Nicarágua: Esquerda crítica não passa pano
por Marco Piva
O entusiasmo com a revolução sandinista me levou à Nicarágua logo após o triunfo contra a ditadura de Anastácio Somoza. Cheguei em 1981. Ali passei cinco anos da minha juventude realizando cursos de formação e comunicação nas organizações populares. Sem medo de errar: apesar dos perigos e incertezas, foram os melhores anos da minha vida. Naquele país nasceu meu primeiro filho.
Também fui representante do Partido dos Trabalhadores junto a Frente Sandinista de Libertação Nacional e fiz parte do coletivo de brasileiros e brasileiras que lá estavam ajudando na reconstrução de uma nação destruída pela guerra civil que matou milhares de pessoas.
Aliás, o PT se destacou desde o início da revolução pela sua enorme capacidade de oferecer solidariedade a um povo sofrido e arrasado materialmente. Organizou e enviou para a Nicarágua uma brigada de profissionais da saúde que enfrentaram risco de vida e as mais difíceis situações de trabalho.
Décadas depois não consigo enxergar a revolução que vivi e senti. Daniel Ortega é uma espécie de sombra que vagueia em torno do grande chapéu de Augusto Cesar Sandino, o grande inspirador das lutas pela soberania do país. Em seu forte apego ao poder, é eleito para um quarto mandato consecutivo onde os principais adversários estão presos e a oposição cada vez mais reprimida. Não, não falo de adversários do campo da direita. Antigos dirigentes e militantes sandinistas passam seus dias atrás das grades, muitas vezes sem acesso a advogados e familiares. Entre as presas, muitas líderes feministas e ativistas de organizações de mulheres.
A pergunta que não quer calar: tem a esquerda o dever de denunciar esta situação análoga ao regime que os sandinistas derrubaram em 1979 ou é hora de passar pano em nome de uma igualmente verdadeira tentativa de derrotar Ortega e o seu governo? Até que ponto a histórica interferência dos Estados Unidos na Nicarágua deve ser uma desculpa para o silêncio diante de constantes violações dos direitos humanos?
A pergunta é incômoda, mas a resposta, pelo menos para mim, não é: onde existir um regime que viole os direitos humanos e a liberdade de expressão, estarei do outro lado da rua. Da mesma forma que defendo que cabe aos próprios nicaraguenses decidir sobre o seu futuro, sem qualquer tipo de ingerência externa. A soberania e a autodeterminação dos povos são valores inegociáveis.
As eleições de 7 de novembro não foram legítimas nem democráticas e muito menos transparentes. Não assistiram a elas observadores internacionais neutros. Governos rechaçaram a sua realização, entre eles alguns de esquerda. A exigência de mostrar o “dedo borrado” foi um ataque ao exercício da cidadania.
A secretaria de Relações Internacionais do PT divulgou nota saudando a realização das eleições na Nicarágua e a vitória de Ortega e sua esposa. Felizmente, a presidenta do partido, Gleisi Hoffmann, desautorizou a nota argumentando que não houve decisão partidária. Ela ainda foi ao ponto: é preciso que governo e oposição respeitem a democracia e que seja respeitado o direito à autodeterminação.
Diante disso, é possível ver que não basta um discurso anti-imperialista e de apoio aos mais pobres para gabaritar o quanto se é de esquerda. Ser esquerda é muito mais que isso; é assumir posições de solidariedade como foi feito nos primeiros tempos da revolução sandinista e também denunciar quando traidores dos mais nobres ideais da humanidade se transformam em algozes de seu próprio povo.
Romper com o passado não é o caso. O passado lá está, registrado na história que ninguém apagará. Jovens revolucionários tiveram coragem e muitos deles deram suas vidas para libertar o povo da opressão somozista. Mas, isso não dá o direito a certos líderes formados na esquerda de envelhecerem e desacreditarem as ideias e os sonhos da juventude atual. Que façam isso sozinhos e paguem pelas consequências de suas vaidades anacrônicas.
Marco Piva é jornalista e apresenta o programa Brasil Latino na Rádio USP e na Rádio Brasil Atual.
Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN
Luiz Mattos
10 de novembro de 2021 4:02 pmViva Ortega que luta contra a ingerência dos USA.
E NOJO DA ESQUERDA CHIVAS REGAL.
jucemir r. da silva
10 de novembro de 2021 5:21 pm“A secretaria de Relações Internacionais do PT divulgou nota saudando a realização das eleições na Nicarágua e a vitória de Ortega e sua esposa. Felizmente, a presidenta do partido, Gleisi Hoffmann, desautorizou a nota argumentando que não houve decisão partidária. Ela ainda foi ao ponto: é preciso que governo e oposição respeitem a democracia e que seja respeitado o direito à autodeterminação.”
Qualquer um com um pouco mais de percepção percebe que o comunicado de Gleisi desautorizando o secretário de Relações Internacionais do PT não foi ditado por visão crítica em relação à situação interna da Nicarágua ou pelo fato da nota não ter passado pelo Diretório Nacional ou coisa que o valha.
O vero motivo foram as recriminações da Folha e d’O Globo quanto à saudação petista às eleições no país dos sandinistas – e bem sabemos qual é foi a intenção daqueles dois porta-vozes de nossa alta burguesia sempre golpista.
O que determinou a nota da presidenta nacional do PT é a clara orientação eleitoral de Lula no sentido de tudo fazer para não atrair nenhuma crítica do complexo golpista – nacional e externo –, para que este mais uma vez lhe conceda, no mínimo, o alvará de candidato.
Não fosse o contexto político interno, ninguém teria dado a mínima importância à singela mensagem da SRI.
Talvez nem mesmo um especialista em Nicarágua…
Mr. Rambouz
11 de novembro de 2021 11:41 amMuita gente na esquerda tem saudade do ‘papai’ Stalin que inclusive mandou assassinar todos os revolucionários de 1917 que ainda estavam vivos quando ele chegou ao poder. Se a esquerda não se livrar desse cadáver insepulto temo que caminhe para a completa nulidade como acontece hoje em vários países como a França.