A coreografia da vida e da morte, por Fabianna Freire Pepeu

A roda de gente afetada por cada óbito vai aumentar. E não é uma roda de ciranda, pois não é tempo de festa.

A coreografia da vida e da morte

por Fabianna Freire Pepeu

Os apoiadores de Bolsonaro em São Paulo brincam com fogo. Essas manifestações no final de semana vão mostrar rapidinho o resultado da sua face macabra. E não é verdade que essas figuras patéticas estiveram apenas de passagem pelos bairros da capital dentro dos seus carros, pois elas exibiram um caixão, dançando como se fez em Gana, na África, enquanto outras berravam e espalhavam gotículas insanas por toda parte.

Infelizmente, a falácia de Bolsonaro sobre a impossibilidade de se manter o distanciamento social em função da economia fez escola, como sempre acontece entre mal informados ou fascistas mesmo. Isso é muito claro de constatar não apenas pelas carreatas, mas nos comentários dessa legião verde e amarela nos portais e postagens que reverberam ou criticam as carreatas.
O fato é que começa agora o mata-mata. A dor já existe. Entre sábado e domingo, foram 99 mortes. Hoje, dentro da lógica experimentada no mundo todo e que não ensinou quase nada a muitos brasileiros, o número a ser anunciado logo mais pelo Ministério da Saúde (MS) deverá de novo ser significativo e essa é a tendência daqui pra frente.
Oficialmente, até o momento, pelo último boletim do MS, são 1.223 mortes (mas pesquisa do G1, às duas da tarde desta segunda, 13, com dados das secretarias estaduais de saúde já registrava 1.230 óbitos).
Todas essas pessoas que morreram — e as centenas que estão numa UTI, neste momento, no Brasil, respirando com ajuda de um equipamento — têm filhos, pais, sobrinhos, amigos, companheiros, enfim, há uma grande roda que envolve cada pessoa no mundo.
A roda de gente afetada por cada óbito vai aumentar. E não é uma roda de ciranda, pois não é tempo de festa.
O que há mesmo é suspensão, ansiedade e sofrimento. E isso pode aumentar bastante. Disse, já faz algum tempo — e, na ocasião, sequer imaginava que Bolsonaro iria tentar desconstruir diariamente a necessidade de isolamento social, sem ser impedido pelo STF e pelo Congresso — que a gente precisa ser forte para atravessar esse deserto.
Não adianta, agora, entrar em parafusos, mas fazer das tripas coração pra ajudar de alguma forma a si mesmo e aos outros. É preciso copiar na vida cotidiana, simbolicamente e de modo prático também, a dedicação e a resiliência de médicos, enfermeiros e de toda a cadeia de saúde dentro de um hospital, essa gente que não desiste de lutar pela manutenção da vida de um paciente, por vezes, como neste momento, doando a própria vida.
Honremos a morte de cada profissional de saúde daqui e do mundo nesta pandemia tentando ser porto alegre ou seguro, e não tempestade em alto-mar.

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