Govcoins, as moedas dos bancos centrais que vão reescrever a história do sistema financeiro, por Luis Nassif

Hoje em dia, o dinheiro tem marcas variadas, oferecidos por bancos com diversos Ratings até a aventura perigosa dos bitcoins. As moedas dos BCs teriam pontuação alta, pagamento centralizado e barato.

Shutterstock: Brazil moneybox

No dia 22 de abril passado, escrevi o artigo “A tecnologia pode ser o canal para a redução da financeirização no mundo”. Ousava algumas elucubrações sobre a nova tendência dos Bancos Centrais de emitirem moedas digitais, os chamados govcoins. Até agora as análises se prendem aos custos das moedas reais, as ameaças dos novos operadores – como as grandes redes sociais -, as implicações sobre as políticas cambiais nacionais etc.

Pouco se analisou sobre um desdobramento relevante da moeda digital: a possibilidade de um Banco Central, independente em relação ao mercado, podendo injetar dinheiro diretamente na economia, sem a intermediação bancária. Esse possibilidade é absolutamente inédita desde a montagem do sistema financeiro no século 19, com o ecossistema privado girando em torno dos bancos centrais, e os BCs de países periféricos se articulando, inicialmente com o Banco da Inglaterra, depois com o FED americano. Até agora o Brasil ainda não mergulhou nessa discussão, o que me faz crer que esse cenário foi levantado pioneiramente aqui.

Em toda crise de liquidez, os Bancos Centrais injetam dinheiro através do sistema bancário. O resultado tem frustrante. Com as economias em recessão, devido à crise, o sistema bancário evita emprestar para o setor privado, para a economia real. O dinheiro acaba empoçado e direcionado ou para grandes grupos ou para movimentos de curto prazo em ativos reais, criando bolhas de toda espécie.

Como não há recuperação do dinamismo da economia, grande parte desses recursos é utilizado para recompra de ações pelas empresas maiores, para movimentos especulativos com ativos ou para startups.

As consequências são conhecidas: pouca eficácia para a recuperação da economia; aumento da concentração de renda e instabilidade nos mercados. Hoje em dia, as bolhas se dão em bitcoins, e até em arte digital, além de conferir ganhos escandalosos aos bancos em períodos em que todos os demais setores sofrem com a crise econômica.

Se o dinheiro fosse direcionado ao tomador final, haveria a possibilidade de muitas outras políticas. Não haveria dinheiro empoçado, seria vitamina na veia da economia. E não apenas nas políticas sociais.

Artigo recente do The Economist, de 8 de maio, de larga repercussão, dentro dessa linha de raciocínio analisa de forma mais aprofundada as consequências das moedas digitais de governos.

O estudo confirma a hipótese de que as moedas digitais

“centralizariam o poder no estado em vez de distribuí-lo por meio de redes ou entregá-lo a monopólios privados. A ideia por trás deles é simples. Em vez de manter uma conta em um banco de varejo, você faria isso diretamente em um banco central por meio de uma interface semelhante a aplicativos como Alipay ou Venmo. Em vez de passar cheques ou pagar online com cartão, você poderia usar o encanamento barato do banco central. E seu dinheiro seria garantido pela plena fé do estado, não por um banco falível. Quer comprar uma pizza ou ajudar um irmão falido? Não há necessidade de entrar em contato com a central de atendimento do Citigroup ou pagar taxas da Mastercard: o Banco da Inglaterra e o Fed estão à sua disposição”.

As moedas digitais estão na mira de mais de 50 autoridades monetárias, a maior parte do PIB global.  A China lançou seu piloto de e-yuan para mais de 500 mil pessoas. A União Europeia planeja um euro virtual até 2025, o Reino Unido montou uma fora tarefa para analisar a mudança e os Estados Unidos estão construindo um dólar eletrônico.

As motivações

A história é caprichosa.

A motivação inicial dos BCs são são os riscos das moedas migrando para as grandes plataformas digitais privadas, impedindo os bancos centrais de administrarem a liquidez da economia ou injetar fundos no sistema durante as crises.

Outra motivação é a questão da estabilidade do sistema. Hoje em dia, o dinheiro tem marcas variadas, oferecidos por bancos com diversos Ratings até a aventura perigosa dos bitcoins. As moedas dos BCs teriam pontuação alta, pagamento centralizado e barato.

A preocupação inicial, portanto, foi a manutenção do modelo tradicional bancos centras-sistema bancário tradicional.

Haveria também profundas implicações geopolíticas. O reinado do dólar, constata a reportagem, repousa nos mercados de capitais abertos e nos direitos de propriedade da América. Os govcoins poderiam fornecer um canal para pagamentos transfronteiriços e alternativos ao dólar.

Nos países de moeda fraca, além disso, há o risco das pessoas mudarem para moedas eletrônicas estrangeiras.

Agora, abrem-se os olhos para possibilidades muito mais amplas.

Segundo cálculos apresentados pela revista, os govcoins poderiam cortar as despesas operacionais do setor financeiro global – calculada em US$ 350 por cliente. Com isso, tornariam o financiamento acessível para 1,7 bilhão de pessoas desbancarizadas.

“As moedas digitais governamentais também podem expandir os kits de ferramentas dos governos, permitindo que façam pagamentos instantâneos aos cidadãos e reduzam as taxas de juros abaixo de zero”.

Riscos e possibilidades

Obviamente, a disseminação ampla dos govoins poderia desestabilizar bancos privados, obrigando-se a buscar outras fontes de financiamento dos empréstimos.

Além disso, poderiam se tornar um instrumento de controle dos cidadãos pelo Estado. É só conferir o uso abusivo atual de bloqueios judiciais, nas mãos do Judiciário. Nas mãos do governo, seria uma arma política perigosa.

As próprias autoridades chinesas estão reprimindo as plataformas privadas de pagamento, mas também limitando o tamanho dos e-yuans.

Há uma longa lista de tarefas para preparar a chegada da nova moeda. Questões como privacidade, modelo de atuação dos bancos centrais, preparação dos bancos de varejo para papéis mais periféricos.

A discussão está apenas começando.

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