menor grau), de @LulaOficial ‪@narendramodi @matteosalvinimi ‪@netanyahu, e por aí vai

3) Mais que expediente pontual, a política externa populista é uma construção ampla, que submete objetivos, princípios e estratégias de à dinâmica própria do populismo. ‪@jairbolsonaro, para quem a política externa é meramente extensão das suas narrativas ideológicas.

4) A política externa populista se baseia em 3 pilares:

– Soluções simples para problemas complexos;

– Recurso direto às massas;

– Construção permanente da disputa amigo/inimigo (ou nós/eles)

Para tanto, dispensa os mediadores institucionais: ‪@ItamaratyGovBr

5) A 1ª característica é visível desde a campanha. P/reconquistar a credibilidade nacional, o governo tem que se alinhar a @realDonaldTrump. Reproduzir sua agenda internacional (hostilidade c/, amizade c/, etc) é a chave do sucesso. Sem filtros, ressalvas ou concessões

6) O recurso às massas se traduz na ideia de que a pol. ext. reflete os valores do povo. Sem mediações, sem “deep state”, sem a influência nociva das elites globalistas ou do marxismo cultural. A diplomacia bolsonarista se arvora de ser a voz de um povo que ela mesma não define.

7) O recurso permanente às massas é importante para manter a base mobilizada. Isso se dá por meios específicos:

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– Fala-se permanentemente de Deus/Cristianismo/Ocidente;

– Criam-se espantalhos externos (China, Macron, Maduro, ONU);

– Estimulam-se teorias conspiratórias nível zap

 

8) O recurso a Deus é a base do nacionalismo religioso de Bolsonaro (“o  é cristão e minorias têm que se curvar às maiorias”) e vem sendo repetido, indiscriminadamente, por ‪@ernestofaraujo Atende aos templários olavistas, às lideranças evangélicas e a conservadores em geral.

 

 

9) Os espantalhos são os de sempre: comunistas, globalistas e derivados. Nas redes, governistas batem em alvos óbvios com “mitadas” sem fundamento factual e/ou lógico.

A ideia é criar a sensação permanente de que há uma conspiração global contra o mito, oprimido pelo sistema. @ernestofaraujo delega as tiradas mais agressivas para seus colegas/chefes olavistas (@BolsonaroSP, ministros, deputados, ‪@opropriolavo), que bombam no zap da família.

10) Como é a voz institucional do MRE, @ernestofaraujo
delega as tiradas mais agressivas para seus colegas/chefes olavistas (@BolsonaroSP
, ministros, deputados, @opropriolavo), que bombam no zap da família.

Mas às vezes deixa escapar umas pérolas de negacionismo conspiratório…

11) Isso nos traz à última característica da política externa populista. Ela só funciona a partir de uma lógica binária, à la Carl Schmitt, que estabelece quem é amigo e quem é inimigo.

Venho dizendo há algum tempo que isso é parte da estratégia “metapolítica” (17?) do olavismo.

12) Nessa dinâmica, as afinidades eletivas fizeram Bolsonaro se aproximar de líderes populistas, conservadores, nacionalistas religiosos… e de perfil autoritário.

O objetivo é vencer a guerra cultural contra globalistas e socialistas. Não há diálogo, cooperacão ou conciliação.

 

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13) Da mesma forma, o Brasil  hostiliza tudo o que supostamente faz parte da trama conspiratória. Muda votos na ONU, agride líderes progressistas, denuncia totalitarismo @ForodeSaoPaulo ‪@georgesoros.

Quem quer que discorde, vira inimigo. Simples assim.

 

14) Além da óbvia ascendência de Olavo de Carvalho, tanto no método quanto no conteúdo da paranoia conspiratória, é importante destacar a influência de Steve Bannon na formulação dessa política externa populista. Ele é uma das inspirações dos declaradas dos decisores brasileiros.

 

15) A pandemia de ‪#Covid19 expõe, com clareza, os traços da política externa populista. A insistência na hidroxicloroquina como o remédio milagroso é a típica solução simples para um problema complexo. Tudo parte da premissa de que mimetizar Trump é sempre a melhor estratégia.

 

16) O apelo direto às massas se manifesta tanto na retórica bolsonarista de “salvar empregos” quanto na distorção deslavada da realidade para legitimar as posições aberrantes de Bolsonaro no combate à pandemia.

 

17) Por fim, a cantilena do nós x eles continua, seja com a patifaria do “vírus chinês” (denominação tb importada do trumpismo), seja nos ataques sistemáticos à China, à@WHO‪@DrTedros

Isso, claro, estimula toda sorte de bizarrice racista nos grupos de zap. Carla Zambelli

 

18) Se uma política externa populista é ruim para o Brasil, uma vez que isola o país, coloca em risco interesses políticos e comerciais e nos coloca em posição de vulnerabilidade estratégica frente a amigos e inimigos, ela também gera danos colaterais mais específicos.

 

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19) O primeiro dano colateral é a total submissão dos interesses estratégicos do país às veleidades e idiossincrasias do presidente – ou, melhor dizendo, da família Bolsonaro. @dbelemlopes escreveu muito bem sobre isso. Eduardo é o chanceler. Ernesto é só o rosto institucional.

20) O 2º dano diz respeito à pandemia. Como bem denominaram @hussein_kalout e @OliverStuenkel, o Brasil inaugurou uma inusitada estratégia “avestruz” de fingir normalidade e se associa a outros 3 países cujos lideres negam a pandemia e propõem curandeirismos para superar a crise.

 

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