A construção de imaginários de continuidade, Parte 3 – Por Rui Daher

Os desdobramentos políticos no Brasil, de Jânio Quadros ao início da Democracia – passando pela ditadura. Uma conclusão: a profissão do brasileiro segue sendo a esperança

A construção de imaginários de continuidade, Parte 3

Por Rui Daher

 

Se de Jânio Quadros construiu-se uma imagem de irascível, louco ou mesmo um conservador nos costumes, mas progressista nas relações exteriores, para João Goulart preparou-se um imagético populista pelo passado que trouxe das conquistas sociais getulistas, das ações de Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul de 1959 a 1963, promovendo estatizações, e das ações das Ligas Camponesas no Norte e Nordeste.

Foi então apertado o botão de alerta, e a mesma direita que apeou Jânio do poder plantou no reformista Jango a pecha de comunista. Nasceu o golpe civil-militar de 1964 a manter o Acordo Secular de Elites.

Desde a instalação da República, assim tem sido no Brasil. Qualquer governo que tome medidas efetivas para diminuir a desigualdade, respeitar direitos cidadãos, preservar a liberdade de expressão e conviver com associações político-partidárias de qualquer ideário, logo recebe estigma negativo, vindos de um histórico patrimonialista, escravagista e de valor meritocrático exclusivo dos ricos.

A forma de se manter o status quo é anunciar que seremos Estados Unidos e Europa no ano que vem. A África, já consciente de seu destino, ri.

Poucos foram os líderes políticos, intelectuais, educadores ou ativistas que tentaram interromper esse curso de águas barrentas que serve aos pobres. Quem ousou caiu em batalhas ou foi para o ostracismo. Quem apenas assistiu – a maioria – vive de “Brasileiro, profissão esperança”, a peça de Paulo Pontes.

Essa contracorrente em nosso desenvolvimento tem-se perenizado. Um “Rancho da Goiabada” (João Bosco/Aldir Blanc). Nele, cadenciam o passo aqueles que nunca tiveram, têm ou terão vez.

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Passados vinte e um anos dos governos militares, a ditadura, um realismo fantástico para o Regente Insano Primeiro (RIP) e séquito, acuada pela pressão popular do Movimento Diretas Já (1983-1984), cedeu à Nova República, em sexto período, como classificada por historiadores.

Só que não tão direta como se queria, mas em votação indireta no Colégio Eleitoral, onde o oposicionista (PSD) mineiro Tancredo Neves (1910-1985) venceu o situacionista (ARENA) Paulo Maluf (1931 -).

Eleito em 15 de março de 1985, doente, Tancredo não pôde tomar posse. Faleceu de câncer, um mês depois. Substituiu-o José Sarney, vice na chapa.

Não, leitores, não temam. Clemente, não continuarei esquartejando a História do Brasil, período a período, presidente a presidente. “As veias abertas da América Latina”, livro do uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), poderá melhor esclarecer esse destino.

Na melhor, de Rui Daher (1945-inté sei lá), apenas poderia vir “As pernas abertas do Brasil”, conforme se pensou modernizar (sic) o País. Menos Estado e mais iniciativa privada. E lá se foram valiosos patrimônios.

Na essência, tergiversava-se sobre como manter o Brasil um país socialmente desigual, pretensamente emergente, em uma das maiores concentrações de renda do planeta.

José Sarney teve auges em seu governo. De positivo, a Constituinte e a Carta de 1988; de negativo, a inflação. Foi, no entanto, um democrata.

Eleições diretas mesmo, através de voto popular, somente em 1989, a primeira em que pude votar. Lançaram-se 22 candidatos. Fernando Collor (PRN/Globo-RJ) e Lula (PT-SP) disputaram o segundo turno. Resultado: 53% a 47%.

Lula venceu apenas nos estados do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Pernambuco. Também no Distrito Federal e no coração deste blogueiro.

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Os brasileiros continuaram tendo como profissão a esperança.

 

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