Metanoia contra “Noia” Urbana, por Fernando Nogueira da Costa

A Metanoia representa uma mudança de consciência e de comportamento que acontece por convicção pessoal, em decorrência de uma nova crença

Salvador Dali

Metanoia contra “Noia” Urbana

por Fernando Nogueira da Costa

Bruno Paes Manso (1971-….) publicou recentemente um livro de leitura obrigatória para quem deseja entender o Brasil contemporâneo, em especial, as condições de vida urbana popular e as consequências socioeconômicas e políticas: A fé e o fuzil: Crime e religião no Brasil do século XXI (São Paulo: Todavia, 2023).

Ele é o autor do excelente A República das Milícias (2020). Mostrou as milícias cariocas constituídas por policiais corruptos, alegando a extorsão se dar pela proteção contra traficantes, bicheiros, matadores, justiceiros, torturadores. O relato envolve deputados, vereadores, ativistas, militares, líderes comunitários, jornalistas e, sobretudo, as vítimas de uma cena criminal extremamente complexa por ter tantos componentes interativos.

O livro se constrói a partir de depoimentos de protagonistas desse enredo. As entrevistas chocam pelos detalhes dos sucessivos assassinatos. As ligações entre policiais, o tráfico, o jogo do bicho e o poder público se mostram de forma inequívoca no Rio de Janeiro.

Na periferia das metrópoles, constituída por autoconstrução de moradias sem planejamento urbano e infraestrutura, o Estado está ausente, exceto pelos policiais para extorsão dos pobres habitantes das favelas. As carências se multiplicam, a violência se propaga de forma endêmica, mas deixa no ar a questão: qual é a alternativa?

A resposta, em vigor hoje, é apresentada por Manso em A Fé e o Fuzil. Neste país, com urbanização descontrolada da população (87% do total) e cultura política envolta em autoritarismo e corrupção, juntaram-se a Teologia da Prosperidade e o PCC, em São Paulo, para “botar ordem na quebrada”.

No Rio de Janeiro, desde os esquadrões da morte formados nos anos 1960 ao domínio do tráfico nos anos 1980 e 1990, dos porões da ditadura militar às máfias de caça-níquel, da ascensão do modelo de negócios miliciano ao assassinato de Marielle Franco, o autor esclarece uma face sombria da experiência brasileira recente. Nela, a extrema-direita dominou com a presidência de um medíocre, incapacitado para o cargo, de 2019 a 2022.

Manso inicia seu último livro com uma epígrafe esclarecedora da palavra de origem grega Metanoia, formada pela preposição com significado de “além de, aquilo que excede, coloca acima” e o verbo com significado de “perceber, pensar”. Indica a mudança de visão, de olhar.

Ele mostra, de fato, a transformação do caráter, do modelo mental, da consciência, da forma de agir e de se comportar de criminosos e ex-criminosos. Na Teologia, metanoia se relaciona à conversão, ao arrependimento, à sujeição aos mandamentos divinos. Na Psicologia, refere-se ao amadurecimento, ao aprendizado, à cura e autoconhecimento.

Metanoia é o título de seu primeiro capítulo. Manso fazia pesquisas sobre os homicídios em São Paulo e buscava interlocutores para lhe descrever esses contextos violentos. Conheceu um sujeito capaz de abandonar o crime porque aceitou Jesus, mudou de vida.

Depois de convertido, ele se tornou missionário na Igreja do Evangelho Quadrangular. Passou a dar testemunhos sobre seu passado no crime, repleto de pecados e atrocidades, para destacar o tamanho do milagre de sua conversão.

O interessante é o autor se apresentar como agnóstico, talvez a postura da maioria com formação universitária, mas apesar das visões de mundo eram diferentes, formadas através de filtros de crenças diversas, evita demonstrar seu ceticismo para os entrevistados. Eles se sentem mais à vontade para expor a realidade vivenciada.

Boa parte dos evangélicos encontrados durante suas pesquisas sobre violência era composta ex-bandidos transformados em crentes. Entrar em contato com essa religiosidade das periferias paulistas lhe deu acesso a outro mundo, cheio de verdades e normas bem diferentes das pessoas com formação universitária.

Tanto os homicidas quanto os crentes acreditavam em coisas bem distantes do universo da patota de classe média do autor e agiam conforme as respectivas leituras feitas do mundo. Se a crença dos homicidas produzia morte, a dos evangélicos procurava evitá-la.

Antes, Manso via esses grupos com um viés classista, repleto dos preconceitos típicos de quem observa a cena de uma distância segura. Tanto bandidos como crentes faziam parte de grupos iletrados e a “tese universitária” era eles precisarem ser mais bem-educados para agir de forma mais racional.

Na grande imprensa, homicídios e chacinas eram noticiados quase sempre a partir de gráficos e tabelas, como se a solução pudesse vir das informações e dos dados fornecidos por sofisticados modelos estatísticos, usados para apontar caminhos institucionais. Caberia aumentar as penas, melhorar as investigações dos assassinatos e o patrulhamento nos bairros perigosos, investir em educação, reduzir a desigualdade, entre outras medidas civilizatórias propostas pelos “çábios” (sic) sem empatia.

O debate dos “cultos” se dava apenas em torno das políticas públicas mais adequadas. Já a fé dos evangélicos era um assunto menosprezado, apenas tolerada e legalmente garantida, mas não debatida. Afinal, acreditava-se, sua influência diminuiria com o avanço do processo civilizatório. Manso acreditava nisso, mas estava enganado.

Ele via os homicidas como pessoas sem dar valor à vida, talvez por ignorância ou incapacidade de controlar seus desejos mais perversos. Esse perfil era aparente, mas não captava a essência da estratégia de sobrevivência de cada qual, diante da prestação de serviços urbanos com precária remuneração, quando se conseguia ocupação.

O jornalismo apenas abastecia os formadores de opinião com informações sobre os criminosos de modo os ajudar a preservar seu lugar reservado “no andar de cima”. A cobertura envolvendo os religiosos pentecostais também os vinculava a um grupo de pobres fanáticos, ignorantes, sujeitos a ser manipulados pela falta de escrúpulos de pastores ambiciosos.

Manso compartilhava de parte dessa visão, predominante entre as pessoas do seu meio social, nas redações de jornais. Ao tratar do tema, caberia aos jornalistas, quando possível, denunciar a malandragem daqueles oportunistas a enriquecerem às custas da ingenuidade alheia.

Escrever sobre as igrejas pentecostais exigia o mesmo tom dos relatos sobre estelionatários. Esse ranço policialesco acabou atrapalhando a percepção de um fenômeno cultural profundo. Gostando ou não, “ele tomou o Brasil de assalto sem a elite cultural e econômica se dar conta”. Uma nova elite, inculta sob os parâmetros universitários, mas esperta para definir os rumos dados ao país tomou conta dele.

A elite culta e rica, desde a casta dos sábios universitários até a dos trabalhadores organizados em sindicatos ou pela Igreja católica, mantinha-se afastada dos temas populares e ignoravam o humor das massas, originado no mundo pobre e informal das cidades, longe do poder. “Era uma postura arrogante, de superioridade, elitista”.

Segundo Manso, “a situação somente começou a mudar quando o poder político e econômico dos religiosos e dos criminosos se tornou incontornável e passou a ameaçar os planos do mundo formal, abrangente de uma população cada vez menor”. Foi quando muitos perguntaram de onde vinha a força do pentecostalismo e das facções criminosas. Eles, de diferentes modos, ganhavam influência política e cultural em todo o território.

Entrevistando os homicidas do período, Manso descobriu algo determinante para suas investigações futuras. Para entender como “os excluídos” agiam, primeiro ele precisava conhecê-los, ouvi-los, descobrir suas crenças em transição, como enxergavam e justificavam suas ações, enfim, o dito por eles a respeito delas. Embrenhou na parte da cidade desconhecida pela casta dos sábios intelectuais.

O ato de matar havia se multiplicado por dez, em quase quarenta anos, entre 1960 e 1999, como se fosse um comportamento contagioso. Depois desse longo surto, aparentemente incontrolável, o comportamento letal sofreu um declínio a partir dos anos 2000, quando se iniciou um movimento inverso, com mais de vinte anos de redução de assassinatos. No fim desse percurso, São Paulo, uma das cidades mais violentas do mundo, se tornou a capital com a menor taxa de homicídios do Brasil. Por qual razão?

Os homicidas lhe ajudaram a compreender melhor suas ações e as motivações de seus assassinatos e chacinas. Além de ouvir sobre a trajetória pessoal dos entrevistados, as conversas giravam em torno de duas questões principais: quem vocês matam e por quê?

Eles matavam quem os denunciava para a polícia, quem desafiava sua honra, quem praticava assaltos no bairro, quem se aliava a seus inimigos, quem os roubava no crime, quem atrapalhava seus negócios, entre outras razões. A vingança, contudo, era o principal estímulo da multiplicação de violência. Em um efeito dominó, sempre haveria alguém querendo se vingar.

A Metanoia representa uma mudança de consciência e de comportamento. Não acontece por ameaça de punição, nem por mera pressão social, mas por convicção pessoal, em decorrência de uma nova crença. Ela faz o sujeito passar a enxergar o mundo de outra forma e a agir conforme ela. Bruno Paes Manso narra a Metanoia dos excluídos.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

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