A construção midiática da mitologia da pandemia, por Wilson Ferreira

Diferente da epidemia da meningite na ditadura militar, encoberta pela censura do regime, agora a pandemia é mostrada.

A construção midiática da mitologia da pandemia

por Wilson Ferreira

Vírus são pequenos agentes infecciosos do reino submicroscópico. Assim como o vírus possui uma cápsula proteica para aderir na célula hospedeira, também a sociedade possui uma, digamos assim, cápsula semiótica (de discursos, sentidos e significações midiáticas) que adere aos eventos naturais, dando-lhes um sentido e significado através da ideologia do momento. E nesse momento é o da Biopolítica, cujo projeto é destruir as bases da democracia liberal – direitos individuais, equilíbrio dos poderes e parlamento. Diferente da epidemia da meningite na ditadura militar, encoberta pela censura do regime, agora a pandemia é mostrada. Porém, dentro da construção semiológica que o linguista francês Roland Barthes chamava de “mitologia”: a narrativa da letalidade do COVID-19 como uma fatalidade do mundo natural dos micro-organismos. Uma fatalidade que apenas joga sobre a população o peso das omissões deliberadas e irresponsabilidades dos governos comprometidos com a agenda das reformas econômicas neoliberais. Transformando o isolamento social em imperativo moral. Ocultando a ação biopolítica: controle social e garantia da liquidez da banca financeira.

Em 1974 uma epidemia de meningite meningogócica assolou o País e pegou as autoridades sanitárias despreparadas em plena ditadura militar brasileira. O número de casos crescia, ao mesmo tempo que o Governo era incapaz de importar, em curto prazo, a quantidade necessária de doses de vacina.

O regime militar censurava qualquer menção à doença nos meios de comunicação. Enquanto a moléstia eclodia nas áreas mais carentes e periféricas dos grandes centros urbanos, a censura funcionava. Até que os números de óbitos começaram a serem relatados nos bairros nobres do Rio e São Paulo. Então, já não era mais possível fingir que nada estava acontecendo. Mas já era tarde: os números já eram exponenciais, resultando em mais um desastre humanitário na ditadura militar.

Hoje, com a globalização midiática e a circulação das informações em tempo real, seria impossível esconder uma catástrofe sanitária. O mundo vem acompanhando, passo a passo, as informações do crescimento da pandemia COVID-19 desde o seu surgimento no início desse ano.

Porém, informar não significa necessariamente comunicar. Ou melhor, num cenário midiático monopolizado por grandes corporações midiáticas quase nunca informação e comunicação coincidem.

Essa desarticulação informação/comunicação é produzida por complexas operações semióticas. Na verdade, operações paradoxais: nada pode ser escondido, a informação deve fluir livremente como “conteúdo” em portais, sites, blogs, telejornais e jornalões. Como é possível deformar, esconder ao mesmo tempo em que se mostram imagens e áudios? 

Os tempos de censura eram mais simples: bastava esconder, dissimular, dizer que nada estava acontecendo. Agora, as estratégias semióticas são mais complexas: é necessário simular, deformar, enquanto os acontecimentos são relatados. 

Estamos entrando no campo das construções das mitologias, tal como descrita pelo linguista e semiólogo francês Roland Barthes: transformar a realidade em signos esvaziados da sua contingência, evaporando a história e sociedade num discurso despolitizado. Retira os acontecimentos da História e da Sociedade para inseri-los na Natureza.

Como realizar esse aparente paradoxo, mostrar ao mesmo tempo em que esvazia?

Uma prestidigitação inverteu o real, esvaziou-o de história e encheu-o de natureza (…) O mito não nega as coisas; a sua é, pelo contrário, falar delas; simplesmente purifica-las, fundamenta-as na natureza e em eternidade, dá-lhes uma clareza não de explicação, mas de constatação. (…) Passando da história à natureza, o mito faz economia: abole a complexidade dos atos humanos, confere-lhes a simplicidade das essências, organiza um mundo sem contradições: as coisas parecem significar sozinhas, por elas próprias – BARTHES, Roland. Mitologias, Difel, p.163-164.

                   Transformar fenômenos sociais em naturais e políticos em posições polarizadas (a crítica “ném-ném”, como dizia Barthes) não é, senão, operações semióticas de construção das mitologias. E nesse momento de crise sanitária, a nova mitologia da biopolítica.

 

Giorgio Agamben

 

Legitimar a janela de oportunidades

Uma pista para entendermos esse discurso que se sobrepõe a atual crise do novo coronavírus são as reflexões do filósofo italiano Giorgio Agamben. Para ele, estamos vivendo o fim das democracias liberais fundadas em direitos, parlamentos e equilíbrio dos poderes, para dar lugar uma nova forma de despotismo – por razões de “saúde pública” qualquer limite pode ser imposto sobre as liberdades individuais – clique aqui

Para Agamben, “o controle que é exercido através de câmeras de vídeo e agora, como foi proposto, através de telefones celulares excede, em muito, qualquer forma de controle exercido sob regimes totalitários como o fascismo ou o nazismo”. É aquilo que o filósofo Zizek chama de “sonho erótico totalitário”.

Como legitimar essa janela de oportunidades que se abre para o totalitarismo na atual pandemia? A mitologia biopolítica, como destaca Agamben: 

“Surge a dúvida legítima de que, espalhando pânico e isolando as pessoas em suas casas, queríamos jogar sobre a população as sérias responsabilidades dos governos, que primeiro desmantelaram o serviço nacional de saúde e depois, na Lombardia, cometeram uma série de erros não menos graves no enfrentamento da epidemia”.

Vírus são pequenos agentes infecciosos acelulares do reino submicroscópico. Assim como o vírus possui uma cápsula proteica para aderir na célula hospedeira (de bactérias, fungos ou animais), também a sociedade possui uma, digamos assim, cápsula semiótica (de discursos, sentidos e significações) que adere aos eventos naturais, ressignificando-os na biopolítica.

                  Como fenômenos biológicos que eclodem na sociedade, o grau de letalidade é ampliado ou minimizado por vetores sócio-políticas: políticas sanitárias, desigualdade social, agenda das políticas econômicas etc.

 

 

Letalidade semiótica

E com o COVID-19 não é diferente. O grau de letalidade varia muito de país para país, dependendo das condições sócio-econômicas. É precisamente esse o ponto sensível para a “capsula semiótica” da sociedade – a causa é biológica, mas os efeitos são sociais e políticos. É precisamente isso que precisa ser mitigado, ocultado por meio de uma mitologia: o vírus tem que se transformar em um signo natural e esvaziado de história.

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