“Estar no Mercosul nos protege.” A frase, dita pelo presidente Lula (PT) nesta quinta-feira (3), durante a 66ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, em Buenos Aires, resume o tom do discurso brasileiro ao assumir a presidência rotativa do bloco. Lula defendeu o fortalecimento institucional do Mercosul, a união dos países do Cone Sul frente a um cenário internacional instável e o aprofundamento da integração econômica e social.
“Nossa Tarifa Externa Comum nos blinda contra guerras comerciais alheias. Nossa robustez institucional nos credencia perante o mundo como parceiros confiáveis”, acrescentou o presidente, contrastando diretamente com a fala do anfitrião, o presidente argentino Javier Milei, que criticou duramente a estrutura do bloco e sugeriu que as ações conjuntas têm prejudicado os cidadãos dos países-membros.
Integração como instrumento de soberania
Ao longo de mais de 10 minutos de discurso, Lula destacou cinco prioridades para o semestre de liderança brasileira: fortalecimento do comércio, enfrentamento das mudanças climáticas, desenvolvimento tecnológico, combate ao crime organizado e promoção dos direitos sociais.
Ele reiterou a necessidade de modernizar o bloco sem abandoná-lo: “Conseguimos criar uma rede de acordos que se estendeu aos Estados associados. Toda a América do Sul se tornou uma área de livre comércio, baseada em regras claras e equilibradas.”
Em um momento de crescente disputa comercial entre grandes potências, Lula apontou que o caminho do Mercosul deve ser estratégico e focado em alianças inteligentes: “É hora de o Mercosul olhar para a Ásia, centro dinâmico da economia mundial.”
O presidente também destacou que está “confiante” de que, até o fim do ano, serão assinados os acordos de livre comércio com a União Europeia e com a EFTA (Associação Europeia de Comércio Livre). Há ainda planos de ampliar as tratativas com Canadá, Emirados Árabes, Panamá, República Dominicana, Colômbia e Equador.
Milei: o Mercosul virou “cortina de ferro”
Se Lula defendeu o Mercosul como proteção, Milei retratou o bloco como um entrave. Em seu discurso, o presidente argentino acusou o Mercosul de “privilegiar alguns setores” em detrimento da maioria da população.
“Se o Mercosul foi criado com a intenção nobre de integrar as economias da região, em algum momento esse norte foi afundando”, disse Milei. Para ele, o bloco impõe uma “cortina de ferro” sobre os países, prejudicando a inserção global da Argentina e limitando a concorrência.
Milei defendeu que o bloco adote medidas de “liberdade comercial” e deixou claro: se isso não ocorrer, será necessário flexibilizar as regras — uma proposta que ecoa tentativas anteriores de acordos bilaterais fora do bloco, como o que o Uruguai tentou com a China.
Divergências diplomáticas
Esta foi a primeira viagem de Lula à Argentina desde que Milei assumiu a Presidência, em dezembro de 2023. Durante a campanha eleitoral, Milei fez críticas agressivas a Lula e se alinhou publicamente ao ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro (PL). Desde então, os dois mantêm uma relação estritamente protocolar, sem encontros bilaterais reservados.
Ainda assim, Lula foi recebido por Milei com um aperto de mão cordial à chegada da Cúpula, conforme o protocolo. As relações entre os dois países têm sido conduzidas de forma pragmática pelas chancelarias e ministérios, preservando a cooperação mesmo com visões de mundo opostas.
Visita a Cristina Kirchner
Após o encerramento oficial da Cúpula, o presidente deverá se encontrar com a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, que cumpre pena de seis anos em prisão domiciliar. A visita foi autorizada pela Justiça argentina nesta semana.
O gesto reforça os laços históricos entre o petista e a ex-líder peronista, que mantém forte influência política no país.
Um Mercosul ampliado e estratégico
Ao assumir a presidência rotativa do bloco — composto por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, com a Bolívia em processo final de adesão — Lula prometeu um semestre de trabalho voltado à consolidação do Mercosul como um polo estratégico de desenvolvimento, sustentabilidade e integração social.
Encerrando seu discurso, o presidente afirmou: “A presidência brasileira do Mercosul honrará o legado de grandes referências do Cone Sul […], trabalhando por uma integração solidária e sustentável. Desejo um semestre produtivo e aguardo a todos no Brasil, em dezembro.”



José Carvalho
3 de julho de 2025 4:55 pmPara além da questão aduaneira, os integrantes do MERCOSUL precisam olhar para o fortalecimento da economia dos membros. Os países estarem fazendo parte do bloco sem ter uma interpretação estrutural das suas economias, para construir soluções integradas em relação a elas, não vai mudar muita coisa. Desde a criação do MERCOSUL, apesar de avanços, essa integração não traduziu mudança na força conjunta do bloco. Dada as mudanças em curso de natureza geopolítica e geoeconômica, certos interesses são apreciados sobre a região. Se os objetivos dos países não atentar uma mudança de patamar em coisas que lhes tragam benefícios mútuos, estarão participando na “plateia” . Esse modelo de presidência rotativa que é usado também pelos BRICS, não pode dispersar o enfoque acerca das maiores prioridades.
Jicxjo
4 de julho de 2025 6:44 amHá poucos meses, a mídia porca e o tal mercado celebraram a adoção do câmbio livre pela Argentina, dizendo que Milei havia feito o dever de casa e que a expectativa era do peso se valorizar frente ao real, pois aqui reinaria a zorra fiscal, a “gastança”. Pois bem, já se desvalorizou mais de 10%…
Antes que eu me esqueça, pau no Congresso! Se o JN não gostou, é porque está funcionando.