75 anos da II Guerra, o conflito nos gibis
por Rogério Faria
Dia 2 de setembro, completam-se 75 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. Um evento que mobilizou nações de todo o globo, deixou um rastro de destruição, morte e horror, e que, ao definir o próprio século XX, influenciou toda a cultura pop, inclusive os quadrinhos.
A 2ª Guerra invade as comics estadunidenses inicialmente como material de propaganda, dando origem a personagens como o Capitão América, da Marvel, em março de 1941. O herói se engajou na luta contra as potências do Eixo antes mesmo dos próprios EUA, os quais só entram oficialmente em setembro, após o ataque japonês a Pearl Harbor.
Com o passar do tempo, o tom ufanista vai assumindo um viés cada vez mais crítico na indústria cultural em geral. E essa abordagem se tornou fonte de diversas HQ marcantes, capazes de nos fazerem refletir sobre nós mesmos. É daí que saíram as melhores histórias.
Meu contato com HQ sobre a 2ª Guerra remonta à década de 1980, por volta dos meus 10 anos. Havia uma banca de revista velha atrás da casa da minha avó, no interior, em São José dos Campos, SP. Meu prazer era garimpar raridades da Ebal, como super-heróis, Jonah Hex e Sargento Rock. Mas outros quadrinhos foram me marcar mais tarde.
Ao coração da tempestade
Will Eisner se debruça sobre o tema numa HQ autobiográfica considerada um dos seus trabalhos de maior relevância. Em Ao coração da tempestade, editora Companhia das Letras, o mestre, revisitando a história de sua própria família, de origem judia, narra como essa guerra impactou seu processo de formação e sua carreira incipiente nos quadrinhos.
Maus
Abordando também o tema sob a perspectiva judia, no clássico contemporâneo Maus também da editora Companhia das Letras, Art Spiegelman narra a história de seu pai, sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz. Foi a primeira Graphic Novel a ganhar o prestigiado prêmio Pulitzer em 1992.
Gen – Pés Descalços
Mudando o ponto de vista para o outro lado do mundo, impossível não falar de Gen – Pés Descalços, de Keiji Nakazawa, publicada por aqui pela editora Conrad. O mangá, baseado nas experiências pessoais do autor, conta a história de uma criança que sobrevive à bomba atômica em Hiroshima e, a partir daí, luta para manter a esperança num cenário de puro terror.
Grama
Publicada neste ano, Grama, da autora sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim, editora Pipoca & Nanquim, narra a vida de uma escrava sexual coreana. A medida que o Império Japonês avançava, ocupando parte da China e outros países do Leste da Ásia, o exército ia instalando as chamadas “casas de confortos” para diversão sexual dos soldados. É uma história forte, mas sensível, sobre perseverança.
Jambocks
Já no Brasil, também falamos de 2ª Guerra a partir das nossas experiências. Jambocks, editora Zarabatana, e Jambocks – Parte 2, da editora Devir, ambas por Celso Menezes e Felipe Massafera, narram a história de Max, um jovem pacifista, integrante do Primeiro Grupo de Aviação de Caça brasileiro. As histórias trazem os primórdios da Força Aérea Brasileira.
O Elísio: Uma jornada ao inferno
O quadrinho O Elísio: Uma jornada ao inferno, por Renato Dalmaso, Avec editora, conta a história real de Eliseu, um soldado brasileiro que lutou na Segunda Guerra e, junto com seus amigos de armas, foi feito prisioneiro pelos alemães.
Arquivos Secretos da Segunda Guerra Mundial
A coletânea “Arquivos Secretos da Segunda Guerra Mundial”, da editora Draco, reúne oito histórias em quadrinho originais que trazem a perspectiva de autores brasileiros sobre o conflito. O projeto reúne histórias baseadas em acontecimentos reais e narrativas fantásticas de fantasia, ficção científica e terror, e está em financiamento coletivo pelo Catarse. Você pode conhecer clicando aqui.
Muitas outras páginas foram escritas e desenhadas sobre esse evento bélico, e muitas outras serão feitas. É revivendo o conflito, seja em abordagens realistas até as mais fantásticas, que a humanidade olha para dentro de si mesma e, quem sabe, num processo de aprendizado contínuo, pode ser capaz de evitar novas tragédias.

walter venturini
1 de setembro de 2020 10:42 amDuas correções: a segunda guerra mundial começou há 82 anos, no dia 1º de setembro. Os Estados Unidos entraram na guerra não em setembro de 1941, mas após o 7 de dezembro de 1941, quando o Japão bombardeou Pearl Harbor.