Imagine em Genebra
por Felipe Bueno
Corria o ano de 1957 e na Argentina tudo se passava sem novidades. O país entrava no terceiro ano de uma ditadura militar, produto da dita “Revolução Libertadora” de 1955; o militar Pedro Aramburu era o presidente; o Congresso Nacional e a Corte Suprema estavam de portas baixadas; o escritor Rodolfo Walsh lançava o essencial Operación Masacre, sobre o assassinato, no ano anterior, de um grupo de peronistas que tentavam um golpe contra o golpe; falando em Perón, aliás, no mesmo ano o ex e futuro presidente sofria tentativa frustrada de assassinato.
Se dizem, com bom grau de acerto, que o Brasil não é para principiantes, nosso vizinho a sudoeste demanda graduação, mestrado e doutorado na escola da existência e da resistência.
No mesmo 1957, o bonaerense Carlos Dante gravava Plata, composição dos conterrâneos Roberto Morel e Aldo Queirolo.
Plata…
por vos la gente se mata,
roba y sufre… ¿para qué?,
si tu vil metal encierra
odio, vicio, sangre, guerra…
y el mundo vive a tus pies.
Mais de seis décadas depois, umas democráticas, outras nem tanto, chegamos a 2023 e no hay plata, avisa o empossado Javier Milei, rígido no corte de ministérios e na revisão de cargos públicos, histriônico nos gestos e cortes de cabelo, desolador nas interações com a direita mundial e místico nas relações com seus cachorros.
A primeira declaração de efeito de Milei enquanto presidente carece de ausência total de novidade. E a plata que resta está concentrada em poucas mãos – e contas – e segue perdendo valor. Minha nota de 1000 pesos que tristemente trouxe de Buenos Aires, em abril passado, perdeu metade do valor desde então. Talvez ainda compre umas duas ou três empanadas, pouco além. E, brincadeiras à parte, como já se falou à exaustão ao longo deste ano, o horizonte da nação – cuja etimologia nos leva justamente à plata – não nos permite vislumbrar algo economicamente positivo para o país nos próximos meses.
Como consolo imediato aos argentinos, que mirem a ONU, organização das nações cada vez mais desunidas, que mandou fechar temporariamente seu puxadinho em Genebra para cortar gastos.
Pelo menos os do lado de cá do Atlântico têm o que comemorar no próximo 18 de dezembro. É otimista demais, porém, esperar de cinco a seis milhões de pessoas nas ruas da capital, como aconteceu no ano passado.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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