Anarcocapitalismo de Milei só poderá agravar a crise social argentina, por Arnaldo Cardoso

Panfletários de slogans libertários sem fundamentação teórica ou prática consistente, animou discursos e propagandas do histriônico Milei

Anarcocapitalismo de Milei só poderá agravar a crise social argentina

por Arnaldo Francisco Cardoso

Tanto o candidato derrotado na eleição argentina, Sergio Massa (Unión por la Patria) quanto o vitorioso Javier Milei (La Libertad Avanza) reiteradamente se referiram em suas campanhas ao “fim de uma era na Argentina”. Mesmo em posições opostas parecem concordar que só mudanças radicais poderão tirar o país do atoleiro em que se encontra. Entretanto, a mudança que o reacionário Milei promete pôr em marcha porta o sério risco de produzir como principal resultado o agravamento da atual crise econômica e social com a degeneração de valores essenciais para a manutenção do mínimo consenso social necessário para a vida civilizada em sociedade.  

As forças reacionárias que, investindo na polarização, já haviam levado Alberto Macri ao governo da Argentina (2015 à 2019), voltaram agora com o avatar Milei visando esvaziar o espírito de uma nação, para insuflar-lhe máximas de seu ultraliberalismo.

Uma trupe de panfletários de slogans libertários sem fundamentação teórica ou prática consistente, animou discursos e propagandas do histriônico Milei.

Dentre outras semelhanças entre o que ocorreu na Argentina e o processo que levou Bolsonaro à presidência do Brasil em 2018, na Argentina o apoio de empresas de comunicação como a América TV e parte do jornalismo nacional foi importante para a propagação de discurso de ultraliberais usando de arrazoados da controvertida Escola Austríaca de economia para subsidiar o combate ao sindicalismo, a ojeriza a direitos adquiridos pelo povo, demonização do Banco Central, ímpeto privatizador e de conclamação de direitos de comercialização até de animais como a baleia e de órgãos humanos, levados ao paroxismo por Milei, num caldo que mistura obscurantismo e autoritarismo, gerando um rascunho de anarcocapitalismo com pretensões de programa econômico para o país.

Após o último debate televisivo ocorrido no domingo (12) até o conservador La Nación, consultando 12 analistas políticos sobre quem venceu o debate, não pode esconder que – além das reiteradas críticas pela falta de propostas e abundância de acusações, ironias e ofensas mútuas – Sergio Massa se saiu melhor, considerando os quesitos força argumentativa, reflexo político, estratégia e gestualidade. Mas esse melhor desempenho televisivo não se traduziu em novos votos para o candidato governista.

Com 40% da população abaixo da linha da pobreza é mais do que compreensível a revolta popular contra os membros do atual governo – inclusive Massa que foi Ministro da Economia por quase dois anos – e diante da corrupção com frequentes escândalos envolvendo políticos e outros agentes públicos responsáveis por desvios milionários em nome de laranjas, lavagem de dinheiro, contas em paraísos fiscais, malas de dólares, propriedades em balneários luxuosos pelo mundo e arranjos promíscuos entre lideranças políticas e empresariais, indistintamente de coloração política, característicos do capitalismo de compadrio.

Se nas duas últimas décadas os expoentes do peronismo estiveram na maior parte do período na condução do país e, portanto, não podem ser poupados da responsabilização pela crise que assola o país, a exploração seletiva dessa realidade animando um discurso antissistema e antipolítica, ao invés de corrigir problemas só os agravará.

As redes sociais e a democracia em xeque

Reconhecer e tentar mensurar o papel das redes sociais em referendos e eleições já se tornaram comum, ao menos desde a campanha de 2016 pela saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) e a eleição no mesmo ano de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos. O jogo envolvendo empresas de tecnologia e de comunicação/publicidade contratadas por políticos e empresários para a implementação de projetos obscuros de poder vem sendo aprimorado em todo o mundo, com notáveis resultados principalmente para grupos e partidos da extrema direita, desvencilhados de amarras como princípios éticos, humanitários e democráticos.

Na campanha eleitoral do aventureiro Milei é incontestável que o uso massivo de redes sociais, com destaque para o Tik Tok, com uso de ferramentas de Inteligência Artificial, produção de fake news e engajamento de influenciadores digitais teve papel essencial para a propagação de sua imagem e mensagem.

Sobre o meio e a mensagem, é especialmente preocupante o fato da campanha que levou Milei ao poder ser animada por sentimentos como ressentimento e vingança, livremente promovidos em ambiente virtual onde impera a anarquia dos afetos.

Não há ainda pesquisas com recorte geracional sobre o desempenho de cada candidato, mas preocupa a hipótese de que com uma campanha muito mais agressiva no uso das redes sociais, como o Tik Tok, o apelo da mudança adotado por Milei tenha sido particularmente exitoso junto aos jovens, onde a penetração das redes sociais é sabidamente maior.

Conteúdos antifeministas, xenófobos, antiprogressistas, antitrabalhistas, negacionistas em relação ao meio ambiente e às mudanças climáticas, perfis misóginos e violentos contra grupos identitários e de defesa de direitos de minorias, foram arregimentados e legitimados na campanha de Milei, fazendo fermentar um individualismo perverso.

Sem sustentação política no Congresso, o que é previsível para que o governo Milei possa caminhar é, assim como se viu no Brasil sob Bolsonaro, as investidas contra as instituições e a Constituição e barganhas com lideranças políticas antidemocráticas e neofascistas, tudo isso movido pelo desejo de desmonte, de destruição, mais que de construção de algo novo e melhor.

Nem a efetiva crise do peronismo ou os sistemáticos ataques e tentativa de desconstrução histórica empreendidos pelo vulgar libertário Milei, deverão atingir o objetivo de sepultar o componente antiautoritário que operou na forja do tecido social argentino nos últimos cinquenta anos, mostrando admirável capacidade de resistência, tão bem simbolizado pelas Abuelas de Plaza de Mayo e outros grupos e movimentos sociais.

Hoje, a esperança de democratas sinceros e daqueles que acreditam no desenvolvimento social com liberdade, igualdade e justiça é a de que a resistência institucional e cidadã na Argentina possam impedir a implantação de um projeto autoritário e antissocial no país.

A exemplo da experiência brasileira recente, será fundamental que as instituições do Estado Democrático de Direito na Argentina resistam e prevaleçam e aprimorem a infraestrutura democrática do país para que as numerosas distorções do sistema político e econômico desde muito expostas, possam ser corrigidas dando lugar para os necessários avanços sociais para todos os argentinos.

O tempo que se abre na Argentina é de luta para que o futuro volte a ser de esperança e não de medo.

Arnaldo Francisco Cardoso, cientista político (PUC-SP), escritor e professor universitário.

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